Milton Machado – A produção de um homem muito abrangente

Quem é ou o que é um artista hoje? “Eu assevero que um ser que existe em qualquer parte e que não corresponde a nenhum ponto do espaço; um ser que não tem extensão e que ocupa a extensão; que está absolutamente inteiro em cada parte desta extensão; que difere essencialmente da matéria e que está unido a ela; que a segue e a move sem se mover; que age sobre ela e dela sofre todas as vicissitudes; um ser do qual eu não tenho a menor ideia; um ser de uma natureza tão contraditória é difícil de admitir”. Esta resposta, na verdade, foi escrita há três séculos por Diderot em uma de suas conversas com D’Alembert e, na verdade não tratava imediatamente de arte. No entanto, o seu deslocamento e apropriação espelham os modos de trabalho de Milton Machado.

Sua trajetória começa na década de 1970 e, naquele momento, concentrava-se no desenho (uma seleção deles feita pela curadora Victoria Noorthoorn junto com o artista está na Bienal do Mercosul). Contudo, já se percebe um raciocínio desdobrado até suas obras atuais: colocar a arte e seus dispositivos em contínua deriva. Isto se dá por três princípios tributários da obra de Duchamp e da arte conceitual: a apropriação da Arte (com “A” maiúsculo, ou seja, sua presença histórica) e seu exame como arte (com “a” minúsculo – indicando que sua dinâmica hoje se esquiva de garantir-se em uma posição absoluta ou uma essência); a permutação dos espaços da arte e do real, simulando-se reciprocamente; e a potência que as imagens produzidas pelo artista têm de multiplicarem narrativas oriundas da meticulosidade com a qual os elementos visuais são agregados.

Suas obras nunca se entregam à primeira vista. Ao contrário, exigem atenção máxima. Esta é uma de suas principais características: em um caso, pequenas “partículas” provindas de recortes de desenhos a pastel lembram detalhes fictícios de pintores clássicos; em uma série de fotos, traça-se o jogo entre quem vê, o que vê e o que é ser visto. O deslocamento manifesta-se como agregação de um significado que não se esconde e sim se duplica diante do original. “Real” e simulação tornam-se, no fim das contas, problemas de ponto de vista.

Por tais ambiguidades, chegamos a uma proposição decisiva de Milton acerca do sujeito contemporâneo: em uma performance chamada Homem muito Abrangente, um bom atirador de facas tem que se tornar, em nome de sua honra, mau, e acertar seus lances no desenho de seu contorno (que evoca o Homem de Vitrúvio, de Leonardo da Vinci) na parede. Enquanto isso, o artista escreve: “Um homem tão abrangente que ocupasse o mundo todo menos o próprio espaço de seu corpo poderia sair-se muito bem como assistente de um mau atirador de facas”. Finalmente, acabada a sessão, escreve ao lado da figura: “pele”. Este corpo fora de si traduz a conclusão de o indivíduo ser hoje “todo exterioridade”.

Considerada a discussão presente na arte dos últimos quarenta anos sobre o corpo como obra e seu difícil relacionamento com a onipresença de imagens, que faz nosso contato com o mundo cada vez mais indireto, percebemos a fronteira em que Milton se coloca. Ela remete à passagem de um romance de Fitzgerald na qual um tutor ensina para seu discípulo a necessidade de ele “deixar de ser um personagem para se tornar uma personalidade”. Em Milton, esta troca de posições revela nitidamente os dilemas entre o sujeito moderno e o contemporâneo. Em primeiro lugar, ao incorporar outra lógica existencial: se o indivíduo moderno era o self-made man, o Homem muito Abrangente é o ready-made man. Em seguida, porque esta personalidade não é mais sinônimo de autenticidade; construindo-se pelo que lhe é externo, ela se torna imagem ilimitada de si. Somos cada vez menos essência, como exemplificam os inúmeros perfis que povoam sites de relacionamento mundo afora. Quando Milton usa a foto do showman norte-americano Michael Feinstein como seu sósia, em sentido quase literal seu dublê (com o sugestivo título ME IN. ME OUT), ele aciona no espectador o inquietante titubeio em identificar perfeita e erroneamente na foto aquele que não é. Se não temos mais certeza de quem somos, como confiar em tudo mais? Podemos nos apropriar de nós mesmos, sermos nós sendo outro. Nada mais concreto do que o logro.

Sua recente exposição na Galeria Nara Roesler intitula-se Produção. No espaço principal, móveis industriais – caçambas, porta-pallets – temporariamente abrigam parte da reserva técnica; em contrapartida, chapas e outras partes fabricadas ocupam algumas estantes da reserva. Há um desafio que ultrapassa as negociações entre os envolvidos ou até o processo de analogias apontadas pelo artista entre um lugar e outro com suas práticas e circulação de objetos. Estamos diante de um objeto que acumula história da arte em suas entranhas e de outro que simboliza a mecanização (e mercantilização) de linguagens antes dominadas pela arte. Em última instância, disseca-se com precisão histórica e industrial quem é esta figura do artista. É inevitável lembrar da discussão levantada há mais de meio século pelo filósofo alemão Walter Benjamin sobre o “artista como produtor”. Falar dele a partir desta comparação não se restringe a indagar seu lugar social, mas saber, afinal, o que ele produz, quando tudo parece ao alcance das mãos. Dúvidas, suspensões, desconforto. O artista usa os recursos mais avançados para produzir ineficiência, para interromper o ciclo domesticado da competência do mundo atual. Não o faz pela nossa máxima moderna do “ai, que preguiça!”; ele prefere nos convidar ao exercitarmos ao extremo nossas faculdades, para no fim vacilarmos sobre e nossas certezas.

“Faz-se mármore da carne e carne com o mármore”, declarava Diderot. “Tornar o mármore comestível? Isto não me parece fácil”, respondia D’Alembert. Produção faz da Arte arte e da arte Arte, pois sua dinâmica é a das improbabilidades. Parafraseando Nietzsche, a arte só é boa quando se paga com a má digestão. Apenas elas são razoáveis no mundo das personalidades.

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