Por Gonçalo Ivo

Rio de Janeiro, 14 de julho de 1984. Não fiquei para a festa. Naquela agradável noite de inverno carioca, por volta das 21 horas, ao descer as escadarias do casarão do Parque Lage rumo aos jardins, encontrei, vindo em sentido contrário, meu amigo, e muitas vezes conselheiro e confidente, Paulo Roberto Leal, um dos idealizadores da mostra Como vai você, Geração 80?, ao lado de Marcus Lontra e Sandra Mager. Interrogou-me sobre minha tão prematura partida…

Repliquei que aquela não era a minha festa, pois não me sentia, por temperamento, tributário do burburinho e da ebulição quase tribais do evento. Paulo Leal ponderou, então, que, apesar de enxergar poucas conexões do meu trabalho com o que meus colegas produziam, uma geração se constituía quase sempre de grupos homogêneos, colisões estéticas e algumas ovelhas negras, e afirmou, de forma premonitória, que, da centena de almas participantes da exposição, poucas sobreviveriam àquela primeira valsa…

Vivíamos os estertores de uma ditadura militar. O céu da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro abrigava, sob sua abóboda infinitamente azul, inúmeras esperanças, felicidades, transmutações. Ideias e projetos encontravam em sua geografia irregular a situação perfeita para germinar, crescer, dar frutos. Respiravam-se ventos de renovação. Mesmo o traumático incêndio do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ocorrido em 1978 e que destruíra grande parte de seu de seu acervo, bem como diversas obras do artista uruguaio Joaquín Torres García, não conteve esse instinto de mudança. A cidade continuava a dar sinais vitais. Um ano antes disso, a trupe teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone pusera em cena Trate-me Leão. Em 1982, o bairro da Lapa ganharia a lona do Circo Voador e as rádios inundariam as ondas sonoras com a irreverência do grupo musical Blitz. No cinema, Blade Runner evidenciava a oposição entre verdade e simulacro. Ainda não acontecera o primeiro Rock in Rio, nem o folclórico Verão da Lata, capitaneado pela carga psicoativa que a tripulação do navio Solana Star lançaria ao mar.

Em meados dos anos 1970, a Universidade Federal Fluminense já era um polo de reflexão e Carlos Nelson Ferreira dos Santos, um dos pioneiros na pesquisa urbanística em favelas e loteamentos de periferia. Em seus cursos em Niterói, li de Durkheim a Foucault. Éramos incitados a contestar a arquitetura racionalista, que tinha em Lúcio Costa e em Oscar Niemeyer seus epígonos locais, adornados do preclaro discurso de “esquerda de salão” tutelado pelo espesso bigode de Stalin. Os meninos bem nascidos da Zona Sul começaram a “atravessar o túnel” e a conhecer outros movimentos sociais urbanos, sua estética, música e língua. Íamos a campo – Jardim Catarina, em São Gonçalo, Parque União, Itaboraí, Bangu, Brás de Pina – para descobrir o novo Brasil que ia se amalgamando de forma orgânica com seus personagens – atores verdadeiros a construir parte da própria realidade: novos crentes, milícias, pais de santo, traficantes e… gente comum

Rubens Gerchman, diretor do Parque Lage em meados dos anos 1970, encarnara o perfil espiritual e as marcas relevantes das ideias que circulariam entre os muros do palacete de Gabriella Besanzoni: liberdade, experimentação e muita alegria. Afinal, estávamos em um Brasil de plena revolução sexual. Tempo de ambiguidades, zonas cinzas, por vezes, claras, o retorno de exilados políticos. Fernando Gabeira, com sua sumária tanga de crochê, desfilava pelas areias de Ipanema após a publicação de O que é isso companheiro? e do delicioso O crepúsculo do macho. Não longe dali, outro crepúsculo, o de Cubatão, não impedia que Copacabana dançasse até o amanhecer.

Apesar da alcunha “geração de pintores” (Leonilson, Claudio Fonseca, Daniel Senise, Jadir Freire, Luiz Zerbini, Hilton Berredo, Jorge Guinle, Beatriz Milhazes, Enéas Valle, Marcus André, João Magalhães, Chico Cunha, Delson Uchôa, Luiz Pizarro, Vitor Arruda etc.) e a sua estreita ligação com a arte internacional e movimentos, como a transvanguarda italiana e o novo expressionismo alemão, o que se viu naquela noite no casarão do Parque Lage foi uma grande instalação e a apropriação de cada centímetro de suas paredes, colunas, piscina, banheiros e jardins, em uma reverberação de cores fortes e selvagens.

Artistas como Eduardo Kac, Barrão, Angelo Venosa, Cristina Salgado, Paulo Paes, Leda Catunda e Mauricio Bentes, por exemplo, não se coadunavam com ou se inseriam nas questões específicas da pintura. O tempo mostraria no percurso de vários desses companheiros de geração o ímpeto para outros saltos, como a bioarte, o objeto e a poesia visual.

Penso que o mérito de toda essa diversidade se deve ao espírito democrático de Marcus Lontra. Ele próprio afirmaria 20 anos depois: “Nesta festa, havia lugar para todos. Era preciso urgentemente recusar dogmatismos…”. Algo impensável nos vetustos e rigorosos dias de hoje, em que crítica, curadores e mercado se mostram cada vez mais restritivos e indistinguíveis.

Não acredito no termo “volta à pintura” para designar uma das principais características da Geração 80, afinal, a pintura continuava presente em obras como as de Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Maria Leontina, Milton Dacosta, Abelardo Zaluar e Aluísio Carvão, ou mesmo de artistas de gerações mais recentes, entre os quais Luiz Áquila, Claudio Kupermann, José Maria Dias da Cruz, Luiz Paulo Baravelli, Antônio Dias, Ronaldo do Rego Macedo, Manfredo de Souzanetto e Gianguido Bonfanti.

O pertencimento à Geração 80, que às vezes me é atribuído, perseguindo-me como cão farejador, é para mim um incômodo, fruto exclusivo da incompreensão ou do desconhecimento alheio. Afinal, minhas ligações estéticas sempre foram distantes e distintas das opções de grande parte de meus contemporâneos. Desde a infância, quis ser pintor, e isso se deu de forma temprana, ao cruzar minha existência com as de João Cabral de Melo Neto, Iberê Camargo, Sérgio Campos Mello, José Paulo Moreira da Fonseca e Aluísio Carvão.

Ser artista era e continua a ser para mim um sacerdócio, um dogma, algo divino a não se questionar. Em 1984, no rumor da festa, já me sentia longe do espalhafatoso desejo de estar em um palco iluminado, como se fosse uma estrela mundana de mais um espetáculo.

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