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O PÚBLICO ESTÁ PRESENTE?
Por Ananda Carvalho

Com uma carreira de mais de quatro décadas na performance, Marina Abramović passa pelo Brasil como um furacão, envolta em uma série de atividades em torno de seu trabalho

A sérvia Marina Abramović possui uma carreira consolidada de mais de 40 anos na performance e é considerada uma das pioneiras no uso do corpo como linguagem de expressão. Entretanto, a artista só ficou conhecida pelo grande público com sua retrospectiva realizada no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA), em 2010. Na ocasião, realizou a performance The Artist is Present (A artista está Presente), na qual permaneceu sentada em uma cadeira em silêncio no espaço expositivo durante o período de funcionamento do museu durante três meses. Longas filas foram formadas para que os espectadores sentassem em outra cadeira à sua frente criando um contato visual com a artista. Foi após essa mostra que Abramović se tornou celebridade, começou a organizar o Instituto Marina Abramović (MAI) e a promover a experiência do Método Abramović.

Apesar de, inicialmente, a ideia de metodologia parecer um tanto controversa para uma arte efêmera e experimental como a performance, Abramović defende sua utilização para a preparação de ações de longa duração. Como os bailarinos que despendem horas e horas em ensaios, o artista da performance também necessita preparar seu corpo. O diferencial se encontra em expandir os limites tanto do corpo quanto da mente. A prática do Método Abramović, que procura se ausentar da correria do mundo contemporâneo, exige foco e introspecção.

São as premissas do Método Abramović, em conjunto com uma retrospectiva histórica de sua obra, que constituem as linhas organizadoras da exposição Terra comunal, em exibição no Sesc Pompeia, em São Paulo. A mostra apresenta um panorama da produção de Marina Abramović aos moldes do formato das grandes exposições. Engloba três instalações, que reorganizam os registros de suas performances mais recentes: The Artist is Present (A artista está presente), The House with the Ocean View (A casa com vista para o mar) e 512 Hours (512 horas); uma seleção de vídeos de ações realizadas ao longo de sua carreira; os Objetos transitórios, criados com minerais; e uma programação vinculada ao Instituto Marina Abramović com encontros da artista com o público, a vivência do Método Abramović, “reperformances” de trabalhos Abramović e oito performances de longa duração realizadas por artistas brasileiros: Ayrson Heraclito, Fernando Ribeiro, Grupo EmpreZa, Marco Paulo Rolla, Mauricio Ianês, Maikon K, Rubiane Maia e Paula Garcia

Ao longo de sua trajetória artística, Abramović vem entrelaçando as linhas que separam o observador e o observado no contexto da performance. É essa perspectiva que emerge na montagem de Terra comunal: a busca pela presença (e ação) do público dentro da exposição. Destacam-se as instalações que ampliam a ideia de como exibir registros de ações efêmeras. A experiência da documentação é ampliada para o espaço, incluindo a participação do visitante. The Artist is Present (A artista está presente), a famosa ação de Abramović no MoMA, é remontada com duas projeções frente a frente de mosaicos de rostos – de um lado, imagens da artista em diferentes momentos da ação e, de outro, imagens das expressões faciais do público que participou da performance. Ou seja, as imagens em vídeo não mostram a ação completa do que ocorreu em Nova Iorque: são oferecidas como elementos para compor outra experiência. E, ainda, no centro da sala, a mesa e as duas cadeiras estão disponíveis para quem quiser dar continuidade à ação.

O público também pode participar da vivência do Método Abramović, no qual se propõe uma série de quatro exercícios de 30 minutos cada, baseados em ações simples do cotidiano: permanecer em pé, sentar, deitar e andar em câmera lenta. As ações são realizadas em silêncio, com um fone de ouvido que abafa o som ao redor, em um espaço com uma cenografia construída com madeira e inúmeros cristais. Muitos relacionarão tais exercícios com uma aula de yoga. Mas a diferença está no contexto de exposição. Ao desempenhar essas atividades no espaço expositivo, Abramović leva as questões da vida para a arte. Em 2012, a artista passou um longo período no Brasil procurando comunidades espirituais e locais de poder como parte de sua pesquisa sobre energia e como aplicá-la a formas imateriais de arte. Resta agora saber como o público do Sesc, que tanto chamou a atenção da artista (que justifica a escolha desse local devido à sua configuração como espaço de convivência), entrará em contato com tais proposições.

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Oito artistas brasileiros foram convidados por Marina Abramović, Lynsey Peisinger e Paula Garcia para apresentar trabalhos autorais de longa duração, produzidos em consonância com as propostas do MAI (Marina Abramović Institute). Depois de passarem por um processo junto à Abramović, que trabalhou com cada artista, a Dasartes convidou Rubiane Maia e Fernando Ribeiro para falarem de seus trabalhos e do processo.

“Ao longo desses dois meses de exposição, estou percorrendo todo o Sesc Pompeia com minha máquina de escrever portátil, datilografando minhas impressões, meus pensamentos, meus sentimentos, minha vivência em toda esta Terra comunal. Não falo diretamente com o público, minha única via de expressão são as páginas escritas, que ficam à vista do público em um recipiente transparente. A vivência que tive com Marina Abramović em uma residência artística, realizada poucos dias antes da exposição, foi de extrema importância para o meu preparo para este trabalho de longa duração, que exige extrema concentração e equilíbrio – datilografo oito horas por dia, de terça-feira a domingo. Esse período que passamos com ela nos permitiu conhecê-la para além da imagem, para além da história. Conheci a pessoa por trás da artista extremamente profissional: divertida, com um ótimo senso de humor, generosa, atenciosa. Foi uma experiência intensa que continuará durante toda a exposição.”
Fernando Ribeiro

“O meu trabalho se chama O jardim e é o desdobramento de uma performance que fiz em 2012, durante uma residência artística. Nela eu cultivo feijões, da semente até se tornarem plantas. Cuido, acompanho e observo seu processo de nascimento e crescimento. Em 2012, foi realizada dentro de um estúdio isolado, onde eu permanecia praticamente sozinha; e só no final do processo as plantas foram transferidas desse local, e o jardim montado em uma sala com o chão coberto por uma camada espessa de algodão. Hoje, o eixo da pesquisa continua o mesmo – a fragilidade da vida –, mas os desafios são outros: inseri muitos elementos novos, como a tentativa de plantio indoor com uso complementar de iluminação artificial, além de trocar o algodão pela terra. Além do olhar constante do público, que pode visitar o espaço, e acompanhar o processo desde o início, já que são oito horas por dia de ação presente durante dois meses. O workshop com a Marina foi um momento intenso e bonito, uma experiência compartilhada, não somente para esse momento da exposição, mas para a vida”.
Rubiane Maia

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TRÊS PERGUNTAS PARA MARINA ABRAMOVIC
Por Raphael Fonseca

Você foi considerada uma das cem pessoas mais influentes do mundo em 2014 pela revista Time. Como vê sua influência no mundo em geral?
Fazer parte desta lista me deu mais responsabilidade em relação ao público. Foi uma grande honra, mas agora, mais do que nunca, eu tenho que ser muito clara sobre a minha mensagem e minha função como artista neste mundo.

Logo após a exposição no Sesc Pompeia, você vai para Buenos Aires para a primeira Bienal de Performance. Considerando a suas relações com os artistas performáticos brasileiros para a exposição do Sesc e essa participação na Argentina, você acredita que a performance latino-americana difere da performance em outras partes do mundo? Como?
A grande diferença que vejo entre a prática da arte da performance na América Latina e nos Estados Unidos ou Europa é que, na América Latina, ela nunca para; a performance parece estar em um estado constante de evolução e de fluxo. Na América do Norte e na Europa, há sempre períodos de atividade intensa e, em seguida, outros em que o mundo da arte não se volta para ela e a performance é ignorada. Na América e na Europa, a arte se tornou uma mercadoria, o que nunca pode se aplicar à performance. Por essas diferenças, a performance na América Latina é consistentemente mais vibrante do que em qualquer outro lugar.

O Brasil tem vivido muitas manifestações públicas de ódio – em relação ao governo, aos homossexuais, aos capitalistas, entre outros. Esses eventos desconstroem a imagem romântica do Brasil como uma nação de diálogo e liberalidade. Você acredita que seus métodos artísticos – que muitas vezes induzem o público a participar e compartilhar – podem contribuir para um maior diálogo e respeito entre as pessoas e, talvez, para mudar a sociedade? Será que a arte ainda detém esse poder no turbulento 2015?
Tenho vindo ao Brasil desde 1989, e vejo que muitas mudanças políticas estão acontecendo. Acredito que o país está em um estado melhor hoje do que no passado, durante a presidência de José Sarney. Ainda há tantas mudanças que precisam acontecer, mas, ao mesmo tempo, o país parece politicamente mais consciente do que nunca. Vejo pela adesão do público ao Método Abramovic, para o qual as reservas estão sendo vendidas rapidamente, que estão precisando do tipo de experiência que eu ofereço. Espero que eles possam aproveitá-la e ver que ela se aplica a suas próprias vidas.

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