© Denise Adams

DASARTES 23 /

Luis Pérez-Oramas

Todos os olhos se voltam para o colombiano Luis Pérez-Oramas.

Todos os olhos se voltam para Luis Pérez-Oramas. O colombiano é curador da Bienal de São Paulo no momento em que ela volta a ter presença forte no cenário internacional e em que o Brasil atrai as atenções de todo o mundo. A considerar pela lista de artistas selecionados, sua intenção é inovar: a maioria deles é inédita no Brasil e poucos são conhecidos do grande público. Oramas, no entanto, mostra-se irritado com as reações e determinado a colocar inovação à frente de reconhecimento ou da capacidade de atrair público, prometendo uma mostra refrescante. Responsável pelo Departamento de Arte Latino-americana do MoMA de Nova Iorque, o curador cedeu esta entrevista exclusiva à Dasartes.

Fale sobre o tema “A eminência da poética”. Como ele norteou sua seleção dos artistas?

A Iminência das Poéticas não é um tema. A 30.ª Bienal não tem um “tema”. A articulação das ideias de Iminência e Poéticas é, para nós, curadores da 30ª, um “motivo”. A diferença entre “tema” e “motivo” é sutil, mas é capital: o “tema” é um conteúdo e uma tese; o “motivo” é um pretexto, um aglutinador, o ponto de partida para uma série de perguntas, para o estabelecimento de uma estratégia discursiva. Não se pretende que os artistas “ilustrem” ou “representem” nosso motivo. Somente que suas obras entrem em ressonância com a constelação de perguntas que podem ser deduzidas a partir de tal motivo. Exemplos: Como a arte contemporânea – e o que fica entre nós das interrogações modernas – “funciona” em um mundo de iminências, de acontecimentos por vir, imprevisíveis? Como acontece, em sua iminência, a arte? E como é, ou responde, em última instância, a prática artística a uma série de decisões poéticas, expressivas, discursivas, enunciativas, vocais?

Considerando a longa história da Bienal, como você se insere nela? Como ela influi seu trabalho?

O trabalho de curadoria não é um trabalho de historiador. Estou perfeitamente consciente da história da Bienal de São Paulo. Mas não poderia dizer que tal história é uma “influência” dentro da 30ª Bienal. Possivelmente, diria apenas que me detive para observar com atenção as bienais da “mudança de século”: ou seja, aquelas que aconteceram a partir de 1998. Essas foram as bienais que procuraram um tom para se adequar ao século 21, o qual nos compete “inventar” agora.

Muitos artistas criarão obras especialmente para a Bienal. Eles trabalham com “carta branca”? Como isso influi na unidade buscada pela curadoria?

“Carta branca” não existe em arte nem em nada. Os grandes artistas respondem a grandes condicionantes e sua inteligência é tão maior quanto saibam ler e responder às circunstâncias.

Após a bienal de 2010, que tinha forte presença de brasileiros, sua lista surpreendeu pela pouca presença de nomes nacionais. Em um momento em que o Brasil é centro das atenções, não seria uma escolha pouco ortodoxa?

A observação é errada. Se revisar cuidadosamente a história da Bienal – e aí, sim, digo-lhe que fizemos isso – a margem de presença de artistas brasileiros se mantém em um nível parecido ao nosso: entre 25% e 40% dos artistas presentes. Inclusive, houve Bienais com muito menos artistas brasileiros no passado. Esquece-se de que estamos falando de uma Bienal, a 29ª, com 157 artistas, em comparação à nossa, com 111. A diferença numérica de artistas brasileiros é relevante dentro dessa comparação, mas não a diferença proporcional. Contudo, alguém estava esperando de uma Bienal curada por um profissional não brasileiro um evento exclusivamente brasileiro?

Também se nota pouca presença de artistas internacionais conhecidos e uma predominância de latino-americanos. Por quê?

Gostaria de saber o que se entende por “artistas internacionais conhecidos” e por que não se consideram os artistas latino-americanos “artistas internacionais”. Estamos tratando de ver outro lugar que não seja o lugar que o mercado está vendo. Citarei uma lista: Jiri Kovanda, Franz Erhard Walther, Ian Hamilton Finlay, Mark Morrisroe, Bernard Frize, Gego, Sheila Hicks, Jutta Koether, Hans Peter Feldman, August Sander, Hans Eijkelboom, Frederic Bruly Bouabré, etc. Se fizer uma revisão, ainda que ligeira, da história recente da “arte internacional”, surpreender-me-ia muito que não fossem os citados alguns dos nomes mais relevantes!

Como as zonas curatoriais – sobrevivências, alterformas, derivas, vozes e reverso – serão percebidas por quem visita a Bienal?

O que você diz não são zonas curatoriais. Foram unidades conceituais, para dirigir nossa busca, nossa investigação. O desafio de uma curadoria não consiste em traduzir uma ideia, mas inventar em um espaço real. Estamos fazendo uma Bienal constelar, dentro e fora do Pavilhão do Ibirapuera. Nela, o público encontrará uma série de seleções de obras de cada artista, organizadas em constelação e relacionadas com as seleções que lhes são vizinhas: a constelação fica, no final do dia, nos olhos e na mente de cada espectador, na medida em que se abre à experiência da Bienal.

Entre os artistas selecionados, fale do primeiro que lhe vem à mente.
Fernand Deligny, porque, precisamente, não foi um artista e sua obra é extremamente relevante para nossa experiência da arte: interrogar, questionar a ideia recebidasegundo a qual as imagens falam, já que as imagens são, como pensava Deligny, autistas. Não falam. Pertencem ao reino animal.

Em uma só palavra, diga o que sua curadoria buscou trazer para a Bienal.
Um olhar que produz sentido, um olhar que quer fazer sua inteligência encontrando o olhar dos outros.

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