© Joh Mabe Espaço Arte & Cultura e Instituto Manabu Mabe

Luís Fernando Veríssimo, qual é sua obra de arte dos sonhos?

“Tenho muitas obras de arte dos sonhos, mas, se tiver que escolher uma só, terminaria com uma obra de Manabu Mabe”.

O escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo acaba de lançar o romance Os Espiões, um bem-humorado relato da busca de um editor frustrado e seus amigos pela reencarnação moderna da mítica Ariadne, de quem o protagonista recebe um manuscrito. Já no primeiro contato com a agente de Veríssimo, fomos avisados de que a resposta demoraria a chegar por causa do grande volume de pedidos de entrevista, em razão do lançamento de seu novo livro. Mas, como todo bom amante da arte, o escritor não resistiu a falar de suas obras preferidas, e, felizmente, a resposta não tardou.

“Na impossibilidade de ter um Van Gogh na parede, pois, mesmo em sonho, não se deve exagerar, eu me contentaria com um Francis Bacon, um Edward Hopper, um Alberto Burri, um Manabu Mabe, um Arshile Gorky, um Rufino Tamayo ou um Pablo Picasso. Se tivesse que escolher só um, ficaria entre o Bacon e o Hopper. Mas aí haveria um problema. Um Bacon em casa significaria ter de encarar, diariamente, a pintura mais inquietante do século. E um Edward Hopper encheria a casa de uma melancolia contagiante. Melhor ficar com um Manabu Mabe, qualquer Manabu Mabe, que decora e não perturba.”

Talvez não seja unânime a opinião de que nenhuma pintura de Mabe possa perturbar. Em sua fase negra, por exemplo, a presença disforme das cores escuras traz, aos olhos do observador, uma melancolia conturbada. No entanto, certamente Mabe pode ser considerado o menos perturbador do curioso espectro de artistas citados por Veríssimo. Cada um dos outros que ele mencionou criou, em maior ou menor grau, obras que inquietam. Porém, exatamente por isso, fascinam.

Em Mabe, o fascínio exercido por sua pintura tem outras razões. “Nas telas, registro minha própria vida”, disse ele, em 1985. A afirmação pode explicar o porquê de Veríssimo ter dito que “qualquer Mabe” serviria a seu sonho.

O comprometimento com a concepção da obra até o final para que nada ficasse faltando. Essa é uma marca do criador Mabe nas quatro fases principais de sua produção: escola acadêmica, de 1947 e 1949; expressionismo e fauvismo, de 1950 a 1952; semiabstracionismo e neorrealismo, no período de 1953 a 1957; e o abstracionismo.

Ainda que tenha flertado com o figurativo, foi mesmo no abstracionismo lírico que ele definiu a identidade de sua pintura, sendo um pioneiro no Brasil, aonde chegou em 1934 ao lado de sua família. Principalmente no início de sua trajetória, com um dos grandes mestres da pintura no Brasil. A influência da descendência japonesa, porém, é latente quando se observa a escolha das cores e das formas em seus trabalhos. A busca pelo equilíbrio e harmonia assim como a presença dos traços da caligrafia japonesa Sumi-ê em suas obras dos anos 1950 são outras evidências de que ele buscou, nas origens, sua inspiração. Talvez mais perturbadora seja a lembrança do acidente ocorrido com um avião cargueiro da Varig, que, em 1979, desapareceu no oceano Pacífico transportando uma coleção de mais de 50 telas de Mabe, as quais estavam em exposição pelo mundo e foram avaliadas em US$ 1,24 milhão. Os destroços da aeronave, cuja rota era de Tóquio para Los Angeles, os corpos dos tripulantes e os quadros de Mabe nunca foram encontrados. Até hoje, o maior mistério da aviação.

Compartilhar: