“Função da sombra: revelar, mostrar a fundo o que há para ver (e revelar é velar de novo)”, definiu o crítico de arte Teixeira Coelho no texto Regina Silveira: a revelação da sombra, escrito em 1981 para a exposição em que a artista apresentou pela primeira vez a série Enigmas. Nesses trabalhos, sombras faziam sua primeira aparição de forma literal na produção da artista, sobrepostas a outras imagens: vemos a sombra de um pente sobre uma panela de pressão, um garfo sobre um telefone e um martelo sobre uma máquina de escrever.

Quase 30 anos depois, as sombras continuam rondando a obra da artista nascida em 1939, em Porto Alegre, e foram tema central da exposição Linha de Sombra – Regina Silveira apresentada ano passado no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Pela primeira vez no Brasil, foi reunido um conjunto dos trabalhos de Regina Silveira “em que a sombra desempenhou um papel mais significativo, fazendo um percurso por toda sua obra seguindo esta linha temática, mas abrindo o conceito de sombra ao de rastro, pegada ou vestígio, que são também marcas indicativas, que, como a sombra, apontam para o objeto que as criou”, explica o curador José Roca. “Essa exposição propunha um percurso particular por meio da obra de uma artista tão prolífica como é Regina Silveira. Apesar daquilo que o título pode sugerir, esse percurso não é cronológico nem linear, e, sim, mais labiríntico. Não tem apenas uma saída, mas muitas possíveis; e a motivação principal ao adentrar nele não é a busca de como sair, mas a aventura de percorrê-lo. Trata-se de um quebra-cabeça a desvendar, de um jogo de descobertas”, completa.

Com cerca de 30 trabalhos, a exposição ocupou os dois andares do CCBB. Eram instalações, objetos e fotografias compostos de materiais diversos para representar a sombra, como vinil adesivo preto, muitas vezes aplicado sobre paredes, teto e chão, ocupando grandes áreas. A instalação Derrapagens, por exemplo, tinha aproximadamente 15 metros de extensão. Paradoxo do Santo, outra instalação, tinha 18 metros de extensão por quatro de altura. O conjunto de obras revela que, mais do que trabalhar com a sombra, a produção de Regina Silveira está preocupada com a questão da imagem. “Criou-se esse estereótipo de que trabalho com a sombra, mas meu trabalho é com a imagem, e a sombra é um dos princípios de formação da imagem”, explica.

Obras que vão para o mundo

Era na rotunda do térreo do CCBB que estava a maior obra da exposição, feita especialmente para o espaço de 36 metros de altura. Irruption era uma projeção luminosa de imagens de pegadas que recobriram uma área de mais de mil metros quadrados, revestindo a arquitetura interna do prédio.

“Inicialmente, esse era um trabalho para ser uma grande intervenção na arquitetura realizada com vinil nas paredes, como já fiz em Bruxleas, Huston e Taipei, mas isso não seria viável tecnicamente, dada as dimensões e características do espaço. Foi então que decidi trabalhar com a projeção”, explica Regina, que revela um interesse crescente nos últimos anos por obras que dialogam com a arquitetura. O interesse pelo espaço começou ainda nos anos 1990, com os desenhos codificados da arquitetura, e se mantém até hoje, quando Regina trabalha com prédios inteiros. “A escala foi crescendo. O atrevimento também”, confessa rindo. “Me interessa essa mudança de escala: sair do papel e ir para o mundo. Sair do museu e ir para a cidade. É outro contexto, onde encontro um público não especializado. Quem vai ao museu espera encontrar arte dentro daquele lugar. Na rua, não. Gosto desse público anônimo, desse esforço de perceber onde está o trabalho”, completa.

Para a exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, a arquitetura do prédio foi estudada com cuidado pela artista, que, a cada visita, deparava-se com um espaço diferente, camaleônico. “Trabalhar com a arquitetura requer um grande esforço. Não é só levar as obras de um lugar para o outro. É essa relação entre o espaço e o objeto artístico que vem me interessando mais nos últimos anos. É um enigma que tenho que resolver, e, para isso, preciso estudar aquele espaço específico, seu significado e como ele funciona”, avalia a artista. Para a exposição individual que a artista apresenta em setembro na Fundação Atlas Sztuki, em Lodz, na Polônia, o espaço foi o ponto de partida para os dois projetos inéditos que serão exibidos. Visitando as duas salas de exposição, Regina notou a arquitetura especial, repleta de janelas.

Na primeira sala estará um projeto que a artista considera mais voltado para a questão do tempo. Mais especificamente um tempo arqueológico, antigo, já que toda a sala será tomada por imagens de quatro andares de janelas, em um desenho que toma paredes pintadas de preto e chão pintado de branco do espaço, dando ao visitante que entra a sensação de estar olhando para um abismo. “Abisal tem um forte aspecto gráfico, e mexe com o olhar e a percepção do visitante”, explica. Na sala em frente, o segundo trabalho da exposição constrói um novo lugar a partir de projeções na parede. Em Mil e um dias, uma nova versão da animação apresentada pela artista em 2007 na exposição Ficções, no Museu Vale (ES), uma projeção de quatro minutos alterna a fusão de imagens de dias e noites. A luminosidade do dia sai das janelas e inunda todo o espaço até a chegada da noite, que começa concentrada nas janelas para, em seguida, invadir todo o espaço. Outra versão desse trabalho pode ser vista desde março no Centro Universitário Maria Antonia, em São Paulo, na exposição Meialuz.

Curiosidade por novas tecnologias

Por enquanto, esses projetos são ainda pequenos estudos na mesa de trabalho da artista, em seu ateliê em Perdizes, na cidade de São Paulo. Projetos que para sair do papel e ganhar escala precisam da colaboração de muitas mãos e áreas de conhecimento. Esse interesse por diferentes técnicas e tecnologias está presente em toda a trajetória da artista. Sua postura multimídia se baseia em um interesse pelas diferentes possibilidades de construção de algo a partir de imagens gráficas de diferentes origens, nos mais diversos procedimentos gráficos. Regina Silveira sempre utilizou e misturou serigrafia, vídeo, off-set, heliografia, fotocópia e até as técnicas tradicionais como a litogravura.

“Meu trabalho sempre teve uma relação com as novas mídias, mas agora elas escapam ao meu domínio. Tenho que procurar empresas e tecnologias que tornem o trabalho possível”, explica Regina, que coordena todo o processo de perto. “Mas sempre fui lowtec, mesmo usando todos esses recursos. Não posso deixar o meio passar a frente do meu trabalho. Uso tantos meios que a plataforma comum tem que ser a poética, a ideia, senão, quem é que vai entender o meu trabalho?”, completa a artista.

Dentre as obras de Regina que envolvem técnicas eletrônicas, talvez a que pede mais tecnologia é Descendo a escada (2004), realizado em colaboração com o ItaúLab – o laboratório de mídia do Itaú Cultural. O trabalho é uma versão digital e interativa, elaborada em estreita colaboração com Marcos Cuzziol e Nelson Multari, de Escada inexplicável 2 (1999), trabalho de vinil recortado aplicado em parede. Na versão digital, a projeção sincronizada de três projetores de vídeo, diretamente no chão e nas paredes (em backlight), constrói magicamente um continuum dinâmico e giratório que faz com que o participante, estando sobre a parte da imagem projetada no chão, experimente a descida como uma ação vertiginosa e sinta-se praticamente sugado pelo movimento centrípeto do modelo digital.

Entre as experiências com projeção estão também trabalhos como Super-Herói (Night and Day), realizada inicialmente na Avenida Paulista, em São Paulo (1997), e depois em Buenos Aires (1999) e em San Juan de Puerto Rico (2000), composta da projeção luminosa em raios laser e a colagem de uma sombra de grandes dimensões, em vinil, sobre a fachada de um edifício. Já em Transit (2001), a projeção luminosa da imagem de uma mosca gigante é efetuada por um projetor montado em veículo aberto e em deslocamento por São Paulo (1997), Curitiba (2002) e Porto Alegre (2003).

“As ideias precisam de meios específicos para serem realizadas. Estou sempre buscando”, conta a artista, que pode se interessar pela tecnologia de ponta, ao mesmo tempo em que se interessa por técnicas tradicionais e antigas. Foi o que aconteceu em Mundus Admirabilis e Outras Pragas, com obras sobre suportes diversos, oferecendo soluções multimídia, objetuais e sonoras sobre o tema das pragas históricas e míticas. Um dos elementos da instalação apresentada em outubro de 2008, na Galeria Luciana Brito, em São Paulo, era uma mesa com uma toalha inteiramente bordada por bordadeiras do Ceará. “A toalha de linho levou dois anos para ser ornada por uma bordadeira do Ceará, especialistas no ponto de cruz. Essa é uma tradição do nordeste brasileiro. Tentei fazer perto de mim, em São Paulo, mas não ficou com a elegância que eu queria. Tive que ter a paciência de esperar dois anos”, explica Regina. O trabalho, em uma versão ampliada, faz parte da Philagraphika 2010, evento internacional que busca mapear e trazer novas expansões da gravura, reunindo na Filadélfia (EUA) mais de 300 artistas e mobiliza cerca de 90 instituições culturais da cidade.

“Minha produção é toda marcada pela curiosidade sobre os meios possíveis de produção da imagem. Meu foco é a imagem e não a tecnologia. Parei de trabalhar com vídeo ainda nos anos 1970, quando a produção em vídeo se especializou. Fechei o piano, como dizem. Só voltei nos anos 1990. Essa especialização é como se, de alguma maneira, estreitasse as possibilidade que aquele meio oferece. O mundo que eu quero é sempre um pouco maior!”, resume Regina.

Hoje, há quase 50 anos da realização da sua primeira exposição individual, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul, por Porto Alegre, Regina Silveira, uma artista destacada no cenário da arte contemporânea, com uma impressionante trajetória de exposições no exterior, reconhece que o campo da arte mudou muito, mas não só ele. “A vida mudou muito nesse tempo todo. Não foi só a arte. Eu também mudei. Impossível não mudar. E acredito ser importante estarmos atentos a essas mudanças. É uma bênção que elas existam. A arte acaba sendo uma resposta a elas”, explica. “Nunca pensei que chegaria viva ao ano 2000 e já estamos em 2010. Minha única nostalgia é saber que não vou poder ir muito mais adiante. Queria ter nascido alguns anos mais tarde para poder ver as viagens para o cosmos. Esse era o sonho da minha geração. Agora, sonho com paz e ecologia”, completa a artista, que mantém a agenda cheia de projetos de 2010 em 2011, com exposições já confirmadas na Fundação Iberê Camargo (em Porto Alegre), em Madri (Espanha) e Nova Orleans (EUA).

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