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DASARTES 28 /

MARCELO MOSCHETA

Marcelo Moscheta apresenta um olhar contemporâneo para a paisagem não apenas como natureza, mas como noção humana inventada.

Se a pintura de paisagem já foi considerada um gênero menor dentro de uma tradição artística, não é de hoje que as hierarquias se dissolvem e uma espécie de democracia em relação ao tema é instaurada. É nessa direção que se apresenta a produção de Marcelo Moscheta, artista plástico paulista, que vive em Campinas, ao apresentar um olhar contemporâneo para a paisagem não apenas como natureza, mas como noção humana inventada: paisagens reais e mentais, ficcionais e naturais. No intuito de reconstruir e entender o espaço e, ao mesmo tempo, ter uma medida de si mesmo: “Quando olho para fora, consigo olhar para dentro”. À questão da paisagem, aliam-se outras, fundamentais à produção artística de Moscheta: a memória, tanto pessoal como alheia, e a representação. Desde 2000, o artista tem criado instalações, desenhos e fotografias, identificando e recolhendo elementos da natureza de lugares remotos para construir pensamentos sobre tais temas.

1.000 km, 10.000 anos, exposição na Galeria Leme, em São Paulo, que vai do dia 8 de maio a 8 de junho, oferece pistas para entender a produção artística de Moscheta e seu lugar no cenário contemporâneo. Fruto de uma residência de dez dias no Chile, a convite de Alexia Tala, diretora artística da Plataforma Atacama, apresenta-se aí a maneira de o artista ver a paisagem, intermediada por algum tipo de máquina. Somos levados a partir de um eixo espaço-temporal: dez mil quilômetros é o deslocamento feito por Moscheta desde sua chegada até o último ponto percorrido nesse território. Por sua vez, dez mil anos é a datação das primeiras civilizações que habitaram o deserto de Atacama. Alia-se, portanto, passado e presente, numa espécie de investigação arqueológica, narrativa do recorrido.

Da exposição participam três trabalhos. Linha, Espaço, Tempo é o maior deles e traz cerca de 2.500 réplicas em cerâmica de uma ferramenta pré-histórica que consiste em uma pedra com um machado, cujo original é parte da coleção de pedras e ferramentas paleolíticas da arqueóloga Ana María Barón. A cada réplica foi amarrada uma placa de cobre com uma referência de latitude e longitude, que, unidas, registram as coordenadas do deslocamento de Moscheta no deserto de São Pedro do Atacama.

Atacama 28.04-06.05/2012 é um mapa desenhado em grafite PVC, técnica na qual Moscheta tem se destacado, do deslocamento do artista pelo deserto, unindo a precisão matemática das coordenadas ao aspecto sensível da peregrinação do artista, seu corpo vertical frente à paisagem horizontal. Assim, une arte e ciência, numa dissolução das fronteiras, na verdade uma linha abstrata, tal como as que demarcam os territórios. A multiplicidade de linhas criadas a partir dessa marcação, os traços que registram os passos do artista formam um desenho, técnica com a qual Marcelo se identifica. Dessa vez, no entanto, sob uma perspectiva mais cosmológica que humana. Neste ano, Moscheta participará do segundo volume da Vitamin D – new perspective in drawing, uma antologia do desenho contemporâneo.

A outra obra é Timelaps, uma caixa em que o artista depositou terra, areia e pedregulhos do deserto do Atacama, com uma placa em referência ao momento histórico em que os astronautas da Apolo XI pisaram em solo lunar, no qual colocaram uma placa com a inscrição: “Here men from the planet Earth first set foot upon the moon. July, 1969”. Aqui, no entanto, a datação é de 10.800 a.C., dos primeiros habitantes de Atacama, os pastores de lhamas que cruzavam aquele território. Assim, Moscheta remete à ideia do solo como objeto de estudo, estabelecendo também um vínculo entre os astrônomos que atualmente se estabelecem nessa terra, sobretudo do projeto ALMA, para a observação do céu, das galáxias, do universo – o passado desses primeiros habitantes com o futuro observado através das estrelas.

De dezembro de 2012 a fevereiro de 2013, esteve em cartaz com a exposição Norte, no Centro Cultural Paço Imperial, no Rio de Janeiro, com curadoria de Daniela Name. O trabalho é fruto de uma residência expedicionária no Círculo Polar Ártico, da qual Moscheta participou por meio do programa The Arctic Circle Expedition, que faz uma seleção anual de artistas para passar três semanas nesse território. A exposição contou com dez obras, sendo oito delas inéditas, e ocupou a sala Terreiro do Paço. Como catálogo, e ao mesmo tempo diário de bordo, foi lançado o livro da exposição, com o selo da Ímã Editorial – uma espécie de making of que registra todo o trabalho anterior à exposição, esta que é, na verdade, só a “pontinha do iceberg”.

Moscheta cita o isolamento como a melhor parte da residência, remetendo à situação dos exploradores, numa espécie de tributo à memória desses grandes heróis expedicionários e, ao mesmo tempo, às micropopulações que habitam o lugar inóspito. Como filho de biólogo, Moscheta talvez tenha apreendido algo do ofício do pai, que, a partir de unidades microscópicas, resíduos, visa reconstruir tecidos maiores. Ainda, identifica-se com o trabalho dos arqueólogos e dos astrônomos, estes que lançam um olhar para trás, a fim de se lançar para frente.

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