© Foto: Tim Lanterman

DASARTES 03 /

Mira Schendel

Da Série Objeto Gráficos

A partir de 5 de abril, a obra de Mira Schendel será exibida no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, após o sucesso de sua última individual no Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, em 2005. Espera-se que o MoMA finalmente traga à artista o tão merecido reconhecimento internacional de seu trabalho.

A exposição, intitulada Tangled alphabets (em português, “alfabeto embaralhado”), reúne 185 obras de Mira Schendel e León Ferrari, entre desenhos, pinturas, gravuras, colagens e esculturas, das quais a maioria nunca foi exposta nos Estados Unidos. O conjunto da obra dos dois artistas é distinto e variado, e sua contribuição à arte de hoje não pode ser resumida a uma série ou fase específica de seus trabalhos. Ambos produziram obras inspiradas pela caligrafia, que incorporam textos ou a própria filosofia da linguagem, daí o nome da exposição. O curador Luis Pérez-Oramas preparou uma dupla retrospectiva sobre esse tema, explorando a longa e inovadora trajetória da carreira desses dois exímios artistas. Ambos exploraram o texto e as formas geométricas em uma variedade de combinações que conferem à exposição uma vasta e impressionante riqueza de ideias sobre linguagem, geometria e expressão.

A proposta ambiciosa de Luis Pérez-Oramas é colocar lado a lado, em uma espécie de diálogo, a visão dos dois artistas sobre a linguagem. Em qualquer bom diálogo, existem bases comuns ou vocabulários semelhantes, mas também há desacordo e interpretações consideravelmente diferentes de um mesmo veículo ou das mesmas “frases” formais.

Schendel (1919-1988) e Ferrari (1920) trabalharam praticamente durante o mesmo período, no Brasil e na Argentina, respectivamente, e produziram uma série de trabalhos textuais em papel. Apesar das semelhanças superficiais entre as obras dos dois artistas, ambos se relacionam de forma diferente com os materiais, a geometria e a linguagem. O zen-budismo que inspira a obra de Schendel cria uma atmosfera de introversão e tranquilidade. O trabalho de caligrafia parece reduzido a um esforço pré-linguístico, uma maneira de explorar a mente antes do processamento da linguagem, o que talvez seja uma definição mais precisa da linguagem em si. A obra de Ferrari, por sua vez, é frequentemente baseada na linguagem manifesta; trata-se de longos trechos de escrita cursiva sobre assuntos variados, abstrações do formato da página escrita, ou símbolos icônicos da terminologia da história da arte e da religião. Muitos de seus trabalhos conseguem unir de forma impressionante a geometria abstrata e a linguagem simbólica. Apesar de sua abstração e sensualidade superficial, a obra do artista é bastante temporal e socialmente relevante.

Em contraposição ao trabalho de Ferrari, que procura comunicar visões políticas esquerdistas, Schendel parece não ter envolvimento político, aproximando-se muito mais da mente de um cientista ou de um monge zen do que de uma personalidade polêmica. A artista parece inclinada a falar somente em sua própria linguagem, e não parte de nenhuma verdade absoluta, mas sim de um papel em branco, a partir do qual segue em direção a sua própria concepção fenomenológica da linguagem e da imagem. Apesar do caráter intelectual redutivo e absoluto da maior parte de suas obras, há também uma beleza inconsciente e uma sensualidade intensa. Nas séries de desenhos intituladas Escritas, ou Letras, as marcas e superfícies delicadas que parecem ter-se autocriado sugerem que a artista tenha descoberto o que o papel e a escrita podem fazer sozinhos, quando não estão sujeitos às restrições humanas. As formas livres e amorfas parecem participar de diferentes sugestões e representações, sem serem forçadas a constituir uma imagem em particular. Outras formas simples e lineares aludem a paisagens e diagramas, ou ao ato de escrever, resultando em uma fusão descontraída e natural, mas simultaneamente rígida e intelectual. Esse equilíbrio constitui a força que pode ser vista continuamente em toda a sua obra. Na série Objetos gráficos, Schendel experimenta o uso de letras impressas, reduzindo a linguagem a um frenesi de elementos aglomerados, vistos através de camadas de papel transparente. Em quadros como Sim, a artista expande ou exagera a linguagem, sendo que uma única palavra ou frase compõe toda a obra. Em muitos de seus desenhos sem título, formas caligráficas livres e delicadas transmitem mensagens quase tão claras quanto as do texto escrito, real e legível.

O momento parece oportuno para a tão esperada exposição dos dois artistas no MoMA, já que, atualmente, artistas e críticos de todo o mundo estão buscando novas formas de compreender e contextualizar a evolução da arte na segunda metade do século 20. Esta exibição da obra de Mira Schendel, em particular, será de grande valor para uma reformulação mais abrangente e global da história do modernismo. Sua obra parece ter-se envolvido nas mesmas questões abordadas pelas correntes da color-field painting, da abstração gestual e do minimalismo, mas de maneiras totalmente diferentes daquelas tipicamente encontradas na história da arte ocidental.

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