© Onda, 2014

DASARTES 39 /

Luiz Zerbini

Com base em visões anteriores das pinturas quase fotorrealistas de Luiz Zerbini, que pareciam sufocar o espectador com imagens densas e a responsabilidade de “estudar” a arte por suas sérias “lições históricas” – cheguei à recente exposição dele, em março, no Galpão Fortes Vilaça, com alguma trepidação. Achava que sabia o que me esperava, mas […]

Com base em visões anteriores das pinturas quase fotorrealistas de Luiz Zerbini, que pareciam sufocar o espectador com imagens densas e a responsabilidade de “estudar” a arte por suas sérias “lições históricas” – cheguei à recente exposição dele, em março, no Galpão Fortes Vilaça, com alguma trepidação. Achava que sabia o que me esperava, mas estava errado!

Quem entrava no Galpão Fortes Vilaça era confrontado por uma mesa-vitrine longa e baixa, composta de compartimentos contendo uma paisagem abstrata, tridimensional, de areia, pedras e pedaços de coral e a eventual borboleta – tudo em acrílico transparente e colorido, riscado com linhas ondulantes sugerindo ondas. Era uma série artística de caixas do tesouro ecoando jardins zen japoneses, com sua areia cuidadosamente rastelada, bem como as caixas surrealistas mágicas de Joseph Cornell e as esculturas sensuais de Isamu Noguchi.

O trabalho encantou instantaneamente minha criança interior, bem meu adulto racional! Mais tarde, soube que se chama Natureza Espiritual da Realidade e já apareceu duas vezes antes, cada vez em uma variação diferente: em 2012, no show Amor, no MAM Rio, e, em 2014, na exposição Pinturas, realizada na Casa Daros, também no Rio de Janeiro.

Depois de me abaixar e levantar vorazmente para ver essa paisagem de diferentes ângulos, finalmente olhei para cima e vi, no final da galeria, uma pintura em escala mural de uma onda. Era uma magnífica onda em plena altura, do tipo que seduz surfistas; com sobreposições de grades abstratas e manchas biomórficas, a pintura sugere que, além de olhar para o tubo de uma vasta onda prestes a estourar, estamos ao mesmo tempo olhando para a lente de um microscópio. Verdadeiramente, a visão de um mundo caleidoscópico – lindo e ao mesmo tempo ameaçador de uma forma bíblica.

A pintura é chamada Onda e é um triunfo, a mais fina nova pintura em uma exposição pública que eu vi no último ano e um avanço para o artista, que nasceu em 1959, em São Paulo, mas vive e trabalha no Rio de Janeiro desde 1982. E, para mim, Onda e a exposição forneceram uma lição importante sobre ver arte. Você simplesmente nunca sabe quando um artista vai lhe nocautear, quebrar todas as suas queridas ilusões e fazê-lo perceber que você precisa voltar a olhar para toda a sua obra já conhecida para refletir e contextualizar.

Os preços para esta exposição totalmente vendida variaram de US$ 100 mil, para tamanho pequeno, a US$ 250 mil para Onda, que é a maior. Embora a galeria não divulgue o nome do sortudo comprador, o trabalho é, aparentemente, destinado a ser uma doação eventual a uma instituição pública brasileira. Felizmente, para aqueles de nós que vivem entre São Paulo e Nova Iorque, em breve haverá mais obras de Zerbini a serem vistas, já que o artista desfrutará de sua primeira exposição individual em Nova Iorque na galeria Sikkema Jenkins & Co., de Chelsea, no ano que vem.

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