DASARTES 31 /

Mundos cruzados

Exposições como “Mundos Cruzados”, no MAM-Rio, que traz à tona produções que dialogam com este universo mais popular.

Uma série de fronteiras ao redor de um gueto nas artes visuais vem se dissolvendo nos últimos anos. Desde a última edição da Documenta, em Kassel, na Alemanha, e a Bienal de São Paulo, no ano passado, até a Bienal de Veneza agora em cartaz, a arte dos artistas não treinados, de loucos a autodidatas, ou aquilo que no Brasil se costuma chamar artistas populares, vem adentrando com força o circuito antes reservado aos nomes da arte contemporânea chancelados pela academia, a crítica e – em especial – os agentes do mercado.

É um fenômeno visível na trajetória ascendente de Arthur Bispo do Rosário, por exemplo, que, no intervalo de duas décadas, foi de louco internado numa colônia psiquiátrica a estrela da arte contemporânea, alvo de amplos estudos e livros e âncora de uma parte importante das bienais de São Paulo e Veneza. Em situação análoga, artistas como Raphael Domingues e Emygdio de Barros – que foram internos no hospital do Engenho de Dentro, conduzido por Nise da Silveira, e pupilos do artista Almir Mavignier – também ganharam mostras de fôlego no Instituto Moreira Salles no Rio e em São Paulo.

Uma exposição agora em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio toma como ponto de partida a obra visual de Ione Saldanha, que aos poucos foi aposentando o suporte tradicional da pintura para incorporar objetos do cotidiano, de bambus a imensas bobinas encontradas no porto carioca, num processo plástico que em muitos aspectos lembra aquilo que seria a estética ingênua, ou naïf, dos artistas populares. Ao lado da sala de Saldanha, como numa progressão fluida, está o recorte proposto por Mundos Cruzados, em que os curadores Luis Camillo Osorio e Marta Mestre comparam a produção de nomes como o popular GTO à de figuras consagradas do circuito contemporâneo nacional, como Barrão.

“Essa fronteira entre popular e contemporâneo é muito indefinida e está sendo deslocada o tempo todo”, diz Osorio. “Nossa ideia era trazer a arte popular para esse espaço da arte contemporânea e levar o contemporâneo para esse outro espaço, apostando que essa indefinição pode ser produtiva. Não é para borrar fronteiras, mas mostrar que estamos querendo pensar sobre elas.”

Nesse ponto, Osorio lembra o mélange entre popular e erudito na atual Bienal de Veneza. Massimiliano Gioni, o curador da mostra italiana, partiu, aliás, da obra de um autodidata, ou outsider, termo preferido para designar artistas à margem do mercado no circuito global, para estruturar sua exposição. No caso, seu Palácio Enciclopédico, ecoando o nome da mostra, reflete a proposta tão poética quanto impossível de reunir numa única torre infinita todo o conhecimento do universo – uma ideia do mecânico italiano Marino Auriti, que chegou a construir uma maquete para sua Babel da sabedoria visual.

Um ano antes, a Documenta de Kassel, organizada por Carolyn Christov-Bakargiev, também abalou essas divisões entre artistas oficiais e extraoficiais, incluindo além de nomes comuns do panteão contemporâneo uma leva de físicos, biólogos e até aborígenes australianos na exposição. Em São Paulo, Luis Pérez-Oramas bateu nesse ponto em sua homenagem a Bispo do Rosário e, numa operação mais sutil, com a reabilitação que promoveu da obra de Alair Gomes, professor de física que só foi reconhecido como artista, em especial por suas fotografias de teor homoerótico submetidas à métrica da música, depois de morto.

Mas enquanto o circuito se esforça para cruzar esses mundos, como quer a mostra do MAM carioca, o mercado ainda é mais lento, resistindo à incorporação da arte popular ao resto do time, embora preços venham dobrando nos últimos anos. Osorio vê nessa tendência do circuito expositivo e institucional de mesclar arte alta e baixa, para usar a percepção mercadológica dessa produção, como oposição à voracidade do sistema da arte. “É uma tendência para se diferenciar das feiras”, diz o curador. “Nas feiras de arte, tudo é arte, enquanto numa bienal tudo passa a poder ser arte. É a arte como problema e não como certeza.”

Paulo Sergio Duarte, crítico e curador que organizou a mostra Arte Além do Sistema, na galeria paulistana Estação, em que expôs populares ao lado de nomes como Tunga, Nuno Ramos e Germana Monte-Mór, parece dar respaldo a essa ideia dizendo ter certeza de que a arte dos chamados populares está no mesmo patamar, talvez até acima, do que se apresenta no circuito contemporâneo, lembrando as pinturas de Alcides como “plano pronto para um movimento virtual”, capazes de “ensinar a muito jovem neopop o que poderia ser uma vertente da pintura atual”. “Ainda hoje, com todo o palavrório da pós-modernidade e seu relativismo inconsequente, é proibido confrontar potências poéticas de diferentes origens”, escreve Duarte. “Estamos segregados, vivemos em guetos.”

Tanto que, mesmo tendo estudado a produção de artistas considerados loucos, como Raphael Domingues e Emygdio de Barros, e tendo escrito o prefácio de um catálogo da mostra de arte popular Teimosia da Imaginação, há três anos no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, o crítico Rodrigo Naves é taxativo ao dizer que esses campos permanecem esferas estanques, longe de um diálogo possível.

“Na arte brasileira hoje em dia, não vejo qualquer ponto de contato entre o que se chama arte popular e o que se chama contemporâneo”, afirma Naves. “Tem gente que acha que Volpi é popular. As casas que ele pintava têm a ver com pintura de fachadas de casas pobres, mas não acho Volpi um artista popular. No fundo, a arte contemporânea tende a virar uma espécie de teoria sobre a própria arte, enquanto a relação dos artistas populares com o mundo é mais rude.”

Rude, mas não menos sofisticada. Na opinião da marchande Vilma Eid, à frente da galeria Estação, uma das poucas casas no país dedicada à representação exclusiva de arte popular, esses artistas já não podem ser confundidos como artesãos e suas obras, mesmo calcadas na presença mais elementar da imagem, já refletem aspectos complexos da contemporaneidade. “O artesanato é a repetição de uma fórmula infinita, que dura enquanto houver um mercado interessado nela”, diz Eid. “Mas a arte popular também é arte contemporânea, só que feita por artistas que não tiveram formação, embora vivam no mundo atual, com internet e televisão. As esculturas de artistas como Veio e José Bezerra já perderam as características barrocas. Hoje o olhar deles é mais limpo e sintético.”

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