Marcela Tiboni sobre a Cité Des Arts

© Marcela Tibone

“Eu passei quase um mês inteiro sem conversar com ninguém. Não por falta de oportunidade, mas por vontade própria mesmo. Eu queria aproveitar este período de silêncio interno, esta possibilidade de não falar, de estimular o olhar, a percepção, de não precisar dar satisfação ou comparecer a compromissos. Com o tempo, fui começando a conhecer meus vizinhos, os outros ateliês, frequentar as aberturas de exposições nos estúdios e, efetivamente, travar contato com os outros artistas de tantas partes do mundo.

Costumo sempre dizer que eu produzi em Paris em seis meses o que produzi no Brasil em dois anos. Foi a primeira vez que tive a oportunidade de programar o meu dia pensando exclusivamente na arte e na minha produção, isso foi formidável. Eu estava totalmente sensível, tudo me estimulava, tudo me tocava, tudo que eu via nas ruas, nos museus, nos parques me dava ideias, me dava uma imensa vontade de fotografar, de escrever projetos, de iniciar pesquisas.

Como eu sempre fiz, e ainda faço, autorretratos, esta imersão em uma residência em outro país foi fundamental, porque acho que foi a primeira vez que consegui me perceber como um “corpo” que existe além de mim mesma. Quando se cria uma rotina aqui em São Paulo, é extremamente difícil sair de um ciclo vicioso; é muito difícil se perceber dentro do excesso de tarefas, de compromissos, de obrigações. Na residência, eu pude me perceber quase que de fora, pude me observar de uma maneira mais pura, mais limpa e, de certa forma, mais intensa.

Isso tudo se refletiu em minha produção. Percebo que meus trabalhos ficaram mais silenciosos, mais poéticos, mais limpos. Eu sempre brinco dizendo que “divido minha vida entre antes e depois da Cité”, porque entendo que esta residência foi mesmo um marco em mim e na minha produção.”

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