© Divulgação MAR

Após longa expectativa, com a presença da presidente da República, Dilma Rousseff, do Governador do Estado, Sergio Cabral, e do Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, além de autoridades, artistas, intelectuais e personalidade do circuito artístico e cultural, foi inaugurado no dia 1.º de março o Museu de Arte do Rio (MAR). O museu, nos dois dias seguintes, promoveu ainda outras duas cerimônias exclusivas para a comunidade artística e para os trabalhadores e funcionários envolvidos na construção, insere-se no projeto de revitalização da zona portuária do centro do Rio de Janeiro e também protagoniza um momento de expansão da vida cultural da cidade, uma vez que terá em alguns anos como vizinho o Museu de Amanhã (e, apesar de planejado para a zona sul, pode-se incluir o novo Museu da Imagem e do Som). Ele entra em cena no mesmo momento de abertura da Casa Daros e da reafirmação do Museu de Arte Moderna do Rio, com seu crescimento gradual público. Nas primeiras semanas, já foram recebidas mais de 20 mil pessoas, evidenciando a demanda sempre bem vinda por mais e mais cultura.

O MAR ocupa dois prédios no coração da praça Mauá, que, fechados durante muito tempo, passaram por uma reforma considerável: um deles, um palacete que pertenceu à Polícia Federal, abriga o pavilhão de exposições; o outro, antigo terminal rodoviário, foi destinado à Escola do Olhar, que receberá escolas de todos os níveis e cuidará do programa educativo da instituição. Uma vez que se trata de dois edifícios com estilos arquitetônicos diferentes (no caso daquele da Escola do Olhar, consta ter sido o primeiro a adotar o sistema de pilotis no Rio de Janeiro), vale ressaltar a inteligente solução que os integra, assinada pelo escritório carioca Bernardes + Jacobsen, pois se a cobertura pretende harmonizar-se com a suave crispagem das ondas da baía de Guanabara, o corredor de ligação lembra os passadiços coloniais, repensados na arquitetura moderna brasileira por Lucio Costa.

Em seus quatro pavimentos dedicados às mostras, nesta primeira edição, o visitante passeia por imagens dos tempos coloniais até hoje. Centenas de obras e documentos perpassam as exposições Rio de imagens (montada no último piso, destinado exclusivamente à cidade), Vontade construtiva (baseada na coleção Sergio e Hercila Fadel), O colecionador (dedicada ao acervo do colecionador e marchand Jean Boghici) e O abrigo e o terreno (primeira de uma série dedicada ao tema Arte e Sociedade).

Rio de imagens tem curadoria de Carlos Martins e Rafael Cardoso. Os dois lançam mão de trabalhos e registros, cujo tema maior é a construção da cidade, discutindo a presença de sua imagem e seus desdobramentos. Nela constam os registros dos pintores viajantes, as transformações da outrora capital federal (cujo impacto na vida urbana e na memória coletiva ainda hoje ecoa na avenida Rio Branco e nos vestígios dos morros desmontados ao seu redor), as cenas do cotidiano que testemunham o novo e diversificado ritmo da cidade, tal como captadas pelos modernistas, chegando finalmente às contrastantes abordagens notadas numa produção contemporânea que ora partilha da exuberância da cidade, ora explicita seus circuitos formais e informais, ora defronta o espectador com seu outro perfil (como no mapa de Guga Ferraz). Ao se observar tais aspectos, nota-se, mesmo casualmente, um diálogo com a exposição do primeiro andar – O abrigo e o terreno – organizada pelo curador-chefe do MAR, Paulo Herkenhoff, e pela curadora assistente Clarissa Diniz.

Como bem ressaltou o crítico de arte da Folha de São Paulo, Fabio Cypriano, têm sido pouco comuns no Brasil mostras que examinem a relação entre arte e sociedade. No caso desta, coexistem apontamentos mais históricos com trabalhos contemporâneos (em maioria), que vão de Hélio Oiticica aos projetos Morrinho (uma parceria de Paula Trope e dos moradores da comunidade do Pereirão) e Dulcineia Catadora (dos jovens do morro da Providência). O escopo da mostra, contudo, não se restringe apenas ao Rio de Janeiro, estende as discussões para outras cidades do Brasil e busca cruzar diferentes abordagens, que passam pelas artes plásticas, mas igualmente pelo urbanismo, a sociologia e outras áreas. Se Rio de imagens fala sobre como a cidade se tornou o que ela é hoje, A casa e o abrigo indagam sobre os desejos envolvidos nela no momento atual.

Vontade construtiva, assinada por Paulo Herkenhoff e Roberto Conduru, assim como O colecionador, planejada por Leonel Kaz e Luciano Migliaccio, abrangem duas das principais coleções existentes na cidade. A mostra da coleção Fadel, eixo de Vontade construtiva, é um recorte dentro de um amplo acervo formado por obras que vão do modernismo e até o início da arte contemporânea brasileira, privilegiando-se aqui o grupo vinculado à introdução do abstracionismo de matriz construtiva no país. Os curadores, entretanto, mesmo pontuando as salas com uma sequência parcialmente cronológica, adotaram uma abordagem mais ampla e profunda acerca da questão da forma no Brasil. A presença do modernismo pós-1922, de objetos rituais afro-brasileiros e da escultura colonial pretendem ultrapassar a discussão histórica de uma mera apresentação de escolas e “estilos” para indagar problemas maiores na formação de nossa visualidade. Por sua vez, O colecionador trata a coleção de Jean Boghici por um outro caminho: afinal, ela é diversificada o suficiente a ponto de ter juntas arte internacional, modernidade brasileira, a nova figuração dos anos 1960 e peças peculiares, como, por exemplo, uma pequena escultura caricatural de um policial francês feita por Belmiro de Almeida. Kaz e Migliaccio enfatizaram numa seleção heterogênea dessas peças, o prazer inerente ao ato de colecionar, o caráter passional que move o colecionador, critério maior (senão único) na formação de seus acervos.

Observadas em conjunto, as mostras permitem ao visitante conviver com um generoso panorama da história da arte brasileira nos últimos dois séculos e também com a curiosidade de imaginar como tais acervos se formam, uma vez que isso também é parte da história social e cultural da cidade, do Estado, do país. Se antes da abertura o museu era cercado pela ansiedade, após essas primeiras exposições, a imaginação do visitante provavelmente fica atiçada em saber quais serão as próximas.

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