© Tate Photography, Cortesia do artista e Hauser & Wirth

A polêmica é central à obra de Martin Creed. O jovem artista britânico tornou-se notório em 2001 ao vencer o prêmio Turner, o mais importante do Reino Unido, concedido pelo museu Tate a cada ano a uma jovem revelação das artes visuais. A instalação que recebeu o mérito foi Work # 227 (Lights Going On and Off), que, como o próprio nome sugere, trata-se de um quarto onde a luz se acende e apaga. O isolamento dos rituais cotidianos fora de seu contexto pode ser visto em muitas de suas obras, convidando a uma inédita observação cuidadosa. Também respeita a conhecida preocupação de Creed de criar algo novo em um mundo que ele julga já muito cheio de coisas, ao qual não deseja adicionar nenhum material.

A polêmica mais recente foi causada pela performance Work #850, que em 2008 colocou um corredor profissional para atravessar a galeria principal do Tate Britain em velocidade máxima, desviando do público. Por estas e outras ousadias, Creed já foi considerado por alguns como provocador ou debochado. Nesta entrevista, o despretensioso artista mostra outra verdade: que seus trabalhos são factualmente o que são, sem as interpretações e explicações tão comuns à arte contemporânea.

Qual o seu próximo projeto?

Um show com dançarinas do ventre, que deve ser apresentado no Cochrane Theater de Londres em outubro. Estou trabalhando na música com minha banda Owada e em movimentos de dança. Depois disso, terei uma retrospectiva em Hiroshima, no Japão.

Em uma entrevista (para o livro Art Now, Editora Taschen, 2002), você disse que queria “fazer coisas”. As coisas que você queria fazer naquela época são as mesmas que quer fazer hoje?

Não [risos]. Eu não tenho certeza do que eu queria fazer, mas não acho que eu diria isso hoje. Lembro de tê-lo dito e de pensar, na época, que o que eu queria era fazer algo que me ajudasse no mundo. Uma pintura ou escultura é apenas uma forma de fala, e por isso as pessoas fazem coisas: porque isso torna fácil viver. Hoje eu não diria que quero fazer coisas, mas que quero fazer minha vida melhor. Eu quero fazer coisas que são interessantes ou bonitas e quero ter dinheiro para lidar com o mundo.

Em outra entrevista, você também disse que queria se comunicar e que, por isso, você fazia arte. Então, quando seus luminosos dizem que “tudo vai ficar bem” (Work # 560: Everything Is Going to Be Alright), isso significa que você realmente acredita nisso?

Significa que eu espero que tudo vá ficar bem. É um trabalho público, algo que as pessoas na rua veem sem optar por ver; oposto do que ocorre na galeria de arte, onde as pessoas vão levadas pela escolha de ver algo. Então, eu quis dizer algo bom, quis ser legal.

E quando você acende e apaga as luzes, o que quer comunicar?

É difícil dizer, porque eu não acredito realmente que a comunicação direta por meio da obra de arte seja possível. O significado de uma obra minha é criado por quem a vê e não por mim. Quando faço um trabalho, não penso no que quero comunicar, porque não posso controlar quais serão as reações das pessoas, o que vão pensar ou sentir; só tento me concentrar em ser feliz, em mim e no trabalho. Sobre esta obra, foi apenas um pequeno experimento de fazer algo que não precisasse de um material. Eu não conseguia acreditar suficientemente em um suporte ou em um material específico, então busquei algo que não tivesse um material. Pensei que, acendendo e apagando a luz, poderia dar às pessoas algo para olhar, que é o que se faz em um museu, sem precisar solucionar o problema de qual material usar.

Naquela ocasião, um manifestante atirou ovos em sua instalação, um protesto contra você ter sido premiado com o Turner. Isto o incomodou?

Não, não. Imagino que ele fez isso porque ficou bravo [risos]. Por que ele ficou brava é uma boa pergunta… Acho que isso demonstra que as pessoas acham seus próprios significados nas coisas. Algo neste trabalho impulsionou sua raiva, mas a instalação em si é algo muito simples, sem cores, sem formas, uma obra que não estava prejudicando ninguém. Não estou pedindo às pessoas para pensar que isso é arte. Mas é claro que fico chateado quando as pessoas não gostam do que faço, pois eu quero que gostem [risos].

Seu trabalho #800 nos lembra Sol LeWitt, e os trabalhos em néon nos lembram Bruce Nauman. Coincidência, influência ou deboche?

Eu gosto destes artistas e tenho certeza de que eles me influenciam em geral, mas enquanto estava criando meus trabalhos de néon, eu não estava consciente da obra de Nauman. Pessoalmente, não vejo esta semelhança – as criações de Nauman têm geometria e apresentam o acender de luzes com discursos diferentes, enquanto as minhas não têm nenhuma poesia, apenas humor e surpresa. Talvez, há alguns anos atrás, eu deixaria de fazer as pinturas murais porque LeWitt ou outro artista já tinha feito algo semelhante, mas hoje entendo que meus trabalhos são novos.

Os motivos por traz de obras como Work#600 e #610 (vídeos que mostram pessoas vomitando) despertam curiosidade. Fale sobre eles.

Quis fazer uma obra sobre o corpo, mostrando o momento em que algo sai dele. Vomitar é também um bom exemplo de algo que se faz para se sentir melhor, algo doloroso e desagradável, mas que nos faz sentir melhor, e os trabalhos são retratos de pessoas passando por isso.

Vou citar dois comentários feitos sobre Work #850:

1.“Como As Três Graças de Canova, Work # 850 encoraja os observadores a focar na forma humana” (Charlotte Higgins para The Guardian, junho de 2008).
2. “[…] celebra o constante ir e vir da natureza […], apresenta uma recorrente e infinitamente variável linha entre dois pontos” (informativo do Tate para a imprensa). Já o que você diz é que correr “é o maior sinal de vida” e que o corredor é “um guia mostrando todo o espaço”. Você se considera mal interpretado?

Como disse, um trabalho está sujeito a todas as formas de interpretação. Para mim, é apenas uma pessoa correndo no espaço – o que isso traz à mente é outro assunto. Eu preferiria me apegar aos fatos, sem sugerir o que significam.

Você acha que arte e esporte estão relacionados?

Sim, acho que ambos tentam extrair mais da vida, e quem faz arte ou esporte está tentando sentir mais, viver mais e dar o melhor de si. Também porque existe competição nos dois mundos: todos estão tentando ser os melhores, artistas e esportistas.

E arte e ciência, estão relacionadas?

Sim, acho que aquilo que as pessoas fazem, seja pesquisa em ciência ou arte, são tentativas de lidar com as dificuldades de viver, de reduzir as dores de viver. Claro que, em detalhes práticos, aquilo que se faz em ciência e arte são coisas muito diferentes, mas em ambos é necessária a criatividade.

Você já fez um projeto em parceria com a marca de artigos esportivos Puma e, sobre ele, disse que queria fazer coisas que as pessoas usassem. É uma postura um pouco incomum para um artista, já que nas artes se tende a rejeitar tudo o que possa ser visto como comercial. Por que você acha que isso ocorre?

Não tenho certeza, mas acho que apenas alguns artistas são apegados a esta ideia romântica de que a arte deve ser um aprimoramento espiritual e que o aspecto comercial vem depois, mas eu não compartilho este ponto de vista. Não se trata apenas de dinheiro, mas de vontade de que sejam úteis. As obras de arte de que gosto são aquelas que carrego na minha cabeça e nas quais eu penso e me fazem sorrir; são úteis em tornar minha vida melhor, por me dar algo no qual pensar, algo que me alegra.

Alguns de seus trabalhos, como #307 e #268: Metade do Ar em um Espaço, parecem lidar com espaço. Esta foi sua intenção?

Não realmente, não tentei lidar com nada, só tentei pensar em uma obra que mostrasse o formato do lugar onde fosse exibida e das pessoas que a vissem, que tivesse uma relação direta com os observadores. As pessoas se movimentam e mudam o trabalho. Ele se originou na ideia do ar, que está em toda parte e nos é vital, mas não podemos vê-lo, e isso muda quando o embalamos. De alguma forma, o resultado é que uma situação comum é tornada absurda por simples balões. Às vezes, penso que trabalhar é tentar muitas coisas até sentir algo. Tento manter as ideias simples, como colocar o ar em balões, porque assim, sem muita complicação ou ingredientes, consigo sentir algo e pensar. O experimento simples permite descobrir mais, como na ciência, quando se repete uma experiência mudando apenas um elemento. Simples.

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