© Edouard Fraipont

DASARTES 25 /

Marcius Galan – Zona indefinida

Prêmio Pipa é mais um degrau da carreira já sólida do jovem artista, cuja obra se torna cada vez mais intrigante.

Cinco pequenas folhas de papel em cores diversas e contendo a inscrição “Obra de arte em cinco vias”, alinhadas na parede do MAM do Rio, junto a uma sexta página, do mesmo tamanho, na qual aparece um texto mais extenso sob o título “Contrato”. Foi com este trabalho aparentemente simples que Marcius Galan arrematou o disputado Prêmio Pipa em novembro deste ano.

O artista, que começou a produzir no final da década de 90, vem desenvolvendo desde então uma sólida e diligente pesquisa, com uma obra singular que escapou aos modismos e maneirismos do meio artístico ao longo dos anos. Mas foi a partir do final da década de 2000, com a participação no Panorama da Arte Brasileira em 2007 e três anos mais tarde, na Bienal Internacional de São Paulo de 2010, além da aquisição da impressionante instalação Seção Diagonal (2008) por Inhotim, que seu trabalho passou a ganhar mais visibilidade no circuito brasileiro.

De fato, Galan já havia sido um dos finalistas do prêmio em sua primeira edição, em 2010 – cuja vencedora foi Renata Lucas -, e decidiu não participar da segunda edição. Desta vez, concebeu uma obra a partir daquilo que descreve como “um certo desconforto em relação ao regulamento do prêmio”, promovido pelo MAM do Rio junto a empresa Investidor Profissional, e que prevê a doação de duas obras do artista (uma para o museu e uma para a empresa) como contrapartida aos R$100.000,00 oferecidos ao vencedor. Em termos de mercado, é bem provável que duas obras de artistas em meio de carreira como Lucas ou Galan, facilmente atinjam esse valor, fazendo com se caracterize menos como um prêmio e mais como uma aquisição, sendo que parte deste montante é obrigatoriamente direcionada a uma residência artística de três meses em Londres.

Contudo, isto não significa que Galan tenha produzido um trabalho simplista, meramente crítico em relação a esse sistema. Obra de arte em 5 vias e um contrato (2012) é acima de tudo um comentário sobre a ideia do valor de investimento na arte cuja existência plena depende de uma intrincada rede de relações. O trabalho é composto de uma única via que pertence ao artista, uma que pertence ao museu, uma da Investidor Profissional, uma para cada um dos três críticos associados ao prêmio e uma tiragem ilimitada que pertence ao público e fica disponível para os visitantes durante a exposição. Há ainda o contrato, de propriedade de Luisa Strina, galerista que representa Galan em São Paulo. Após o término da mostra no MAM, o trabalho se dispersa. Para fins de exibição, cada via poderá ser mostrada separadamente no futuro. Contudo, o contrato estabelece que a comercialização da obra só poderá ocorrer com a permissão de todas as partes envolvidas. O artista conta que “achou divertida a ideia de ser um dos donos do trabalho, de poder participar sempre dele, junto com o público”.

Em trabalhos anteriores, Galan já havia demonstrado um grande interesse em abordar a relação do objeto artístico com os sistemas subjacentes à determinadas formas de organização cultural, econômica ou social. Este é o caso da instalação Imóvel/ Instável (2011), peça central de sua exposição homônima na Galeria Luisa Strina no ano passado. Aqui ele concebeu um sistema complexo envolvendo pesos de concreto interconectados por cabos de aço e barras de madeira transversais, formando um equilíbrio delicado sob a ameaça iminente de colapso. Esse aparato possuía uma única função: estabilizar uma pequena moeda negra na posição vertical sobre o chão com extrema precisão, como que numa alegoria material dos tortuosos e frágeis esquemas de transações financeiras que se encontram por trás das tênues noções de estabilidade econômica, e que toma um sentido especialmente potente em face à crise econômica mundial de 2008.

Em um outro corpo de trabalhos, Galan parece enfatizar o aspecto fenomenológico da arte, no qual o foco é caráter fugidio da percepção. Assim como toda sua obra, é caracterizado por um primor extremo no acabamento e, nesse caso, acentua a disparidade entre o modo como percebemos os objetos e sua existência física real, apontando para o caráter indefinido dos objetos e do espaço. Na série Isolante (2008), por exemplo, áreas relativamente pequenas no espaço expositivo são isoladas ou definidas por uma fita de um amarelo brilhante. Aparentemente elásticas, essas fitas muitas vezes amarram objetos mundanos como engradados de garrafas, tijolos e cadeiras. Em outros casos, simplesmente pendem frouxas de um ou mais pregos na parede da galeria. A referência aqui parece ser os arranjos improvisados que são comumente utilizados nas ruas e calçadas mal cuidadas da cidade de São Paulo para isolar áreas danificadas por buracos e rachaduras. No entanto, quando nos aproximamos desses objetos, percebemos que as fitas são na realidade feitas de metal, assim minando nossa percepção inicial de expansão e flexibilidade, pois tudo é hirto e estático.

Mesmo quando trabalha numa escala ambiental, Galan parece estar mais interessado na fenomenologia como ferramenta para desestabilizar nossas certezas sobre a representação espacial e sobre a experiência corpórea do espaço do que no aspecto participativo da arte. Seu célebre trabalho Seção Diagonal (2008), por exemplo, consiste de uma intervenção arquitetônica no espaço expositivo na qual as paredes, o teto e o chão são cobertos por uma camada de cera, alterando discretamente a cor e a textura das superfícies. Ao observá-lo, temos a impressão de que este espaço se encontra protegido por uma vitrine de vidro, mas logo percebemos que se trata de uma ilusão. Ao tomar uma escala arquitetônica, seu trabalho se torna quase imaterial, existindo sobretudo como um processo mental que se desfaz na medida em que nos aproximamos dele.

Na obra de Galan, encontramos uma certa ressonância com uma linhagem específica de artistas conceituais brasileiros cujo trabalho é caracterizado pelas formas precisas, minimalistas e por um interesse particular pela geometria. (Penso, por exemplo, em Iran do Espírito Santo) Ao reconstruir cuidadosamente objetos comuns, submetendo-os à supressões e adições, redefine sua funcionalidade e sua forma, evocando uma zona indefinida entre sistemas de representação supostamente estáveis e aceitos e a vivência dos objetos e do espaço.

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