Filho de diplomata, Miguel Rio Branco se diz tão múltiplo quanto sua produção: nasceu na Espanha, tem dupla nacionalidade (francês e brasileiro) e viveu em vários países. Considerado um dos maiores fotógrafos brasileiros, é o único do país a já ter trabalhado para a Magnum, agência de fotografia mais prestigiada do mundo, fundada por Cartier-Bresson. Nesta entrevista, o artista, que passeia por vários suportes artísticos em sua produção, e, desde 2010, tem um pavilhão em Inhotim, fala de sua exposição no Santander Cultural (RS), com obras de quase cinco décadas de trabalho, e de temas como política e, é claro, arte.

Fale um pouco sobre a exposição Ponto Cego:

Acabou sendo uma grande instalação, sem começo ou fim, com questões como tempo, vida, morte, sexualidade. Queríamos não mostrar uma carreira, mas uma personalidade de criação, como uma questão de vida e não de profissão. O ponto cego é quando você olha para o lado e tem um carro batendo em você. Quando menos espera, leva uma bordoada.

Como foi a curadoria?

O Paulo Herkenhoff – o único que eu deixaria fazer o que quisesse – foi ao meu ateliê, escolheu algumas peças e eu escolhi outras. A ideia era levar quase o meu ateliê inteiro. A curadoria é como o teatro de uma personalidade: não vejo como um trabalho com um conceito a partir do qual você faz as peças. Há um lado inconsciente que retrata quem você é. Há artistas com um conceito maravilhoso, mas não se tem ideia de quem é a pessoa que está criando.

Suas fotos são centradas numa crítica ou denúncia?

Quando criança, vivi em vários países. Voltei em 1967 e tive um contato brutal com a realidade brasileira. Aí a minha criação se tornou mais crítica. Isso culminou com o filme do Pelourinho, que é uma visão da condição humana, de uma revolta. Há essa denúncia. Tinha quem achasse que eu deveria me especializar em fotografar guerras. Não acredito que mostrar tudo o que acontece em qualquer canto vai mudar alguma coisa, só vai dar uma consciência a mais. Temos que mudar ao redor de nós.

E em relação a essa dita estética marginal?

Eu não fotografo a classe média ou o shopping center. Talvez o marginal seja exatamente o centro, o cara que está no sistema é marginal à vida. Os ditos marginais muitas vezes têm a vida mais interessante. Pode ser mais sofrida, sem garantias, mas eu também não tenho garantias. Então o que é marginal? O marginal ruim é aquele que não consegue se inserir, está na cidade, no meio de um monte de gente e se suicida por estar sozinho. O que a sociedade tem a oferecer? Tênis? McDonald’s? A marginalidade é questão de escolha de liberdade. Obviamente, se você está jogado na rua, não consegue nem comer, aí está sendo massacrado.

Qual a diferença entre fazer fotojornalismo e uma imagem que vai para uma galeria?

Nunca fiz fotojornalismo; eu tinha uma abordagem mais de fotodocumentarismo. O fotojornalismo vem com o propósito de entregar o que as revistas vão querer, eu nunca consegui.

A cor é uma característica marcante no seu trabalho…

Tem conexão com a pintura. Mas, se você reparar, há imagens quase em preto e branco, com um pouquinho de uma ou outra cor. Há trabalhos recentes com praticamente a mesma tonalidade de outros de 1967. Vejo isso como uma questão inconsciente, coisas que não se sabe de onde vêm. Não considero que sejamos máquinas ou só DNA.

O barroco é uma referência?

Existe referência, mas não é a base do trabalho. Tem referências no cinema, na escultura… Quando se começa a rotular, tenta-se simplificar a arte e ela se dilui. Hoje em dia é o que mais se vê, a arte está diluída.

Há pouco tempo, o trabalho da Nan Goldin gerou polêmica e quase deixou de ser exposto no Rio de Janeiro. O que pensa disso?

A postura adotada foi um equívoco. Não há demônio no nu. O Brasil está se tornando um país puritano? Logo o Brasil? A “balada da dependência sexual” é fantástica, ela estava com aquelas pessoas que tinham suas doenças, suas merdas, mas tinham uma vida autônoma. O mercado de arte tomou conta dela e ela se ferrou, tudo o que fez posteriormente é uma porcaria, porque é falso. O problema foi usado para colocar a Nan Goldin como marginal, mas ela não é marginal desde que foi para as grandes galerias e deixou de ser livre. Já fui rotulado de Nan Goldin brasileiro, mas eu publiquei meus trabalhos das prostitutas em 1983. Nessa época, ela estava começando a fazer aquilo.

Você já sofreu alguma crítica ou censura pelo seu trabalho?

Sofri críticas do tipo “o problema é que você quer fazer pintura como fotografia”. Meu trabalho é uma coisa unida, mas as pessoas querem dar regras e entram num sistema. Foram radicais em 1968 e continuam pensando a fotografia como um documento histórico de denúncia. Isso é ditadura, é totalitário. Mas a única vez em que fui censurado foi com a fotografia de um travesti e uma prostituta para uma revista ligada à Prefeitura do Rio de Janeiro. O editor chefe era o Chacal. Ele, que se diz poeta radical, queria o dinheiro da prefeitura e censurou meu trabalho.

Como é seu ritmo de trabalho? O que está programando?

Estou tentando ter um ritmo bem escolhido, fiz algumas exposições este ano e estou juntando material para outro livro. Agora estão saindo a reedição do silent book e o Você está feliz?, que coloca a criança de forma poética, às vezes dura, com trabalhos recentes e antigos, pois a cada dia eu fotografo menos.

Por quê?

Houve épocas em que parei completamente de fotografar e comecei a pintar. Depois, retomei com outros projetos. São processos psíquicos. Eu tenho a impressão de que se a pessoa fizer a mesma coisa o tempo todo vai se repetir demais. Agora estou com uma produção mais escultórica. Meu trabalho cada vez mais é uma cozinha de várias áreas, sem que uma seja melhor que a outra. Entrar em uma exposição atrás da outra é muito chato, há outras coisas para se fazer na vida.

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