© Ivanise Borges, Christel Bautz, Juliana Barnabé, Gabriel Borém e Beatriz Bueno.

DASARTES 03 /

Meu Céu

Relato de uma apropriação poética

Meu Céu: relato de uma apropriação poética

O projeto Meu Céu foi criado para a mostra Ficções, de Regina Silveira, no Museu Vale, em Vila Velha (ES), e desenvolvido com aproximadamente sessenta grupos de crianças e adolescentes (2.400 participantes) de escolas públicas, particulares e instituições similares e, ainda, com um total de cem professores de Vila Velha, Vitória e região. Este projeto, núcleo central das atividades educativas geradas para essa exposição, dialogou com as principais questões poéticas propostas pela artista e deu prosseguimento a um raro programa de residência em arte-educação, sob orientação de Ruth Guedes.

A aplicação foi feita em duas etapas: uma, destinada à preparação dos funcionários que mediavam e recebiam os visitantes, tratou de familiarizar a equipe com a trajetória artística de Regina Silveira; a outra foi desenvolvida com um grupo de cinco mediadores* que, no decorrer da mostra, orientaram estudantes reunidos em grupos previamente agendados em visitas às instalações e à sala de maquetes de outros projetos desenvolvidos pela artista. Posteriormente, complementaram essa vivência com uma prática de ateliê.

A orientação dos grupos, sempre com duas horas de duração, foi divida em atividades de interpretação, expressão e comunicação.

Interpretação: Em vez de tentar explicar aos grupos, a priori, os trabalhos expostos, os educadores assumiram o papel de agentes problematizadores, instigando as crianças e os adolescentes, por meio de perguntas, a aproximar seus repertórios ao repertório poético da artista.

Mescladas também com informações dosadas pontualmente, as compreensões surgiam gradativamente, pela construção coletiva de sentidos e possibilidades.

Expressão: impregnado pelas questões trazidas pela visita à exposição, o grupo continuava suas atividades no ateliê do museu. Este local fora esvaziado de seus equipamentos cotidianos e assim dialogava com a amplidão dos espaços reais e virtuais criados pela artista. Ali, os educadores apresentavam o material: um grande suporte de plástico transparente, com aproximadamente 1.400 entradas para placas de laminado no tamanho postal e um conjunto destas placas com uma gama de dez tonalidades das cores branca, cinza e azul-celeste.

Cada participante, sozinho ou não, colocava sua placa na cor escolhida em um local do painel, sendo seguido pelos demais do grupo, que interagiam lúdica e criticamente no desenvolvimento do projeto e produziam, ao final, um fragmento pixelizado de um lugar imaginário: o seu céu.

A imagem resultante era fotografada sempre do mesmo ponto de vista, e o trabalho era depois desmanchado, ficando o painel a esperar pela atividade do grupo seguinte.

Comunicação: de volta à escola, o responsável pelo grupo completava o ciclo de ações explorando o impacto da visita. Cada responsável saiu do museu portando, na mesma quantidade dos integrantes do seu grupo:

– envelopes com o interior estampado com uma imagem de céu retirada do trabalho da artista;

– placas de laminado de cores variadas equivalentes às usadas no ateliê;

– etiquetas adesivas no tamanho das placas com identificação do projeto e área em branco; e

– um conjunto aleatório de endereços, nacionais e estrangeiros, de crianças, artistas, personalidades do mundo cultural, político e social.

Uma vez adesivada a placa com a etiqueta, cada integrante a usava para desenhar, pintar, escrever, colar, registrando nela uma síntese de sua vivência em Ficções, e comunicando assim a um destinatário, desconhecido, suas ficções celestes pessoais. Essas mensagens depois foram postadas pelo museu.

Finda a exposição da artista, como é de praxe no museu, a documentação de todo o processo de trabalho foi apresentada ao público.

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