DASARTES 10 /

Marco Antonio e Pedro Mastrobuono

Conhecidos pelas obras de Volpi que possuem, pai e filho mostram que têm DNA para a arte.

Marco Antonio Mastrobuono foi amigo íntimo de Alfredo Volpi em sua época mais produtiva. Sua paixão pela obra do artista é conhecida no mercado da arte e é o motor por detrás de uma coleção invejável de obras suas. O amor pela pintura e pela arte foi passado aos filhos. Um deles, Pedro, segue os passos do pai e participa com ele da gestão da “Coleção Mastrobuono”, uma empresa privada, enquanto segue juntando obras a sua própria coleção.

A primeira obra que comprei foi…

MA: Uma tela de Thomaz Ianelli. Na época, em 1961, entrei numa galeria e perguntei o preço de um Volpi, de um Pancetti,… fui ficando sem graça, era tudo caro demais para o meu orçamento. Finalmente vi na vitrine um quadro de Thomaz, que o galerista contou ser um jovem que estava começando. O preço era bom e levei.

Meus artistas prediletos…

MA: são muitos. Na Renascença tem Botticelli, Van Gogh entre os pós-impressionistas, e entre os brasileiros, Volpi.

A última obra que comprei foi…

MA: um quadro de Marcier no leilão de maio da Bolsa de Arte.

A coleção Mastrobuono hoje é uma empresa. Por que?

MA: Tive a honra de começar esta coleção há muitos anos e gostaria que ela fosse preservada em sua integridade. Quando não estiver mais presente, não queria que fosse vendida em partes ou que meus filhos, que também amam pintura, se desentendessem sobre quem fica com qual quadro.

P: Ter como procedência a coleção formada por meu pai agrega,de fato, valor as obras. Desmembrá-la só nos traria prejuízo. A empresa tem outros sócios e também uma marca registrada, que vem adquirindo o status quase equivalente a um selo de autenticidade para as obras de Volpi, já que meu pai frequentou o ateliê do artista durante muitos anos. Esta é uma iniciativa pioneira no Brasil, mas já é muito comum no exterior. Acredito que a coleção Cisneros tenha começado desta forma, entre outras.

Além de Volpi, quais outras obras em sua coleção?

MA: A coleção é essencialmente de pintura modernista. Gosto muito de José Antônio da Silva, que era mais que um pintor naïf, uma escola que julgo subvalorizada. Tenho obras do Thomaz Ianelli, alguma coisa de Pancetti e Gonçalo Ivo – talvez o único artista vivo na coleção. Me atrai a pintura tropical. Volpi foi um grande mestre tropical, sua combinação de azul e verde só pode ser criada por alguém que viveu nos trópicos, que viu o céu azul encontrando o mar verde, que viu a luz do sol cintilando neste encontro. Não me interessa a arte chamada contemporânea. Contemporâneo, por definição, amanhã já não o é. No anos 1960, Volpi era um contemporâneo, que entrou para a história enquanto outros não alcançaram o apogeu. Assim como nas competições relatadas por Homero, Ulisses alcançou o apogeu enquanto Ajax, também muito dotado, foi esquecido.

P: Tenho muitos quadros de Gonçalo Ivo, por volta de de trinta. Também tenho muitos azulejos da Osirarte e quadros de Mário Zanini, Ottone Zorlini, Antonio Henrique Amaral,…

Como surgiu o amor pela pintura?

P: Fui criado em meio aos quadros de meu pai, que fazia da visita semanal ao atelier do Volpi quase que um ritual religioso, onde sempre me levava. O ditado popular diz: “Quem canta seus males espanta”. Acho que quem vive a arte também muda, se torna uma pessoa mais calma, mais introspectiva, afinal, a arte convida à reflexão. Espero que meus filhos também estejam seguindo este caminho. Um dia, enquanto estava desembrulhando uma tela de Gonçalo Ivo que acabara de comprar, meu filho de dois anos entrou na sala e disse: “Que bonito!”. Imagine, ele mal sabia falar, mas já se impressionou com a beleza do quadro. Isto é muito gratificante.

Qual sua obra de arte dos sonhos?

P: Gostaria de ter uma Lagoa do Abaeté do Pancetti, que, dificilmente, elas são colocadas à venda e, quando aparecem, são caríssimas.

MA: Não tenho nenhum sonho frustrado. Tenho alguns arrependimentos. Há muitos anos, por exemplo, o pintor e marchand Antonio Maluf me ofereceu o Morro da Favela de Tarsila do Amaral. Na época custava algo como 50 mil dólares, e eu respondi: “Puxa, por 50 mil eu compro 15 Volpis, daqui a 10 anos vendo metade, compro esta Tarsila e fico no lucro”. Maluf me respondeu que era uma obra única, que eu não deveria ter este pensamento capitalista, mas fui bobo. Pensei como um operador do mercado financeiro ao invés de pensar como um amante da pintura.

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