LEONILSON – DOR, VERDADE, AMOR, POESIA

© Eduard Fraipont / Projeto Leonilson

Por Guilherme Bueno

“Não se assuste, se eu agora compreendo / ah! Isso ascende em mim / eu não consigo que seja de outro modo / eu preciso compreender, mesmo que ao preço da morte, compreender que estás aqui. Eu compreendo” (Rilke). Poucos artistas são tão emblemáticos na arte brasileira do século 20 quanto Leonilson. Poucos sintetizam, e ele talvez o faça melhor, o arco entre entusiasmo e drama vividos pela geração 80. E, sem poder testemunhá-lo, o artista abriria as portas para todo um território desbravado pela produção brasileira dos anos 1990 em diante.

Em cartaz até novembro na Estação Pinacoteca, em São Paulo, Leonilson: Truth, Fiction, com curadoria de Adriano Pedrosa, apresenta ao público um perfil do artista, morto em 1993, vítima do vírus HIV. Seu desaparecimento precoce espelha o testemunho dado alguns anos antes pelo crítico Marcus Lontra, ao dizer daquela geração, mediante suas frustrações e dilemas, que ela, tal qual sua antecessora (aquela dos anos 1960), mesmo que ao seu modo, “também levou porrada”: o “banho de água fria” de uma redemocratização capenga, o desmantelamento de um circuito de arte que se acreditava vigoroso, a dor da perda dos colegas de empreitada. Leonilson viveu tudo isso, respondendo com uma obra cuja força reside no inquietante entrelaçamento de uma sensibilidade aguda e as desventuras de uma vida marcada por amores, desencontros, força e fragilidade. Seus trabalhos são capazes de, em um mesmo gesto – como no caso dos bordados –, evocar em sua escala íntima a delicadeza e o rasgo dilacerante de uma cicatriz. Há neles um grito visceral e um sussurro amoroso, tão bem descritos na mostra sob a imagem do diário, algo sentido a cada trabalho ali disposto, no qual pouco importa discernir ficção de autobiografia, pois a vida admite em seus fatos todo tipo de projeções; daí os rios que confluem ou os oceanos que nunca se encontram, solidão e afetividade entremeadas.

Mas Leonilson dispunha de um talento único para materializar esses sentimentos em uma inteligência plástica rara. Nos primeiros anos, ele, assim como seus pares mais afins (Leda Catunda, Sergio Romagnolo e Ciro Cozzolino, também oriundos da FAAP, onde estudara entre 1977 e 1980), liberara a tela do chassis, incorporara uma fatura e uma paleta de um cromatismo “televisivo” – mesmo que nele com um teor menos “escandaloso” e mais tênue – e assimilara elementos e objetos do cotidiano, investindo-os, porém, não de ironia ou cinismo, mas, se permitida a expressão, de uma aura imantada de afetos. Assim a beleza emudecida das transparências fala de uma reconfiguração do espaço pictórico, ao revelar a parede e o chassis – uma superfície que se “literaliza” ao mesmo tempo em que precisa fazer ambígua sua opacidade –; o bordado confere uma materialidade corpórea à linha, ferindo a tela; as palavras entram como duplo das imagens e deflagradoras de uma relação narrativa entre as partes. Porém, tudo não existe como estrito exercício formal, mas, sobretudo, como cristalização de uma entrega: a imagem é uma fala a ultrapassar as próprias palavras.

Os fragmentos do corpo delineados, os corpos que se encontram e se refletem com seus traços simples, acabam por vezes a se avizinharem de chagas (estigmatas) e, por extensão, do jogo com metáforas religiosas. Nesse sentido, sua obra final, a instalação para a capela do Morumbi, com sua ausência enunciada pelas camisas e seu “Lázaro” pendurado falam da desaparição, da angústia de enfermarias e do gesto último de declaração de uma crença irrenunciável na arte e na vida.

Quais caminhos sua obra legou para uma geração que lhe sucederia? Uma resposta imediata estaria na sua disponibilidade tanto em incorporar elementos materiais e franquear uma presença mais do que confessional, afirmativa. É, nesse último aspecto, pois, que ela revela sua extensão. Em uma das gravações em que registrava seus depoimentos, visando à edição de um livro (alguns trechos chegariam a aparecer no documentário a ele dedicado pela Rio Arte), Leonilson declara sentir em seus dias uma repressão aos homossexuais tão raivosa quanto aquela que nos anos 1940 vitimara os judeus. Ao observarmos seus trabalhos, sentimos que o artista deu voz a um grito oprimido. A fala de sua obra é mais do que um gesto corajoso de expor em público a si mesmo; é a sinceridade em exigir seu direito de amar, de querer dizer. E isso não só artistas, tampouco a arte, mas todos – a vida, em uma palavra, deve-lhe.

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