Mestre Vitalino, um artista de fronteira

© Acervo Museu de Arte Popular, Recife

“Eu aprendi pela cadência, tirando do juízo (…) fazia o que via e o que nunca tinha visto… fazia pela cadência… diziam que zebra era curta e com pescoço alto, fazia um bicho rombudo de pernas grossas… o povo dizia – É um elefante – pois bem, ficava elefante!”

Esta passagem saborosíssima do catálogo etnográfico Vitalino – ceramista popular do Nordeste – foi registrada pelo psiquiatra e antropólogo pernambucano René Ribeiro. Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963), Mestre Vitalino, foi o primeiro artista popular a ter em vida um catálogo etnográfico, lançado em 1959. No mesmo ano, o poeta Manuel Bandeira dedicava uma crônica ao afamado ceramista.

O catálogo é o mais importante documento sobre Vitalino constituindo-o como autor, e inclui uma lista incompleta de seus 118 temas, com fases definidas a partir de suas próprias categorias – “loiça de brincadeira”, “peças de novidade” etc. A lista ainda assinala as marcas de estilo – “orelhas aplicadas em formato de interrogação, corte da boca sempre definido” –, inclui trechos de histórias que inventava para as peças e marca o início, em 1935, dos grandes conjuntos que lhe deram fama, os núcleos temáticos – composições do folclore nordestino, conjunto de intenção moralizadora. Também indica a supressão da cor, que era vista por Ribeiro como “contrafação comercial indefensável”, e a introdução da assinatura nas peças a partir de 1947, com o carimbo V.P.S. e, a partir de 1949, com seu “nome de batismo, (…) por sugestão de um doutô de Recife”. A assinatura corresponde ao deslocamento dos objetos das feiras populares para as coleções, exposições, museus, mercado de suvenires. A monumental Feira de Caruaru, que a voz de Luís Gonzaga descreve com o verso “de tudo que há no mundo / tem na Feira de Caruaru”, constitui-se como “zona de contato”, articulando grupos diversos, permitindo o encontro entre Mestre Vitalino e artistas e intelectuais eruditos que o retirarão da Feira para o circuito de exposições nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, na década de 1940.

Mestre Vitalino pode ser descrito como um artista de fronteira ou, nos termos de Lélia Coelho Frota, como liminar entre os mundos urbano e rural. Nesse sentido, traz consigo a herança do pai lavrador e da mãe louceira. Como a maior parte das crianças de centros oleiros do país, aprendeu os segredos do manuseio do barro na meninice, com a mãe, vendendo “loiça de brincadeira”, “calunguinhas” – boizinhos e cavalinhos. Também confeccionou ex-votos, sobretudo bois. Na fala de Mestre Vitalino, reverbera um pouco o clima do ambiente da feira, onde a peça desencadeia divertida interação com a plateia, que desfaz a moderna visão do autor dotado de interioridade, pois a voz coletiva recusava a forma zebra para sentenciar: “é elefante”.

Na feira, os objetos condensam múltiplos significados. A apreciação estética depende, em primeiro lugar, de uma visão cara aos artistas modernistas, de estender a concepção de arte para outros povos e outros circuitos fora dos cânones ditados pela academia. Não se pode obscurecer, sobretudo, a realização de exposições, especialmente as do final dos anos 1940. É interessante perceber nesses eventos que Mestre Vitalino sobressaiu em um contexto amplo de busca por parte de intelectuais e artistas por expressões do povo, tidas como despidas de artifícios, mais livres e espontâneas.

Nesse universo, vale salientar que o mito fundador de “descoberta” das artes populares se constituiu por meio da fixação de repertório descritivo e coloquial que fazia alusão a um mundo, a totalidades palpáveis, coerentes, orgânicas. A arte de Vitalino investe os objetos e as relações humanas de significados ou, nos termos de René Ribeiro, “veicula (…) através do conteúdo de suas histórias, os valores desse mundo – estéticos, econômicos, sociais, morais, religiosos”.

É extraordinário como Mestre Vitalino traduz as diferentes formas de morrer nas suas versões de enterro: Enterro na Rede, Enterro no Ataúde, Enterro no Carro de Boi; a atmosfera íntima que confere aos cuidados com o puerpério – em Mulher de Resguardo –, a mulher deitada, com o bebê ao lado, recebendo o caldinho de uma outra mulher, que lhe dá assistência em sintonia com os costumes. O resguardo ganha dimensão pública na cena da mulher diante da polícia com a galinha que furtara. A figura que se agiganta dos bois, como se fossem elementos sagrados em uma região de pecuária e de feira de gado, seção da Feira de Caruaru. E ainda temas como o Motociclista e o Fotógrafo.

A mudança de Vitalino e sua família, em 1948, para o Alto do Moura, lugar rico em barro massapé e celeiro de hábeis gerações de louceiras, aliada à presença de diferentes mercados de bens simbólicos e de ação de programas de fomento à atividade artesanal, transformaria gradativamente a região em um dos mais significativos pólos de cerâmica figurativa do país. Manuel Eudócio e o cunhado Zé Caboclo (1921-1973) firmaram-se, tendendo para maior realismo das figuras humanas. Nas composições das filhas de Zé Caboclo, Marliete Rodrigues e Socorro Rodrigues, é possível identificar o acento hiper-realista. Seus irmãos Antonio e Horacio, e o filho de Manuel Eudócio, Ademilson, seguem retomando temas fixados desde Vitalino, mas sem deixar de incluir novas cenas. Luís Antônio Rodrigues distinguiu-se por captar flagrantes do trabalho urbano, do maquinário moderno. No Alto do Moura, também sobressaiu-se o poeta e ceramista Manuel Galdino (1924-1996), cujas composições insólitas, oníricas, escapam inteiramente do estilo descritivo consolidado na região.

Em um país de expressões tão diversas, constitui-se, como símbolo da “descoberta” da arte popular, o estilo figurativo em que sobressaem flagrantes como se descrevessem, com uma espontaneidade surpreendente, um modo de vida singular, dotado de profundidade e de autenticidade, constituindo Mestre Vitalino tal qual o moderno etnógrafo em trabalho de campo.

Contudo, pode-se suspeitar desta visão tão corrente de que seu repertório resultasse apenas de incoercível desejo de documentar a vida em volta, bem como temas da vida urbana, as legendárias figuras dos cangaceiros, e de Lampião. A arte figurativa é tecida na “zona de contato”, em uma trama complexa de relações, que envolve a atividade de colecionadores, artistas e diferentes mercados de bens simbólicos, da presença da indústria cultural, em uma “negociação construtiva”, que não deixa de fora a presença de seus pares no Alto do Moura.

Atualmente, parte da coleção de 72 cerâmicas está exposta no Museu da Chácara do Céu, e recentemente foi realizada uma exposição em uma de suas salas, com cinquenta peças.

As frases de Vitalino foram transcritas do catálogo etnográfico mencionado.

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