Marcelo Silveira – o guardião das coisas inúteis

© Robson Lemos

Se a arte moderna foi, em parte, marcada pelas bandeiras de pureza dos gêneros e especificidade dos meios, a arte contemporânea pode ser caracterizada por uma produção que não está mais preocupada em pertencer a uma determinada categoria. Transita-se livremente por entre diferentes práticas artísticas, desafiando-se antigos limites e definições e, assim, abrindo novas vias de esgarçamento das linguagens visuais. Essas travessias constituem uma característica fundamental da obra de Marcelo Silveira, artista pernambucano, nascido na década de 1960 na cidade de Gravatá. Seus trabalhos circulam pelos terrenos contíguos da escultura, da pintura, do desenho e da instalação, problematizando as precárias fronteiras que apartam essas práticas e se beneficiando dos efeitos estéticos decorrentes desse hibridismo. Esse impulso ganha materialização em A grande tela (2013), na qual Marcelo pôde “esculpir com os elementos da pintura”. A instalação é composta por 40 redomas de vidro, dispostas em uma superfície de madeira e preenchidas por aglomerados de fios de linho utilizados na confecção das telas, que servem de suporte para pintura.

Sua última mostra, O guardião das coisas inúteis, esteve em exibição de fevereiro a abril deste ano, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), em Recife. Nela, Marcelo pôde por em prática alguns dos traços que acompanham o seu trabalho desde o início: o acúmulo, a (des)organização e a ressignificação de objetos e materiais, em tese, inúteis. – “tenho interesse por coisas que foram descartadas pelo uso, por ressignificá-las”. É assim que o artista reúne quatro mil vidros de perfumes – vazios, mas impregnados de memória – e os dispõem em estantes justapostas, identificando-os com pequenas etiquetas de papel, no trabalho intitulado Só resta o cheiro (2006).

Em Empilhamento I (2014), outro trabalho da mostra, o térreo foi preenchido com estruturas grandiosas elaboradas a partir de resíduos do próprio museu – cadeiras quebradas, calhas de iluminação, placas de vidro, barras de alumínio e a própria iluminação obsoleta das salas. Para Marcelo, o desafio foi “trabalhar a partir de um acervo do museu que não deveria ser visto”. Dessa forma, não é apenas o museu que expõe a obra, mas a obra também expõe o museu, dando a ver ao público “suas entranhas”, sua memória, objetos tornados inúteis, armazenados e esquecidos ao longo de anos no último andar do prédio. Essa reutilização não deixa de apontar também para a fragilidade dos critérios adotados na seleção do que é arte e do que é detrito, do que é exposto, armazenado ou esquecido. Tal fragilidade é enfatizada também em O censor (2013), uma mostra de cinema fictícia composta por 30 cartazes de filmes censurados durante a ditadura. As placas de acrílico vermelhas sobrepostas aos cartazes deixam em evidência o carimbo do censor, que funciona como uma espécie de sentença dos trabalhos.

Amontoados e fixados por garras plásticas à estrutura do prédio, os resíduos de Empilhamento I assumiram formas “que faziam referência a brincadeiras infantis, como o pega-varetas, o castelo de cartas e o de areia”. A estrutura formada por compridas barras de alumínio, embora tridimensional, assume a forma de rabiscos no espaço vazio do museu, explicitando as aproximações entre o desenho e a escultura que caracterizam o trabalho do artista. A dimensão lúdica desses “obstáculos”, que exigem do espectador um cuidado especial ao transitar no espaço do museu, convive com a tensão decorrente do frágil equilíbrio que os mantêm em suspenso. A imobilidade das instalações traz latente a ideia de movimento, pois são estruturas que, assim como o castelo de cartas, parecem prestes a desmoronar. A potência do trabalho deriva em parte dessa iminência, a iminência da queda, o segundo que precede o desmoronamento, mas que, no entanto, se expande, não deixando nunca que ele ocorra.

Seguindo a proposta de Marcelo, a equipe de mediadores do MAMAM participou ativamente do processo de elaboração e construção da obra. No texto de parede organizado pela equipe do museu, lia-se “Uma obra nunca é feita por um homem só. Nem uma exposição.” O gesto levanta questões importantes relativas às noções de originalidade e individualidade artística. Ao propor (e expor) a participação da equipe, Marcelo enfatiza o trabalho como o resultado de um processo coletivo, de colaboração, contribuindo para a desmistificação da figura do artista como centro autônomo fundador da obra.

Compartilhar: