Márcia X, a provocação como matéria-prima da arte

© Wilton Montenegro

Até 14 de abril, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro exibirá os arquivos da artista plástica Márcia X, famosa pelo uso de objetos de sex shops em seus trabalhos, pela mescla de erotismo com imagens religiosas e também por suas perfomances inusitadas. Falecida prematuramente, de câncer, aos 45 anos, Márcia deixou uma vasta produção que é cada vez mais valorizada pela crítica.

Para Luiz Camillo Osorio, curador do MAM/RJ, a obra de Márcia X, iniciada na década de 1980, “se manteve sempre à margem das convenções e dos modismos, jamais abriu mão da radicalidade, soube ser coerente, crítica e bem-humorada e foi interrompida pela doença e morte abruptas”. Em seus escritos, a própria artista admitiu que suas produções iniciais tinham a intenção de “questionar, através do humor e do estranhamento, o papel do artista e da arte na sociedade”.

A exposição, intitulada Arquivo X, é o resultado da recepção do Prêmio Procultura de Estímulo às Artes Visuais 2010, que garante a catalogação e o restauro do acervo da artista, a realização da presente mostra, a edição de um livro sobre sua obra e a doação de seu acervo ao MAM/RJ. São todos fatos a celebrar, embora seja um dilema abrigar num espaço institucional um acervo criado na contramão da institucionalidade.

Márcia X começou sua trajetória como estudante na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Enquanto a chamada Geração 80 procurava renovar a pintura, Márcia X se arriscava na performance. Sua primeira intervenção foi invadir o palco da Sala Cecília Meireles num concerto de John Cage, andando de velocípede em dupla com Alex Hamburguer. A mostra do MAM tem ótima documentação sobre essa e outras ações da artista.

Suas criações mais polêmicas também estão presentes: os falos de borracha enfeitados, no afã de transformar objetos eróticos em brinquedos e vice-versa. Há diversos vídeos de suas performances, centradas no próprio corpo e na convicção de que “a liberdade criativa só poderia se manifestar na plenitude acompanhada de uma liberação sexual”. Seus pênis desenhados com terços também integram a exposição, numa espécie de redenção da artista, que teve trabalho semelhante censurado no Centro Cultural Banco do Brasil, por reclamação de lideranças da Igreja Católica.

Na mostra do MAM/RJ, o público pode entrar em contato com as múltiplas facetas criativas da artista: há desenhos a traço e a pastel sobre papel, quadros estruturados com bugigangas da sociedade de consumo, trabalhos feitos para a ECO 92, uma réplica da bancada de trabalho do seu ateliê, bonecos de plástico que simulam sexo. Nesse horizonte, ninguém melhor que a própria Márcia X para comentar suas criações: “Que minha obra abra caminho para novas conexões no mundo cultural, onde eu possa fazer meu trabalho rodar o mundo, ser querida, manter o humor e a visão crítica, ter prazer, dar prazer, ter coragem, ser coragem, ser desprendida do ego, ser um fato artístico, agir com a precisão de uma bomba teleguiada para aniquilar essa confusão meleca de sofrimento, anunciar a opção, o caminho a ser tomado, a direção, o ponto-alvo, o ‘X’ da questão”.

Se hoje Márcia descansa em paz, sua obra continua viva e ativa, libertária em sua irreverência e revelando a face do sagrado por meio de profanas brincadeiras.

Compartilhar: