© Juliana Ribeiro

Um gozo silencioso é a promessa de Luana Aguiar em uma de suas performances mais contundentes. Em?Se me atirares um ovo gozarei em silêncio, a artista se coloca sobre uma base em praça pública, tendo nas mãos uma placa com o título da obra. Uma cesta de ovos está à disposição do público. Mais do que um público especializado, Luana provoca e convida à participação o passante comum, muitas vezes não inserido no “público de arte”. A agressividade é um dos fatores mais marcantes do trabalho, não apenas a dos espectadores, mas, principalmente, a agressividade passiva da artista que, com sua mensagem, é a grande força motriz de qualquer ato que venha a acontecer. Com essa obra, Luana se insere num campo duplo e num lugar de paradoxo da mulher: ao mesmo tempo em que é ativa e libertária, gritando seu estado de prazer e gozo, é submissa ao se expor passivamente à agressão deliberada do outro.

Diferentes afirmações do feminino – que não devem ser confundidas necessariamente com feminismo – são dos principais motes da produção da artista, estando evidentes ainda em obras como?Bem me quer mal me quer, na qual retira vagarosamente todos os pelos de uma de suas sobrancelhas. Tendo como pedestal um banco simples, em suas mãos um espelho evoca as tantas Vênus que afirmaram um padrão de beleza ao longo da História da Arte, ao mesmo tempo em que sua atitude transgressora impõe a figura da mulher para além dos ditames de beleza impostos pela sociedade.

Luana, que iniciou sua trajetória fotografando o próprio corpo para transformá-lo em pinturas, até descobrir que aquilo já não dava conta de seus interesses, não percebeu de imediato como a presença desse corpo de mulher constantemente se evidenciava em suas obras. Para ela, “estabelecer uma poética é um processo de descoberta. Não era claro que o corpo feminino assumia um caráter específico em meu trabalho. Ao longo do tempo, foi ficando evidente. É um processo de amadurecimento da obra”. Formada em Artes Visuais pela UERJ e citando Bataille, Freud, Hélio Oiticica e “as musas da performance” como bases teóricas para sua produção, a artista apresenta alguns de seus trabalhos de 2 a 31 de outubro na 1.ª Bienal do Sertão de Artes? Visuais 2013, na Bahia, onde o público terá a chance de gozar – em silêncio ou não – de sua arte.

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