© Munch Musuem/Munch-EllingsendGroup/DACS 2012

DASARTES 24 /

Munch – Além de “O Grito”

Exposição no Tate Modern de Londres propõe uma viagem pela obra do artista norueguês.

Na virada para o século 20, a Noruega viveu grandes turbulências ao deixar para trás filosofias ocultas, que assombravam a mente de seus habitantes com lendas de vampiros e bruxas, e se transformar com as descobertas científicas que aconteciam ao redor. Edvard Munch nasceu quatro anos depois que Darwin publicou sua Teoria das Espécies e absorveu muito da querela entre ciência e espiritualidade. Antes de ser pintor, estudara engenharia. Essa predileção pela técnica explica sua dedicação a experimentações com filme e fotografia, que eram novidades fascinantes para a época, assim como a descoberta de raios X e ondas de rádio. Tantas transformações não passaram em branco aos olhos de Munch. Afinal, ele era uma artista moderno e, como tal, transgressor. Causou muita polêmica ao pintar várias versões do mesmo quadro colocando a originalidade em questão e teve inclusive uma exposição fechada em 1882, em Berlin, censurada por ter sido considerada uma provocação anarquista. Ir contra os padrões o ajudou a ficar conhecido. Será essa a chave para a fama, um legado para os artistas de hoje?

O foco em O Grito (1893-1910), no entanto, deixou suas outras obras na sombra. A pintura, que já era um ícone, ficou ainda mais famosa depois que uma versão foi roubada do Museu Munch, em Oslo, em 2004, e em maio deste ano outra foi vendida para a família real do Qatar por US$ 119,9 milhões em leilão da Sotheby’s e se tornou a única em coleção privada. Suas obras menos conhecidas são como lentes para ver o passado pelos olhos de Munch. Para mostrar uma nova perspectiva, a Tate Modern decidiu não incluir O Grito na exposição Munch: um olhar moderno, que fica até 14 de outubro em Londres. Entre filmes, fotografias, gravuras geniais e até esculturas, pode-se viajar a uma época em que a sensação pessimista do fin-de-siècle estava presente, com a qual muitos ainda se identificam.

A relação entre ciência e espiritualidade está representada no quadro O Sol (1913), um dos destaques da exposição, em que ele tenta expressar a busca da humanidade pela luz da revelação. Também está presente nas fotografias em que usava dupla exposição para criar espectros, assim como bordas e movimento. Munch estava impregnado com a estética do futurismo que via em pinturas e revistas ilustradas da época e usava a câmera para conseguir efeitos de dinamismo cubista. Também absorveu a influência do expressionismo alemão e se dedicou a experimentar com cinema. Alguns de seus quadros parecem storyboards como Cavalo Galopando (1912), em que um cavalo aparece correndo em direção ao espectador como se fosse sair pelo quadro, reproduzindo a sensação de filmes como A Chegada de um Trem na Estação da Cidade (1895), dos irmãos Lumière. Assassinato na Estrada (1919) parece uma cena tirada de um filme de Hitchcock, cujo assassino vem caminhando em direção à vítima, no caso, o espectador.

As perspectivas e cores intensas dão uma sensação de vertigem e algumas pinturas parecem inacabadas, complementando o simbolismo de sua obra ao demonstrar que mais importante que o realismo é a força da expressão, a fluidez e o imediatismo da pintura. Pinceladas agitadas, luzes e sombras dramáticas contribuíram para que fosse considerado o pai do expressionismo, mas foi no simbolismo que Munch encontrou sua maneira de expressar emoções humanas. Proveniente de uma linha de pensamento existencialista, acreditava que a arte é um meio para experimentar as emoções e não um fim para representá-las, o significado está implícito. Assim como Van Gogh, ele pintou uma Noite Estrelada (1922-1924), mas na versão de Munch ele se coloca como uma sombra, representando o que ele vê, o externo e o interno ao mesmo tempo. Suas obras geralmente se compõem em metalinguagem, mas também em metáfora ao expressar sem definir.

Uma das obras com que se destacou foi Criança Doente (1907), na qual pintou a própria irmã, que morreu de tuberculose. Depois o revisitou, pintando com mais emoção, como se cada versão o ajudasse a lidar melhor com o luto, enquanto tentava guardar as memórias. Se para ele fazer várias versões era uma forma de terapia, uma catarse, é natural que as versões fossem se tornando mais alegres, com traços mais modernos, aproximando-se do simbolismo de Gaugin. Esse apelo pessoal que usa a arte como autoanálise e instrumento de catarse também é um legado deixado para artistas neoexpressionistas de hoje como Tracy Emin, que ficou famosa ao colocar sua cama, depois do sexo, no museu. Conhecido por muitos, mas compreendido por poucos, agora se pode ver que Munch vai muito além de O Grito.

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