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DASARTES 33 /

Mira Schendel – O vazio que transforma

Direto da Tate Modern, retrospectiva chega renovada à Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Uma grande retrospectiva da enigmática Mira Schendel (1919-1988) chega à Pinacoteca do Estado de São Pulo depois de inaugurar com grande comoção em setembro do ano passado, na Tate Modern, em Londres, coroando a ponte entre as duas cidades que começou em 1966, quando Mira apresentou seu trabalho na galeria Signals. Essa é a primeira exposição monográfica internacional da artista que é parte importante do desenvolvimento do Modernismo europeu no Brasil. É muito interessante ver como ela adaptou e criou sua própria linguagem. A mostra traz mais de 250 obras entre pinturas, desenhos e instalações, algumas nunca exibidas antes.

Desconhecida do público internacional e ainda muito a ser divulgada aos brasileiros, ela faz essa conexão em seu trabalho, que possui profundas raízes europeias. Nascida na Suíça, em 1919, Mira emigrou ao Brasil, em 1939, como judia fugindo do nazismo. Chegou a Porto Alegre, onde começou sua carreira como artista. Depois se mudou para São Paulo e participou da primeira Bienal, em 1951. Logo se casou com Knut Schendel, alemão, dono da livraria Canuto’s, e assim se integrou ao círculo de intelectuais da capital. Mira se envolvia noite adentro em discussões filosóficas que se refletem em sua obra.

Embora cercada por movimentos artísticos predominantes na época, como o Construtivismo e o Neoconcretismo, Mira não se fixou em qualquer determinação de estilo. Suas formas abstratas possuem um significado profundo que vai além do formalismo. Flutua entre o abstrato e o figurativo e fica na tangente, tocando tudo ao mesmo tempo. Sua obra é difícil de decifrar num primeiro olhar, mas, conhecendo suas intenções, fica mais fácil compreender. Fincada em teorias existenciais, ela tenta entender a relação do homem com o mundo. Mira busca ir além da razão através da abstração, mas, ao mesmo tempo, mantém um ponto de identificação com o espectador através da figuração. Sua obra possui uma abertura atemporal e universal capaz de levar a um conteúdo ao mesmo tempo iminente e transcendente.

Consegue traduzir conceitos filosóficos em símbolos materiais encantadoramente. A exposição em Londres abriu com as Naturezas Mortas, de 1953, da qual participou da primeira Bienal de São Paulo. É uma experiência de Gestalt, em que ela questiona o plano achatado da pintura, criando dimensões em cores terracota pintadas em têmpera. Ela brinca com a perspectiva, retraindo e puxando o espectador para dentro do quadro. Nos anos 1960, ela começou a pintar quadros mais geométricos. Porém, fugia da geometria euclidiana por não seguir uma simetria. Formas básicas como círculos, triângulos e quadrados formam parte de uma linguagem metafísica universal.

Mira brinca com o espaço em uma referencia à Fenomenologia. Objetos simples, como uma cadeira ou uma colher, ganham uma corporeidade surpreendente através do peso, do contraste e da comparação. A textura e a materialidade de suas Paisagens (1963) a aproximam da arte informel europeia, mas suas formas arquetípicas reafirmam seu interesse na relação do ser com o vazio, a unidade do todo. A espiral como elemento gráfico representa o espaço/tempo. Ao se colocar diante de sua pintura, o espectador é transportado para uma dimensão além da racional e não pensa em coisa alguma, experimenta o vazio.

A força do significado em seus símbolos e palavras é cativante e fazem de Mira uma referência à semiótica. Como na série Bombas, na qual consegue representar o tempo em ascendência com um desenho tão simples. Em uma viagem de volta à Itália, onde havia estudado quando jovem, conheceu Umberto Eco, grande pensador da semiologia. Seu livro Obra Aberta é uma grande referência para ela. As letras apresentadas na série Monotipias, com mais de dois mil desenhos feitos em papel de arroz, são como readymades para a criação de uma poesia visual. Mas não possuem significados literários, são códigos de uma linguagem não convencional, aberta e universal, um silêncio que diz tudo. Sem muita preocupação com a maestria técnica, mais pela força da simplicidade, Mira consegue passar a essência do existir em suas obras. Em seus desenhos, o posicionamento de uma linha no espaço contém toda a relação do ser com o vazio.

Diferentes línguas que fizeram parte de sua vida habitam composições criadas a partir de um fluxo de consciência de Mira, como em Universo (1964), que parece um esboço de sua visão da existência do homem no mundo, e em Alleluia (1973), composto de referências ao catolicismo. Porém, nem toda a série é tão séria. A monotipia A Trama traz um comentário de Mira sobre o trabalho mesmo. Onde aparece um rasgado no papel, ela o aponta com uma seta e escreve “rasgou outra vez”, e assim nos aproximamos ainda mais dela por meio de seu humor.

Com o mesmo papel de arroz criou suas Droguinhas, esculturas de papel amarrados que, junto com seus Bordados, aludem a uma produção mais doméstica e feminina, mas que também remetem ao Zen pela simplicidade da tarefa. A característica de transparência do papel de arroz foi um grande achado para Mira, que na época estudava a filosofia de Jean Gebser. Para ele, a transparência é uma forma de manifestação do espiritual que está em todas as coisas e permite uma transformação da consciência. Pode-se ver a evolução de Mira nesse sentido no que se segue da exposição com uma reprodução da instalação Objetos Gráficos, criada para a Bienal de Veneza, de 1968. O espectador caminha em volta das peças que podem ser vistas por um lado ou pelo outro.

Com Trenzinho (que levou a Londres para a exposição na Signals), Transformáveis, os lindos Perfurados e a série cinética de Discos, o tema da transparência, tão frutífero para sua carreira, segue, até chegar, majestosamente, à instalação Ondas paradas de probabilidade, que apresentou na Bienal de São Paulo de 1969. Quando muitos artistas boicotaram a instituição na época da ditadura, Mira participou querendo demonstrar que existem outras maneiras de resistir. Influenciada por Gebser, usou linhas transparentes para mostrar que existem coisas que não vemos, mas que são grande parte de nossa vida, forças ocultas, como a fé.

A imaterialidade do material, o visível do invisível, opostos que se complementam para formar a unidade do todo, essa instalação e Variantes, de 1997, são o ponto alto da exposição. Diversos papéis transparentes pendurados com códigos gravados, às vezes pela sua própria unha, criptografados, que não precisa decifrar para entender. Com magnitude e, ao mesmo tempo, uma delicadeza admirável, revelam a força de Mira para expressar a transcendência.

A exposição fecha com suas obras dos anos 1980, referenciando à dinâmica de opostos do I Ching e sua última série de 1987, Sarrafo, uma explosão de formas básicas não contidas no espaço recriado com a perfeita harmonia de suas composições. Assim, Mira consegue juntar toda sua linguagem para gerar uma mudança na consciência humana através da presença. Apenas estar diante de sua obra já causa uma modificação. A mostra na Pinacoteca é uma oportunidade imperdível para os brasileiros participarem dessa experiência transformadora da obra de Mira Schendel.

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