MAC-USP: um museu em travessia

© Mauro Restiffe

“Um museu em travessia” e “uma ocupação paulatina” são as expressões que mais se ouvem de Tadeu Chirelli, atual diretor do Museu de Arte Contemporânea da USP. Em meio a tantas discussões sobre a polêmica ocupação da nova sede no Ibirapuera, no prédio projetado por Oscar Niemeyer que, ao longo de muitos anos, sediou o Departamento de Trânsito de São Paulo, Chiarelli recebeu a Revista Dasartes para uma entrevista de duas horas em que buscou refletir sobre o que constitui um museu contemporâneo e universitário, bem como sobre as dificuldades de transpor tais conceitos para a prática.

A nova sede foi inaugurada em janeiro de 2012, com a exposição O Tridimensional no acervo do MAC – uma antologia, que exibe obras do acervo, realizadas entre os anos 1940 e o final dos anos 1990, e discutem o conceito tradicional de escultura. A mostra, ainda em cartaz, também demonstra um procedimento curatorial que se interessa em enfatizar parâmetros formais e temáticos sem seguir uma linha cronológica. As esculturas, que ocupam o térreo, evidenciam o edifício e a arquitetura do Niemeyer, considerada, pela Diretoria, como uma das peças da coleção.

O Museu – que comemora 50 anos em 2013 – possui um acervo com cerca de dez mil obras, somando trabalhos de arte moderna e contemporânea. Questionado sobre a diferenciação entre os períodos das produções que compõem a coleção do MAC, Chiarelli afirma que “ser um museu de arte contemporânea é assumir uma atitude contemporânea perante o seu acervo, seja ele moderno ou contemporâneo”. O curador, que não acredita em artistas ou obras highlights, defende que uma obra ganha contemporaneidade na medida em que é relacionada com outra no espaço expositivo e com a presença do visitante. “Acredito que, no Brasil, não existe um outro acervo que permita de fato uma revisão efetiva das narrativas canônicas da História da Arte” – explica Chiarelli, que também é professor no departamento de Artes Plásticas da USP e foi Curador-Chefe do MAM-SP entre 1996 e 2000.

Essa discussão aparece na mostra o AGORA, o ANTES – uma síntese do acervo do MAC, curadoria de Chiarelli que ocupa a grande galeria do sétimo andar. No texto curatorial, afirma que seu objetivo foi “perturbar e ressignificar verdades consagradas”, revisando gêneros tradicionais da arte como alegoria, retrato, paisagem e natureza-morta a partir de obras realizadas entre meados do século 19 e a atualidade por artistas de diferentes nacionalidades e que trabalham com técnicas diversas. Na primeira sala, que abriga uma discussão sobre o retrato, estão juntos Carlos Zilio, Albano Afonso, Cindy Sherman, Anita Malfati e Amedeo Modigliani. Assim como em outra sala estão Flávio de Carvalho, Thiago Honório, Antoni Muntadas e Alfredo Volpi.

Todas as exposições, ou a grande maioria delas, são resultados ou instrumentos de pesquisa de disciplinas lecionadas no MAC ou em outras instâncias da USP. Devido a uma preocupação com a sedimentação das questões levantadas pelas mostras, organiza-se seu período expositivo para durar no mínimo seis meses, para que o público possa visitá-las mais de uma vez. As grandes galerias localizadas entre o quarto e o sétimo andares serão ocupadas com mostras de longas duração de um ano a um ano e meio. Já as pequenas galerias devem exibir exposições de cunho monográfico que privilegiam artistas cujos trabalhos são muito bem representados na coleção do MAC. A primeira exposição a ocupar a pequena galeria do sétimos andar é sobre Di Cavalcanti, que apresenta quase 600 obras no acervo. Di Humanista, com curadoria de Katia Canton, evidencia como o pintor percebia e interpretava a paisagem social do país, por meio dos núcleos Vida Real, Mulheres, Boemia e Carnaval, Gente (Trabalhadores e Famílias) e Política.

O museu não recebe verbas para comprar obras e as aquisições precisam ser feitas mediante doações. Durante a gestão de Chiarelli, o MAC recebeu 120 trabalhos por doações de empresas, realizadas com incentivos fiscais, de particulares, por meio de colecionadores e marchands e (uma grande parcela) de artistas. A seleção é feita em conjunto com as outras curadoras do Conselho Deliberativo, pensando obras contemporâneas que se relacionem com o restante do acervo. Parte dos trabalhos recebidos recentemente já estão expostos nas mostras MAC 50: doações recentes 1 e 2.

O Anexo Original destaca-se como um espaço importante para obras site-specific de artistas convidados. A instalação Sala de Espera, de Carlito Carvalhosa, desconstrói o “cubo branco” em que esse espaço se tornou após a reforma. O artista toma por base o harmonioso conjunto de pilotis para instalar quase uma centena de antigos postes de madeira. Posicionados entre a horizontal e o oblíquo, os postes oferecem outra dimensão ao local, dificultando a passagem de quem caminha por seu interior.

No mezanino desse espaço, é exibida a série Obra, com fotografias de Mauro Restiffe produzidas durante os três anos de reforma do prédio. De acordo com Chiarelli, as imagens revelam “o estágio anti-heroico do processo de reforma e adaptação dos espaços de Niemeyer”. A proposta de configurar o Anexo Original como espaço para obras site-specific deve continuar durante a gestão de Tadeu Chiarelli, e já existem outros artistas confirmados para ocupar o espaço.

Durante a gestão de Walter Zanini (1963 a 1978), um dos grandes nomes da curadoria brasileira, o MAC caracterizou-se como museu laboratório abrindo um espaço institucional para novos artistas, cujo maior exemplo é a exposição Jovem Arte Contemporânea, realizada em 1972. A mostra não teve júri de seleção e o espaço expositivo foi sorteado entre os artistas participantes. Questionado sobre a possibilidade de reproduzir experiências como essa, Chiarelli afirma que propostas como aquelas não fazem mais sentido na atualidade. “Aquele tempo passou. O circuito hoje é institucionalizado a tal grau que uma experiência como as atividades foram propostas brilhantemente pelo Zanini soariam clientelistas ou falsamente democráticas”. Entretanto, o diretor ressalta que o MAC, enquanto museu universitário, tem que ter uma preocupação em despertar a memória recente de uma arte crítica e de resistência. “A preocupação com o jovem artista, com a experiência artística se mantém, mas como uma adaptação a esse novo momento que a arte vive tanto no Brasil como no exterior” – explica o curador.

Uma das atividades produzidas pelo museu é O MAC encontra os artistas, evento organizado em conjunto com o Grupo de Estudos em Crítica e Curadoria do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, que acontece toda terça e cujas apresentações são gravadas e disponibilizadas no site. A programação deste semestre foca-se em artistas em meio de carreira, sendo que muitos deles participam das mostras MAC-50: doações recentes.
Atualmente, o MAC-USP se divide em três sedes: Cidade Universitária, metade do terceiro andar do Pavilhão Ciccillo Matarazzo e a nova sede, todas com exposições em cartaz. Até o final do ano, o museu deve ocupar todo o prédio da nova sede e desocupar o espaço no edifício da Fundação Bienal, que será devolvido à Prefeitura de São Paulo. A diferença entre as duas sedes restantes será que a Cidade Universitária concentrará o chamado “MAC acadêmico” – biblioteca, arquivo e salas de aula –, e suas atividades enfocarão a pesquisa e a formação dos estudantes. No mesmo espaço, também serão produzidas pequenas exposições abertas ao público, porém voltadas diretamente para as práticas ministradas nas disciplinas oferecidas pelo MAC.

Questionado sobre qual seria o MAC ideal, Chiarelli responde que deveria ser um ponto de intersecção entre três áreas: acervo, arquivo e biblioteca. Todas as atividades do museu deveriam decorrer desse núcleo central no qual documentação, obra e publicação de artista se juntariam. Chiarelli comenta que os museus, em geral, colecionam arte contemporânea, mas se pensam como museus de belas artes ao priorizarem as obras que seguem as modalidades tradicionais. Toda a produção que fica no meio do caminho entre documento e obra estaria num “não lugar” (com algumas raras exceções), que seria justamente o centro de interesse do MAC. Infelizmente, o diretor não acredita que vá colocar em prática esse projeto de museu ideal durante a gestão dele, já que, nesses anos de administração, as prioridades foram a reforma e a transferência para o novo prédio.

Duas novas exposições estão previstas para abrir no dia 15 de junho: uma individual do pintor José Antonio da Silva, com curadoria de Ana Gonçalves Magalhães, e a mostra O Artista como Autor / O Artista como Editor, com curadoria de Tadeu Chiarelli. Esta última procura fugir de polêmicas que configuraram a história da arte recente, como o debate entre “figurativos x abstratos”, “abstratos líricos x abstratos construtivos”, “concretos x neoconcretos”, etc., para contrapor o artista que reivindica o gesto autoral e o artista que reorganiza as imagens do mundo, como Iberê Camargo e Robert Rauschenberg.

A nova sede do MAC tem recebido cada vez mais visitantes: foram 8.009 pessoas no último mês de março. Entretanto, ainda falta contratar mais monitores para o educativo, instalar o café, ocupar uma boa parte do prédio, etc. Entre tantos verbos conjugados no futuro, entre o desejo e a frustração, entre a longa dimensão dos processos políticos e burocráticos, resta-nos agora esperar o que está por vir.

Serviço:
Exposições:
O tridimensional no acervo do MAC – uma antologia
MAC 50: Doações Recentes 1
MAC 50: Doações Recentes 2
o AGORA, o ANTES – uma síntese do acervo do MAC
Di Humanista
a partir de 6 de abril de 2013
Sala de Espera: Instalação de Carlito Carvalhosa
Obra: Fotografias de Mauro Restiffe
9 de março de 2013 a 8 de setembro de 2013
Funcionamento: terça a domingo, das 10 às 18 horas
Local: MAC USP Nova Sede – avenida Pedro Álvares Cabral, 1301
Entrada gratuita

 

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