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No meio da conversa de quase uma hora em seu ateliê, Leda Catunda me pergunta: “Posso te dar uma sugestão? Você pode colocar o título dessa matéria de ‘Leda Catunda, a ansiosa’”. A brincadeira da artista de conversa fácil, fala direta e opiniões fortes tem um fundo de verdade. A partir deste mês, ela apresenta na Estação Pinacoteca, em São Paulo, um grande panorama da sua produção. A maquete na mesa de centro do seu ateliê dá uma prévia do que vai ser a mostra, que reúne cerca de sessenta trabalhos realizados entre 1984 e 2009 com curadoria de Ivo Mesquita.

“Eu deveria estar comemorando, mas estou ansiosa para ver como esses trabalhos vão se comportar juntos e o que eu vou fazer a partir de agora”, explica Leda, um dos principais nomes da geração de jovens artistas que apareceram no cenário brasileiro dos anos 1980 resgatando a pintura deixada de lado pelos artistas da década anterior. “Se essa é a metade da minha produção, minha preocupação hoje é com que a próxima metade possa reforçar os depoimentos e as intenções que estão presentes na primeira. Tenho uma preocupação com a totalidade do discurso”, completa.

A primeira metade começou a ser construída no início da década de 1980. Em 1983, aos vinte e poucos anos, quando ainda estava cursando a faculdade de Artes Plásticas na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), em São Paulo, Leda foi convidada a participar de sua primeira exposição coletiva. Pintura como Meio, realizada no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, com curadoria de Aracy Amaral, reuniu Leda, Ciro Cozzolino, Sérgio Niculitcheff, Ana Maria Tavares e Sérgio Romagnolo, entre outros artistas.

Já naquele momento, ela trabalhava com o que chama de “pinturas-objetos”, por serem pinturas muito diferentes das convencionais. Ao invés de serem telas com a superfície coberta de tinta e presas a um chassi, seus trabalhos são estruturados diretamente na parede e, além de tinta, também se utilizam de tecidos, como voile, algodão estampado, jeans, veludo e plástico. A exposição ressalta como essas são características que acompanham a produção de Leda Catunda até hoje. Cada uma das três salas reúne trabalhos agrupados não por coincidência cronológica e sim por temas. Dessa maneira, paisagens, colagens e obras feitas pela junção de pedaços, mesmo que realizados com mais de vinte anos de diferença entre si, convivem na mesma sala, lado a lado.

“O principal esforço foi mostrar como a estrutura do pensamento está ligada ao raciocínio de colagem. Minhas obras têm um caráter muito associativo, de agregar conceitos e ideias através da soma que a colagem promove”, explica Leda. Sua obra lida com a ideia de que a arte pode ser feita com o que já existe, com imagens de outras pessoas, e com cores e texturas que são dadas não por sua pintura e sim que já existem nos materiais usados. “É quase como se eu pegasse um material e pensasse: ‘como é que vou grudar?’”, completa.
As fontes de inspiração estão em comércios populares, como a Rua 25 de Março, em São Paulo. É lá que Leda encontra os elementos da visualidade cotidiana das pessoas, e deles vem a ideia de conforto presente em seu trabalho. Colchões, cobertores e toalhas abriram espaço com o tempo para outros materiais, como o veludo e a pelúcia. “É uma ideia interessante para pensar em termos visuais, porque de modo extremamente legítimo as pessoas de qualquer cultura se cercam de algum conforto e nele está inserida a questão do gosto. A gente quer o mais lindo, o mais bonito. E que é totalmente manipulado pela questão do consumo”, explica Leda.

Em trabalhos mais recentes, a artista usa fotografias feitas durante as férias, que ampliam a ideia de um conforto que todos merecem. “São imagens idealizadas porque vivemos em grandes cidades, dentro de carros, parados no trânsito pensando quando vamos conseguir tirar férias. É a história de ter uma casa com piscina: você trabalha muito para conseguir comprar uma casa com piscina, mas quando você consegue não pode aproveitar porque tem que trabalhar ainda mais para sustentar a nova casa”, completa.

“Não estou fazendo qualquer coisa”

A exposição reúne obras praticamente inéditas, porque ou foram expostas em instituições fora de São Paulo ou foram vendidas para coleções particulares. Esse é um contexto muito diferente daquele que Leda Catunda encontrou quando, em 1980, entrou na FAAP. “Melhorou muito. Não estava preparada para o quanto ficou bom”, conta. Quando decidiu ser artista, Leda conta que estava com os pés no chão. Sabia que seria “meio pobre” e que teria que dar aulas para se sustentar.

Essa era uma alternativa em um circuito em que as poucas galerias que existiam não tinham a força que vemos hoje. “Hoje o mercado existe e exerce muita pressão. Chega a ser violento. Alguém liga para o seu ateliê e diz que quer qualquer coisa que você tenha. Isso me ofende porque não estou fazendo qualquer coisa. Eu tinha, e ainda tenho, muito medo de ser coisificada, e fui mesmo assim. Estar na mídia me ajudou muito, mas sempre defendi meu trabalho com unhas e dentes”, completa.

Talvez seja essa pressão que faça muitos jovens artistas terem dúvidas se devem ou não seguir a carreira. “Começar em um momento em que todo mundo quer comprar tudo é difícil, porque você não tem nem tempo de pensar. E pensar arte não é pensar em fazer dinheiro. É transformar o mundo. Considero que o mundo tem antes e depois do Leonardo Da Vinci, do Picasso e do Mondrian”, aponta Leda. “Muitos alunos me perguntam: ‘Será que vou conseguir viver de arte?’. Sempre respondo que, se tiver mesmo todo o petróleo que dizem que tem lá em baixo, eles serão os artistas mais famosos do mundo. Isso porque, na verdade, a questão econômica está diretamente ligada à arte. Os alunos também reclamam que arte é muito difícil, porque é preciso resolver o trabalho, resolver o conteúdo dele. Respondo que isso nunca passa. A única coisa que muda é que você se acostuma, aprende a lidar com essa dificuldade, mas vai ser sempre difícil. Se ficou fácil, você tem um problema ainda maior para resolver”, conclui.

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