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DASARTES 33 /

Lippe

Jovens artistas cujas produções estão despontando.

No verso da capa de um livro antigo, Lippe desenha o momento de um julgamento. A ré, sentada de perfil, é interrogada por um oficial que, ao fundo, cobre o rosto com uma mão. A imagem é familiar, pois tem como referência a fotografia publicada em 2011, que retrata o interrogatório de Dilma Rousseff pela Justiça Militar, em 1970. Na versão de Lippe, porém, a ré também tem sua face e sua identidade cobertas, não pelas mãos, mas por um livro negro que parece flutuar sobre seu rosto. Ao lado do desenho, a contracapa do livro, marcada com clipes, tem seu título rasurado. No lugar, leem-se as palavras de Lippe escritas com grafite: “Aquele tipo de lembrança que faz dos ossos vidros e que hoje eu realmente não me importo”.

O trabalho faz parte da série de desenhos Melancolia Universal, que tem como ponto de partida fotografias antigas encontradas em livros, revistas, jornais, feiras de antiguidade e álbuns de família. São imagens que trazem em si os ruídos do tempo e as marcas da memória, que são lembrança, indício, fetiche e objeto de desejo. “O que mais me interessa nas imagens e nos objetos encontrados ao acaso são seu passado e sua força humana latente. Eles são cheios de memória e de uma beleza decadente que vêm da ruína, da tragédia dos tempos”, conta Lippe.

O artista manipula esse material, incorporando texto às imagens, cobrindo o rosto das figuras com objetos estranhos, manchas negras e formas abstratas que saem de seus orifícios e invadem o espaço do trabalho, descortinando nele uma dimensão absurda e insólita – “O passado ressurge no trabalho como um fantasma, como se ele quisesse se fazer presente como um trauma. Uma trauma histórico”.

A cada intervenção, as velhas imagens se constituem em novas, fazendo proliferar esse arquivo infinito, que é tanto vestígio da memória, quanto testemunho do esquecimento, da lacuna e da ausência de tudo aquilo que escapou ao registro – “É como se eu pudesse de forma poética reinventar o passado, reinventar a história”. Para saber mais acesse Lippeart.blogspot.com e lippedrawings.blogspot.com

 

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