© divulgação

DASARTES 19 /

Modigliani, imagens de uma vida

A exposição Modigliani, imagens de uma vida celebra a abertura no Espírito Santo do Momento Itália no Brasil propondo um olhar vasto sobre o artista.

A exposição Modigliani, imagens de uma vida celebra a abertura no Espírito Santo do Momento Itália no Brasil propondo um olhar vasto sobre o artista. A montagem convida o espectador a conhecer e acompanhar seu universo narrativo, distribuído em quatro ambientes do Salão Afonso Brás, no Palácio Anchieta, centro de Vitória (ES). Composta com 188 obras, incluindo 12 pinturas em óleo e cinco esculturas em bronze, a exposição conta também com uma sala de vídeo onde o visitante, através de uma projeção, pode conhecer melhor a vida de Modigliani.

Nascido Amedeu Clemente Modigliani a 12 de julho de 1884, filho da miséria e da pobreza, a partir dos 14 anos abandonou definitivamente os estudos para se dedicar às artes e frequentar o atelier de Guglielmo Micheli. A mostra ressalta sua chegada a Paris de 1906 e a convivência cultural com a efervescência artística da cidade. A partir daí, acompanhamos a trajetória no tempo do artista, numa narrativa que ascende artisticamente em contraponto com sua decadência física.

Também se pode conhecer o entorno de Modigliani, levado à exposição numa miríade de registros, telas e desenhos de outros artistas de sua convivência em Paris, assim como dos ateliês de Max Jacob, Marevna, Foujita e Severini. São quadros de Maurice Utrillo, Moise Kisling, Jeanne Hébuterne e desenhos de Picasso, entre outros, e fotografias de Modigliani ao lado de Picasso, Jean Cocteau, Max Jacob, André Salmon e Paul Guillaune, além de fotografias em seu atelier e dos lugares onde morou em precárias condições.

Atento, mas ao largo das escolas que a vanguarda firmava e do ocaso político da Paris que se revigorava pelas artes, Modigliani encontrou seu próprio cosmos. Sua obra seria lançada ao mundo através do galerista Paul Guillaune, apresentado por Max Jacob, e também pelo incentivo do poeta Léopold Zbowroski. Porém, o universo de Modigliani seria abalado e modificado por sua primeira musa, a poetisa Beatrice Hastings, com quem viveu um romance de dois anos. Seu trabalho, enquanto o relacionamento se exauria, avançava para a maturidade. O artista encontra sua forma, seu estilo, e em sua pesquisa plástica da cor conhece sua última companheira, Jeanne Hébuterne, com quem viveu três anos até que sua saúde, castigada pelas condições de vida precária e pelo frio parisiense, o levassem ao coma em 24 de janeiro de 1920.

Uma das salas da exposição abriga esculturas de Modigliani. Além das similaridades com sua pintura, essas esculturas mostram a concisão de seu traço, onde se reconhece o alcance de seu estilo. A trajetória de Modigliani persiste em um caminho que encontrará a forma pura e nela erigirá seu trabalho. Modigliani não é cubista, não é fauvista, não é clássico. À diferença de Cézanne, para quem o intelecto deslindava o caminho moderno, Modigliani o trilhava com o sentimento. A plástica pictórica dos quadros irromperia em diferentes planos coloridos num contraponto de cores em que a volumetria de cada parte viria solucionar a forma pela cor, entretanto instadas pelos traços que desenham o nariz agudo, a boca e suas nuances, os olhos perturbadores, sendo estes os detalhes de uma composição psicológica.

 

Onde podemos localizar Amedeo Modigliani na história ocidental das artes? E como seria plausível uma localização histórica diversa da que o faz também traçar a silhueta contemporânea? Pela abertura de seu olhar vemos o discurso de uma cor intensa e tênue, sulcada ou por vezes rarefeita. Com a psicologia fisionômica que vela ao espectador seu outro retratado, Modigliani faz o retrato de sua Jovem de olhos azuis, de 1917, vir imerso em subjetividade e ainda assim verossímil, imbuído tanto de figuração quanto de particularidades. Antes de se ater à narrativa cubista, que ele absorveu e assimilou sem, contudo, seguir, foi com o retorno ao nu e ao retrato que seu trabalho alicerçou no mundo das artes o colorário de uma obra capaz de deixar para trás o realismo clássico.

A paleta de cores anterior a Paris também se fora, para sempre perdida nas curvas sinuosas de sua Figura nua sentada com os braços para trás, de 1918. Pintura soberba, em que o corpo nu tem a presença do movimento que não se contrai ou encobre o sexo, pelo que é em si mesma sensual e sutil, triste e encantadora. Comparada a outro nu, este de Kisling, que a exposição exibe ao lado, a Figura nua sentada… de Modigliani se move com langor, o quadril liberto, enquanto uma perna estendida não constrange a elegância, antes a reafirma envolta numa graça amorosa, sem que a verve erudita do traço lhe estude menos a languidez ou menos lhe aperceba um questionamento nos olhos. Esse encontro de poesia e rigor estético, estabelecido entre a proporção plástica das camadas de cor na superfície e o contorno que orna a figura, é de um regozijo hábil, bonito, e mostra intensidade em toda a sua forma, não parece querer decifrar a lógica dos campos de cor, muito embora os conheça, quando, perspicaz, distribui em camadas um alicerce de leveza.

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque, materia, yves klein

Yves Klein - Cronologia

CRONOLOGIA

1928 – Nasce em Nice, filho de um casal de artistas.
1947 – Inicia seus estudos do Judô e, no Clube …

Destaque, materias

57ª Bienal de Veneza

Viva Arte Viva

A 57ª Bienal de Arte de Veneza intitulada “Viva Arte Viva” inaugurou no início do mês de maio, …

Piti Tomé

O trabalho de Piti Tomé gira em torno da fotografia e da experimentação com a imagem. Sua pesquisa tangencia questões da psicanálise e trata …

Felipe Barbosa

Em junho e julho, o Brasil respirará o maior evento mundial de futebol: a Copa. Independentemente de questões políticas ou …

Bruno Miguel

A pesquisa sobre o espaço da pintura de paisagem na arte contemporânea e a expansão do campo pictórico tem sido o …