© Sylvia Carolinne

DASARTES 34 /

Marina Camargo

Entre as pesquisas nas montanhas da Alemanha e no sertão do Brasil, está o espaço cativo do ateliê em Porto Alegre.

Fale um pouco sobre seu trabalho

Meu interesse é muito ligado a como as imagens ou representações das coisas do mundo aparecem e desaparecem. Interessava-me muito por letras como elementos gráficos, como um modo de lidar com o mundo representado e como desconstruir essa linguagem escrita. Então meu interesse se expandiu para questões desencadeadas a partir de viagens ou deslocamentos, os lugares onde eu estava. A primeira reação foi pensar o mapa como compreensão desse espaço físico. Acho que nessas duas referências, o mapa e a escrita, o que está por trás são representações de mundo e códigos já estabelecidos, e em sua desconstrução em direção a outra coisa.

 

Na visita ao seu ateliê, percebe-se que seu trabalho tem uma série de camadas.

Sim, é onde se podem ver as camadas das coisas se formando antes do trabalho existir. Acho que aí está a importância deste espaço, como um lugar para gerar as ideias ou ver as coisas se relacionando entre si, às vezes se sobrepondo, outras vezes aparecendo como um desencadeamento entre um trabalho e outro.

 

Fale sobre seu projeto na Alemanha.

É um grupo de trabalhos dos mais obsessivos que tenho feito. Teve início no período em que eu estava vivendo lá. Ao longo da pesquisa, fui encontrando referências que tinham relação com aquela paisagem próxima, das montanhas dos Alpes, tentando entender como poderia lidar com aquele lugar que remetia a um cenário artificial e, ao mesmo tempo, um peso de referências históricas que impregnavam a própria paisagem. A partir daí vieram os trabalhos Oblivion, Alpenprojekt, Reflexo Distante, entre outros. Em muitos deles há uma questão ligada à memória, em como lidar com um possível apagamento de referências. O curioso é que na Alemanha as pessoas se aproximam de um modo íntimo, enquanto no Brasil pode ser visto por um viés mais formalista. Esses trabalhos me fazem pensar em que medida nossa produção acaba sendo local se reagindo a certo lugar, dentro daquele contexto.

 

Por mais que o trabalho seja global, há reações muito locais e diferentes.

Exatamente. Principalmente em trabalhos que têm uma relação específica com um contexto determinado. Mostrando esse trabalho aqui não é exatamente como foi na Alemanha, onde as pessoas podem reconhecer as montanhas que visitam a cada fim de semana. Há uma intimidade com aquele lugar, aquela paisagem, embora as questões envolvidas sejam globais. O contexto muda, as leituras mudam e isso é especialmente interessante. Acredito que a potência das coisas não é alterada.

 

E o trabalho no sertão?

A primeira parte deste trabalho é o livro Como se faz um deserto. Teve início com uma viagem ao sertão, quando acabei redefinindo minha própria noção sobre a região. A publicação reúne textos de vários autores, uma conversa com Cristiana Tejo, fotografias e texto meus, sendo uma busca por compreender uma espécie de vazio que marca os sertões (seja na cartografia, ou no sentido de isolamento que provoca, como uma parte do país meio esquecida). O livro é um registro de imagens e textos fundamentais nesta pesquisa. Agora estou trabalhando em projetos decorrentes desse processo de aproximação à região.

 

Você trabalha com vídeo, fotografia, desenho, som… Pensa em transportar seu trabalho também para uma criação tridimensional?

Parece que vivo em um mundo bidimensional, eu penso no plano… Mas, em trabalhos recentes, ocorre uma projeção do plano no espaço. Eu acredito que são os trabalhos que definem a forma ou mídia que devem ter, podendo ser ou não tridimensionais. Daí é preciso observar o que os trabalhos estão pedindo.

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