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DASARTES 06 /

Mamõyguara Opá Mamõ Pupé

A arte brasileira por artistas estrangeiros.

Quando pergunto a Adriano Pedrosa sobre quantas nacionalidades existem na lista de quase trinta artistas que vão participar do Panorama da Arte Brasileira, ele não sabe responder. A única certeza que tem é que não haverá nenhum brasileiro. Pela primeira vez em 31 edições, a mostra mais tradicional do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) não vai apresentar nenhum trabalho feito por artistas nacionais. Ao contrário, vai reunir uma “arte brasileira feita por estrangeiros”, mas com a cultura brasileira sendo o eixo condutor dos trabalhos. A única brasileira convidada pelo curador é Tamar Guimarães, que teve sua carreira toda desenvolvida na Europa.

Inaugurado no início deste mês com orçamento em torno de R$ 900 mil, o Panorama da Arte Brasileira teve sua primeira edição realizada em 1969 com o objetivo de gerar aquisições para a formação da coleção do MAM-SP por meio dos prêmios concedidos a cada edição. Anos mais tarde, a exposição passou a ser organizada por gêneros, como escultura, desenho e pintura. Há quase 15 anos, a instituição passou a convidar um curador para desenvolver um projeto especial a cada edição. E em 2003 veio a última grande mudança: o cubano Gerardo Mosquera foi o primeiro estrangeiro a ser convidado para organizar a exposição. Panorama da Arte Brasileira (Desarrumado) foi uma exposição com artistas nacionais e internacionais.

“A própria história do MAM já indica uma superação dessa concentração exclusiva em arte brasileira, feita por brasileiros”, aponta Adriano Pedrosa, que, em 1996, começou sua reflexão sobre o que caracteriza como uma problemática relação entre arte e nacionalidade. Naquele ano, Pedrosa escreveu um texto publicado na revista Poliéster em que condenava a Bienal do Museu Whitney por não se abrir a artistas estrangeiros. “Nosso circuito artístico não se renova a cada dois anos para justificar uma exposição que seja um panorama do que vem sendo produzido aqui, e a nacionalidade é o critério curatorial mais simplista que existe. Minha tentativa foi fazer uma leitura complexa e criativa do termo arte brasileira, mas não estou dizendo que ela seja só isso. O Panorama continua da arte brasileira, mas ela não é mais só dos brasileiros. Estão canibalizando nossa cultura e muitos ainda não se deram conta disso”, completa.

Segundo o curador, a proposta do Panorama é uma resposta a um movimento que começou a se articular ainda nos anos 1990. Nos últimos quinze anos, o mundo assistiu a um crescente reconhecimento internacional da arte brasileira, em especial do Neoconcretismo, da Tropicália e da arquitetura modernista. “Se até então a referência principal do modernismo era o eixo do Atlântico Norte, mais especificamente Estados Unidos e Europa, nos anos 1990 começa o reconhecimento de modernismos ou modernidades alternativos. Nesse contexto, a tradição brasileira é uma das mais fortes”, explica Pedrosa. Cada vez mais essas referências alternativas passaram a influenciar a produção de jovens artistas internacionais. “Uma antropofagia ao contrário”, como define o curador.

“Estrangeiros em todo lugar”

Ainda do lado de fora do museu, o visitante é recebido pela frase Mamõyguara opá mamõ pupé escrita em neon. O trabalho da dupla Claire Fontaine, formada pelo irlandês James Tennant Thornhill e pela italiana Fulvia Carnevale, já esteve em várias partes do mundo. Em Nova Iorque, o texto vinha em árabe e ficou exposto em um bairro judeu. No Brasil, a frase “Estrangeiros em todo lugar” ganha uma versão em tupi antigo e outra em português e é título da exposição. “Cada vez que esse trabalho é apresentado em um contexto, ele adquire novas leituras, novos significados. Isso porque a questão da nacionalidade acaba se refletindo de maneiras diferentes em cada lugar”, aponta Adriano Pedrosa.

A 31ª edição do Panorama da Arte Brasileira ocupa todo o espaço expositivo do Museu de Arte Moderna e vai além. Um programa de residência artística feito em parceria com a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), iniciado em julho, trouxe para o Brasil Juan Pérez Aguirregoicoa, Runo Lagomarsino, Jose Dávila, Mateo López, Adrián Villar Rojas, Alessandro Balteo Yazbeck, Tove Storch e a dupla James Tennant Thornhill e Fulvia Carnevale. Nenhum deles tem a obrigação de apresentar um trabalho na exposição. Segundo o curador, foram convidados a desenvolver uma relação para o futuro, conhecendo um pouco mais de perto a história, a cultura e a arte brasileiras.

Os outros mais de vinte artistas que participam da exposição apresentam trabalhos realizados nos últimos anos e que partiram de, ou se relacionam com, referências da arte brasileira. Entre eles, está o peruano Armando Andrade Tudela, que apresenta uma série de trabalhos de colagem em que a referência inicial foram os Bichos, esculturas de metal com partes articuladas criadas por Lygia Clark. “A primeira obra dessa série, feita em 2006, chama-se Bicho Raro. Hoje, essa referência explícita aos Bichos de Clark já foi incorporada, gerando novos desdobramentos”, aponta Pedrosa.

O mexicano Damián Ortega também tem Lygia Clark entre as suas principais referências. A instalação Ordem, Réplica, Acaso, realizada em 2004 no Museu de Arte da Pampulha, reunia cubos de aço que podiam se articular nas mais diferentes configurações. Maleável como os Bichos de Clark, a obra também dialogava com o espelho do edifício, projetado por Oscar Niemeyer nos anos 1940. “É um trabalho que passa do plano, na parede espelhada, para o espaço. Esse é o mesmo movimento feito pelas obras neoconcretas de Hélio Oiticica e Lygia Clark, que começaram como pinturas na parede e ganharam o espaço com instalações”, ressalta o curador.

A obra do cubano Carlos Garaicoa também revela interesse por nossa arquitetura. De como Minha Biblioteca Brasileira se Alimenta de uma Realidade Concreta é um trabalho em que o artista mistura livros sobre arquitetura brasileira a caixas de concreto para construir uma parede. Já o trabalho do inglês Cerith Wyn Evans faz referência à música e à história brasileira. Aqui Tudo Parece que é ainda Construção e já é Ruína é um trabalho de 2004 que coloca em um letreiro de fogos de artifício a frase dita pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss em uma crítica à situação histórica e social do Brasil, e mais tarde cantada por Caetano Veloso em Fora de Ordem. Ainda no Panorama, o artista apresenta outro trabalho: Museu de Arte de São Paulo por Lina Bo Bardi (1957-1968), em que uma luminária fica piscando, em código Morse, um texto escrito pela arquiteta Lina Bo Bardi sobre o Museu de Arte de São Paulo (MASP).

Ainda fazem parte da exposição artistas como a francesa Dominique Gonzalez-Foerster, o colombiano Gabriel Sierra, a eslovena Marjetica Potr?, o venezuelano Juan Araújo, o alemão Franz Ackerman, a italiana Luisa Lambri e o argentino Nicolas Guagnini, que em seu projeto Máquina Curatorial conta com a participação de Valdirlei Dias Nunes.

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