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No mercado de arte atual, o pop, ou melhor, a Nova Figuração Brasileira da década 1960 dá indícios de ser a razão do próximo boom de arte brasileira no exterior. Esse período – muitas vezes reverenciado como a década de ouro da arte brasileira – contou com artistas de destaque em todos os seus níveis de expressão: no teatro (que desempenhou papel fundamental nesse período), no chamado cinema novo e na nova música popular brasileira, sucessora da bossa nova. Nas artes plásticas, surge nessa época uma leva de jovens artistas procurando novos caminhos – distintos da abstração informal e geométrica que reinava há alguns anos e que já aparentava sinais de cansaço. Nomes como Antônio Dias, Carlos Vergara, Carlos Zílio, Antônio Manuel, Cláudio Tozzi, Samuel Szpigel e José Resente, entre tantos outros. Temos, ainda, as presenças isoladas do gaúcho Avatar Moraes, de Humberto Espíndola, no Mato Grosso, e de Décio Noviello, em Belo Horizonte. Ao lado dos jovens, continuavam a brilhar as estrelas de Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Wesley Duke Lee e Nelson Leirner, só para citar alguns – artistas que na metade dos anos 1960 também aderiram à Nova Figuração (ou ao Realismo Mágico, no caso de Wesley).

Os anos 1960 têm obras fabulosas e artistas incríveis, mas são poucos os bons trabalhos dos movimentos pop e político em circulação […]. Devido à alta exposição que o país está tendo ultimamente é natural que o interesse em sua história política aumente, e o período da ditadura seria o primeiro alvo, a nas artes visuais isso seria refletido. (Thiago Gomide, diretor e avaliador da Bolsa de Arte em São Paulo)

Os trabalhos dessa geração, produzidos principalmente no período compreendido entre 1964 e 1968 (até a instituição do AI-5), apresentam algumas peculiaridades, principalmente quando comparados com a pop art norte-americana e inglesa. A principal delas consiste na carga emocional e na força dos trabalhos brasileiros, com nítida conotação política em muitos casos (vide, por exemplo, os flans de Antônio Manuel, o Revólver de Roberto Magalhães, os “popcretos” de Cordeiro, os objetos de Escosteguy, a marmita com a palavra “Lute”, de Carlos Zílio e as pinturas e desenhos de Antônio Dias). Por outro lado, o pop americano, tão badalado (e não vai aqui nenhuma ironia), aborda aspectos do cotidiano urbano e da cultura de massa com total distanciamento e imparcialidade. Em resumo: de um lado temos a frieza do pop contrastando com o posicionamento sócio-político do artista brasileiro.

Veja Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios: de modo simplificado, traz todos os elementos que formam a equação semântica e formal de Rubens Gerchman neste período da Nova Figuração, e seu lirismo, propositadamente acanhado, demonstra que o tratamento da temática urbana no Brasil subdesenvolvido não pode compartilhar do cinismo pop que critica a sociedade de consumo avançada. (Paulo Sérgio Duarte, crítico e historiador de arte)

Os trabalhos da Nova Figuração Brasileira, apesar de causarem grande impacto visual quando expostos pela primeira vez, não despertaram maior interesse comercial nos anos 1960. Daí a importância da atuação de alguns poucos colecionadores à época, como Gilberto Chateaubriand, João Sattamini e Jean Boghici – este último também galerista e um dos maiores incentivadores dessa nova geração.
Obras que se encaixam nesse período foram produzidas por relativamente pouco tempo; muitas foram destruídas e poucas adquiridas. Ao longo dos últimos anos, esses trabalhos foram sendo literalmente garimpados, com extrema dificuldade. Hoje, além das coleções mencionadas acima, temos outras ainda pouco divulgadas, mas muito abrangentes, contendo preciosidades que nada devem ao pop internacional. Para o mercado, porém, obras de artistas brasileiros dessa época têm cotação irrisória, se comparados com os ícones da pop art.
A arte brasileira está conquistando seu espaço por que pensa e faz. Quem faz melhor não é quem sabe mais. Quem faz melhor é quem faz o melhor que sabe… E quanto ao mercado também sou platéia e não é o que me norteia nem antes, nem agora. Vamos em frente que atrás vem gente… (Carlos Vergara, artista plástico)

O mundo das artes assiste à explosão do pop americano, que atinge recordes sucessivos no mercado internacional. Em 2010, a Christie’s vendeu dois trabalhos de Andy Warholl por preços até então inimagináveis: Green Car Crash (1963) alcançou US$ 71,7 milhões, enquanto a tela Lehmon Marilyn (1962), um retrato da atriz Marilyn Monroe medindo apenas 50 x 40 cm, foi arrematado, na mesma noite, por US$ 28 milhões. Em novembro deste ano a mesma casa de leilões londrina vendeu uma pintura de Lichtenstein, de 1961 (I can see the whole room), por US$ 43,2 milhões. Não se tem notícia, até o momento, de qualquer transação envolvendo trabalhos da Nova Figuração Brasileira por valor superior a US$ 1 milhão. Mas vale a aposta nesse ainda pouco explorado (mas fascinante) período da arte brasileira – é esperar para ver.

 

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