© Cosmografias, 2014

Mayana Redin trabalha em seu próprio apartamento, em um daqueles cômodos estreitos próximos às janelas, como uma varanda fechada. Seus projetos mais recentes colecionam elementos que caracterizam o espaço urbano – onde seus trabalhos se realizam por meio de pesquisas de campo. Atualmente, está preparando uma exposição que será realizada em São Paulo com apoio da Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais. Ela apresentará a etapa de finalização de um trabalho que vem realizando desde 2013. Cosmografias (para São Paulo) é parte de uma série de mapeamentos de edifícios com nomes cósmicos – como “Galáxia”, “Centauro”, “Saturno”, “Satélite”, “Morning Star” –, que começou no Rio de Janeiro e, posteriormente, foi realizada em Belo Horizonte para uma exposição no Palácio das Artes. A partir da reprodução dos letreiros que vemos nas fachadas desses edifícios, respeitando sua tipografia, seus nomes são instalados no espaço expositivo em diagramas que correspondem a suas localizações no mapa e se registra a abrangência da áreas percorridas pela cidade. Juntos, eles dão forma a uma espécie de constelação.

A artista já havia explorado o formato cartográfico em trabalhos anteriores, na série Geografia de encontros. Com sobreposições inusitadas de mapas, criava tensões na ideia de estabilidade e imutabilidade de limites geográficos, que podem se transformar, seja por movimentos políticos ou tectônicos. O mapa é uma representação do tempo humano, mas o tempo que dá forma à Terra é geológico. Representar o irrepresentável é reconhecer o caráter ficcional de um mapa e lidar com o impasse entre a imagem real e sua convenção de representação, especialmente quando sua escala foge ao nosso entendimento.

Foi quando começou a mapear os edifícios cósmicos que a rua se abriu como uma possibilidade para absorver outros contextos pelo contato direto com o dia a dia da cidade – uma estratégia para expandir o espaço restrito do seu ateliê. Para encontrar esses prédios que levam o nome de astros, precisou andar por bairros em diversas partes da cidade e, nesse ambiente, colocou-se diante de uma situação de trabalho particular. A rua é um espaço de passagem, que serve à dimensão social do trabalho. Seu tempo é regido mais pela produtividade do que pela distração. As vias da cidade são um recorte da dinâmica da vida urbana, oferecendo a quem se predispõe a perceber sua movimentação um pouco do que é a variedade do mundo, por meio dos elementos exemplares que transitam nesse espaço.

O mais recente trabalho da artista, Global Records, também é resultado de buscas pela cidade. Em torno do quarteirão onde mora, Mayana usou argila para gravar tampas de bueiros, caixas de esgoto, eletricidade, incêndio, água, luz, alguns padrões do chão, placas de carro, marcas de cimento, reproduzindo o relevo de suas superfícies. Usando um carrinho de feira para carregar as peças que coletava e levando-as para deixar secar em casa, o processo mostrou seu caráter de portabilidade, coerente com a ideia de fragmento existente no trabalho, incorporando uma imagem também fragmentada, parcial, do entorno dos lugares por onde passava.

Em um primeiro olhar, os pedaços amorfos de argila se camuflam como pedregulhos. Posicionados de frente para um espelho, através do qual vemos suas faces planas, é possível reconhecer letras e partes de palavras que completamos mentalmente acessando imagens de nossa memória cotidiana. Uma primeira versão do trabalho em argila crua foi feita no Rio de Janeiro no início deste ano para uma mostra coletiva na Silvia Cintra +Box4. Em março, Mayana adaptou a obra para uma exposição em São Paulo, para a qual realizou novas reproduções na própria cidade. Dedicou então um período mais longo para percorrer ruas no Centro, na avenida Paulista, em Pinheiros e no Paraíso, em busca de lugares densos, onde é possível encontrar mais variedade de elementos a serem carimbados. Sem ateliê fixo em São Paulo, trabalhou em quartos de hotel, ateliês emprestados e casas de amigos, contextos que foram incorporados às regiões por onde transitava. Nessa versão, teve como foco somente objetos superficiais que fazem contato com o subterrâneo, que simbolicamente fazem alusão ao modo de organização social da vida urbana atual, um recorte ligeiramente diferente do que havia feito antes no Rio, optando trabalhar com fragmentos maiores e dando acabamento em spray fosco, adicionando um aspecto mais artificial às peças.

O nome Global Records foi escolhido em referência ao The Golden Record, o disco de ouro lançado ao espaço pela Nasa no fim da década de 1970, com uma ampla compilação de informações sobre a vida na Terra para um possível contato com outros habitantes do universo. Sob a direção do cosmólogo Carl Sagan, um comitê selecionou gravações em diversas línguas, sons cotidianos e do mundo natural, imagens variadas, na tentativa de definir o que seria a humanidade. Os discos estão a bordo das naves Voyager 1 e 2 e seguem seu rumo na expectativa de que uma comunicação possa ser travada com a civilização que venha a encontrá-los, como uma espécie de cápsula do tempo. Os fragmentos de Global Records são como meteoritos às avessas, como comenta Mayana, que carregam signos da Terra, um híbrido entre a dimensão dos corpos celestes e elementos da vida mundana. Que capacidade teriam de comunicar se fossem enviados ao espaço, tal como os discos de ouro?

Até que ponto esses resquícios, fragmentos de um modo de vida, falam sobre os mundos de onde vieram? O gesto de coletar esses símbolos do espaço urbano se perde em meio ao ritmo da cidade. O alcance de uma relação artística com o mundo parece ser insignificante diante da escala dessa realidade, de forma que ela se questiona o quanto das observações que a atravessam, quando está na rua de fato, são perceptíveis para quem se depara com a obra – talvez essas experiências apareçam somente em conversas como essa que tivemos quando nos encontramos. Essa perda necessária da experiência, que parece não se condensar no objeto como uma totalidade, interessa à artista. Semelhantes a objetos arqueológicos através dos quais temos contato com tempos passados, os carimbos têm a intenção de gravar elementos do mundo da cidade enquanto ainda estão vivos, preservando-os para uma futura arqueologia, genérica e pouco romântica. Entender sua origem e reconstituir seu contexto parece ser a fórmula para acessar conteúdo, mas estamos sempre lidando com sobras. Um trabalho deve se assumir como um indicador de que algo se perdeu, para então se tornar um acordo entre a experiência de fazê-lo e a forma de colocá-lo no mundo.

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