© Estúdio fotográfico I. Bessi Carrara

Grande parte do que somos depende da qualidade do diálogo entre a delicadeza brutal dos episódios mais marcantes da nossa infância; e da perspectivação consciente que deles vamos fazendo ao longo da vida. Se muitas vezes é o silêncio estéril – fonte inesgotável de fraqueza e derrota – que impera nesta relação, é quando alimentamos e exigimos uma dinâmica profunda com o passado difícil que conseguimos avançar e crescer para além dele. É preciso mais do que coragem para ir navegando esse mar alto, contra o vento, uma permanente bolina arriscada em improviso vital. Ir assumindo a travessia com firmeza, construindo-se com ela, ir partilhando as importantes notas da viagem: eis o desafio maior. Raramente aceito, menos vezes superado.

Os primeiros anos, Paris

Louise Bourgeois nasceu em 25 de dezembro de 1911 em Paris. Cedo sentiu o que seriam os germes que alimentariam o trabalho de toda uma vida, longa e produtiva como poucas. A relação com um pai cínico e autoritário; a figura protetora, tutelar e de saúde frágil, sua mãe; e a relação do casal, em que seria tolerado um longo envolvimento que a tutora da família manteria com seu pai – tudo contribuiu de forma marcante para a formação de um espírito introspectivo e inquieto, curioso e perturbado. “Alguns de nós somos tão obcecados pelo passado que morremos disso”, escreveria muitos anos mais tarde.

Cedo a pequena Louise foi iniciada por sua mãe na arte do restauro de tapeçarias antigas, o negócio da família, reparar artesanalmente o que o tempo e o uso haviam estragado. Aos 15 anos de idade, forçada pela urgência maternal de que a filha lhe sucedesse com a maior competência, abandonou a escola. Nesta altura, a jovem já alimentava um hábito solitário que a acompanharia a vida inteira: manter um diário em que registava com palavras e desenhos as suas reflexões e sentimentos, frutos da insônia. Revisitaria sempre um passado perpetuamente presente: a sua infância, o que sentiu; o medo, o sonho e a raiva; a incapacidade de reconciliação; o apaziguamento que tarda e não chega. Tudo matéria-prima para o seu trabalho, terapêutico.

Aos 21 anos, Louise inscreve-se na Escola de Belas Artes, estudando depois matemática na Sorbonne, filosofia na Universidade de Paris e história da arte no Louvre. Foi assistente de Fernand Léger, frequentou várias academias e ateliês, e trocou a matemática pela arte: “Voltei-me para as certezas do sentimento em vez daquelas que nos ensinam.” Fez gravura, pintou, desenhou. Em 1936, realiza a sua primeira mostra coletiva, na Galerie de Paris. O seu apartamento parisiense ficava no mesmo edifício da Galeria Gradiva, de Breton, cuja porta havia sido desenhada por Duchamp. No Louvre, conhece Robert Goldwater, historiador e professor de arte norte-americano. “Em meio a conversas sobre surrealismo e últimas tendências nos casamos.” Partem para Nova Iorque em 1938.

Carreira e vida na América

Em 1940, é convidada para a sua primeira coletiva americana, cinco anos depois para a sua primeira individual de pintura. Logo foi conhecendo os mais importantes artistas e galeristas da efervescente cena nova-iorquina, como De Kooning e Peggy Guggenheim. Alguns dos quadros dessa época, da série Femme-Maison, mostram figuras femininas nuas e partes do corpo, além de casas no lugar de cabeças; um imaginário de limitação e aprisionamento, o desejo de escapar das construções íntimas que nos cercam, de nós próprios.

Nessa década, inicia o trabalho de escultura, pequenas figuras eretas em madeira que recriavam os familiares e amigos que tinha deixado em Paris. Figuras isoladas, totêmicas, sem expressão definida, habitantes das casas que tinha pintado, individualizados, mas inertes, inanimados, assexuais. Sempre referindo-se a seus pais, à infância, a esse passado.

Essa primeira série de esculturas, chamada Personages, foi exposta ao lado de obras de artistas como Robert Motherwell e Mark Rothko, nomes fortes do expressionismo abstrato. Esta tendência evoluiu até os anos 1950 com vários personagens em uma mesma escultura, presos entre si, condenados a enfrentar tudo e a se enfrentarem também; unidos para sempre pela natureza das coisas, pelo acaso imperativo da família, o enorme polvo sempre presente. Louise já era mãe de três filhos.

Nos anos 1960, Bourgeois começa a usar materiais orgânicos – borracha, gesso, cera e argila – em uma expressão tão explícita de temas sexuais e psicológicos, pujantes e subversivos, que a crítica logo a relaciona com o surrealismo, bem conhecido dos seus anos de Paris. Nesta altura, explora formas e estados eminentemente orgânicos. Aquele corpo que antes era apenas observado é agora mostrado e descoberto na sua interioridade, calma intensa.

Depois das Femme-Maison e das peças icônicas, vem a visão do corpóreo e sua pulsão interior, seu ritmo quente. A simplicidade vital. Ninhos, refúgios vivos, em bronze, amebas brancas que ficam na parede quietas como quem espera, os Janus, peças fálicas caídas numa esperança patética, e as famosas e sarcásticas Fillette: falos enormes que parecem querer sublimar a expressão vulgar do ego masculino, satirizando a sua potência. Tem-se aqui um desembaraço maior na relação com o corpo enquanto centro e contexto. Uma ironia no olhar, um distanciamento descontraído que denuncia um maior grau de aceitação; o avançar de um processo, analítico.

O apaziguamento virá apenas com o tempo, ou não virá…

Em uma cruel fantasia da infância, Louise assassina violentamente o seu pai para devorá-lo à mesa de jantar, esquartejado. Foi aos 63 anos de idade, em 1974, após muitos anos de psicanálise, de experimentação artística e escrita sobre os medos e a raiva cristalizados – herança indelével – que encenou essa épica experiência. The Destruction of the Father, obra intimista e poderosa, a primeira instalação e um dos seus mais emblemáticos trabalhos, poderia ser uma frontal resposta à ideia freudiana da filha que mata a mãe para se apoderar do pai. Em um ambiente que lembra uma gruta ou paisagem primitiva, vê-se uma cama-mesa repleta de orgãos em um festim macabro e visceral. Esta dupla simbologia concentra em si toda a história de uma repetida traição familiar, antiga e silenciosa, aceita por todos. Ponto de interseção de todos os trabalhos da artista, aqui se resolve de forma atuante toda a história da infância que moldou a sua vida, dedicada a desmontar e reconstruir sempre esse mapa, circular e profundo.

De fato, a ação pensante de uma rara coragem.

Depois há Maman…

Em 1982, o MoMA de Nova Iorque dedica-lhe uma retrospectiva que finalmente tem o reconhecimento do grande público e da crítica. Nos vinte anos seguintes, produz instalações e esculturas que exploram a tensão entre a inocência e a sexualidade, entre as limitações e as pulsões do corpo, entre a ação do presente e a memória arquetípica. Introduz em vários trabalhos tapeçarias, bem conhecidas da infância. Belas torres de tecido e aço a lembrar as Personages, manequins femininos como deusas antigas, também o regresso à Femme-Maison, esculpida em mármore branco; e aranhas… Em uma clara referência à sua mãe, a aranha aparece em vários contextos, tecelã lenta e protetora, mas perigosa, com a qual é preciso interagir. Na enorme escultura icônica de 2000, Maman, de 9 metros de altura, a artista sumariza simbolicamente a tensa relação afetiva com uma protetora que não conseguiu defendê-la das questões familiares que marcariam toda a sua vida. Em um ato de expiação objetivada, também aqui Louise, então com 89 anos, se supera de novo, partilhando e resolvendo sempre, com emoção e clareza, uma das maiores problemáticas da sua vida.

Mantendo-se ativa até a sua morte em Nova Iorque em 2010, com 98 anos, Louise Bourgeois foi umas das artistas mais interessantes e controversas dos últimos tempos. Deixa uma obra extensa em que os permanentes questionamentos e redefinições do papel que a infância e a família tiveram na sua vida, no seu “inconsciente vulcânico” e na sua arte permanecerão atuais por muito tempo. A sua maior retrospectiva na América do Sul, com um total de 112 obras realizadas entre 1942 e 2009, chega este ano ao Brasil. Primeiro no Instituto Tomie Ohtake em São Paulo, de julho a agosto, e depois no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, entre setembro e novembro. Será imperdível lançar um olhar demorado para esses objetos profundos, saídos de uma viagem tão íntima e dolorosa quanto impactante e pertinente.

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