© Fabio Caffé

Acabou-se a espera: no dia 23 de março, a aguardada Casa Daros abriu as portas de seu espaço no Rio de Janeiro. Uma grandiosa estrutura – em amplo sentido, que promete ser movimentada por um sistema que equaciona arte, educação e comunicação – foi preparada para apresentar a Coleção Daros Latinamerica – uma das mais amplas coleções de arte contemporânea latino-americana, criada em 2000 por Ruth Schmidheiny, e originalmente localizada em Zurique, Suíça, onde permanece sua sede administrativa e reserva técnica.

Mas dentre tantas cidades na América Latina, por que a escolha pelo Brasil e, especificamente, pelo Rio de Janeiro para abrigar as exposições da Daros Latinamerica? Hans-Michael Herzog, seu curador e diretor artístico, revelou em entrevista que, depois de muitos lugares visitados, ainda no começo dos anos 2000, o escolhido havia sido Havana, em Cuba. Negociações chegaram a ser iniciadas, mas o intento fracassou em 2003 por motivos políticos relacionados ao governo cubano. Na sequência, depois de ponderações sobre questões como segurança, infraestrutura e tendência cosmopolita, restaram como possibilidades Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro, que acabou sendo selecionada porque, segundo o curador, as duas primeiras já se encontravam em “situação mais estável” com relação a aparelhamento cultural à época.

O ambicioso projeto começou a se concretizar em 2006, com a compra do centenário casarão em Botafogo. Projetado por Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, discípulo de Grandjean de Montigny, e contando com a exuberância de palmeiras imperiais compondo seu jardim frontal, o edifício se encontrava em condições lastimáveis de conservação. Construído em 1866 e declarado patrimônio da cidade do Rio de Janeiro na década de 1980, o prédio neoclássico precisou passar por obras de revitalização que duraram mais cinco anos e demandaram um investimento total de 67 milhões de reais que foram empregados em um processo monumental e minucioso de restauro e de adequação para torná-lo apto a apresentar a Coleção Daros Latinamerica. O resultado é a transformação de seus mais de 11 mil metros quadrados em uma imponente estrutura que conta com amplas salas de exposição; uma área dedicada ao programa de educação com salas de exposição próprias; um setor voltado para a pesquisa chamado de Centro de Informação e Documentação (CID), composto pelo Espaço de Leitura, Espaço de Documentação e pela biblioteca; auditório com capacidade para cem pessoas, um café-restaurante e loja distribuídos em dois pavimentos.

Essa grandiosa estrutura confere à Casa Daros um aspecto de museu dos mais atualizados, mas a opção pelo termo casa em vez de museu para o nome da instituição foi uma escolha deliberada que atende a um objetivo fundamental: o de firmá-la como um espaço de encontro que possibilitará o diálogo acerca da arte entre os diversos agentes das diferentes origens latino-americanas; de modo que a Casa Daros surge no nosso cenário cultural tomando para si a responsabilidade de implementar uma espécie de política da boa vizinhança artística entre o Brasil e os outros países da América Latina. Na verdade, desde o início da formação da coleção, Ruth Schmidheiny e Hans-Michael Herzog assumiram o compromisso de buscar dar visibilidade à produção que acreditavam ser detentora de um vigoroso potencial, mas, ao mesmo tempo, era pouco conhecida e valorizada fora de seus limites territoriais. Nesse sentido, ainda no espaço de exposição de Zurique, várias mostras foram realizadas entre 2002 e 2010, ano em que esse espaço foi fechado, com o objetivo de aproximar o público europeu da arte latino-americana.

Em sua contribuição para a alteração desse cenário de desconhecimento mútuo entre os latino-americanos, a plataforma programática Casa Daros foi norteada pela vontade de facilitar a aproximação entre o visitante e a produção, o que se pretende incentivar por meio da realização de oficinas, cursos, seminários e programação audiovisual que serão desenvolvidas como atividades integradas às exposições. Essa plataforma, aliás, já chegou a ser experimentada ainda durante o período em que as obras de revitalização do prédio estavam em andamento, o que aconteceu pela implantação, desde 2007, de atividades que contaram com a participação de artistas e outros profissionais em oficinas, seminários, encontros, debates e residência artística. Compondo esse esforço de entrosamento, há ainda a biblioteca, que se formou a partir da necessidade de reunir a bibliografia existente sobre os artistas que estão representados na coleção e atualmente conta com mais de cinco mil volumes para dar suporte à programação e às exposições.

Cantos Cuentos Colombianos e Para (saber) escutar

Segundo a organização da Casa Daros, pelo menos duas grandes exposições com obras da coleção, hoje constituída por quase 1.200 trabalhos de 117 artistas, serão realizadas anualmente. A exposição inaugural é Cantos Cuentos Colombianos, uma seleção de 75 trabalhos em diversos meios produzidos por dez artistas nascidos ou que trabalham na Colômbia. Em texto incluído na introdução do catálogo, o curador justifica que a decisão pelos colombianos para a abertura deve-se ao fato de que “a arte colombiana contemporânea é praticamente desconhecida no Brasil”. Certamente, não é mais desconhecida do que a arte que tem sido produzida por outros vizinhos, mas a mostra, que já havia sido montada entre 2004 e 2005, em Zurique, apresenta o que ainda pode ser considerado novidade para nós.

Obras comprometidas com o desenvolvimento de uma consciência social foram reunidas em um recorte temático que privilegia o debate político que se ergue na arte colombiana, suscitando discussões acerca de situações extremas no contexto de precariedade, de violência e guerra que se espalha pelo país por mais de 60 anos. O problema dos diversos conflitos internos, por exemplo, é levantado, às vezes de modo muito pungente, em trabalhos como o Caixão de Lego, de Fernando Arias – obra que recebe o visitante logo na entrada já criando uma tensão entre o lúdico, o narcotráfico e a morte; o vídeo Bocas de cinza, de Juan Manuel Echavarría, permite aos colombianos que testemunharam massacres compartilhar suas experiências por meio de suas canções simples; a instalação audiovisual Musa paradisiaca, de José Alejandro Restrepo, apresenta alguns registros dos massacres que aconteceram nos anos 1980 e 1990 pela disputa da região onde a banana é cultivada; e o Noviembre 6, de Doris Salcedo, refere-se aos sangrentos combates relacionados à invasão do Palácio da Justiça de Bogotá, em 1985.

A ancestralidade pré-colombiana é convocada por trabalhos como as esculturas em pedra, cerâmica e metal de Nadín Ospina, criadas por legítimos falsificadores combinando formas de mitos e outras peças pré-colombianas com rostos e outras características de figuras como Mickey, Minnie, Pluto, Pateta e Bart Simpson.

Diversos outros assuntos que têm sido explorados pelos artistas contemporâneos colombianos, como a questão da memória, ou as peças sonoras de Oswaldo Macià, são indícios de uma complexidade que está manifestada e deve ser observada no conjunto que conta ainda com obras de María Fernanda Cardoso, Miguel Ánjel Rojas, Oscar Muñoz, e Rosemberg Sandoval.

Em paralelo a Cantos Cuentos Colombianos, acontece nas salas da área de arte e educação a mostra Para (saber) escutar, cujo título foi inspirado na frase “ensinar exige saber escutar”, do educador e filósofo Paulo Freire. Nesse espaço, é possível ver fotografias, vídeos, objetos e textos relacionados às várias atividades realizadas enquanto o prédio estava sendo restaurado, além de obras como a videoperformance E a voz tem sombra? (Y la voz tiene sombra?), de Teresa Serrano e Lenora de Barros, a Nossa Senhora das Graças, de Vik Muniz, e o site specific, de Iole de Freitas, fruto da primeira residência de pesquisa da Casa Daros.

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