Laura Lima: sobre seres e coisas

© Eduardo Eckenlfels / Laura Lima - Cortesia da artista e Galeria Luisa Strina

Um palhaço sentado imóvel; quando ninguém olha, aperta a buzina. Uma mulher que dorme num cômodo em que o teto, de tão baixo, parece esmagá-la. Outra mulher, que também dorme, está conectada (presa?) à parede por meio de uma espécie de braço visceral disforme. Dois jovens nus e com cílios grotescamente longos sentados em uma rede de balanço imensa. Um mágico que fabrica objetos de barro num ateliê caótico.

Com uma produção marcante que joga principalmente com corpos vivos (quase sempre pessoas) “coisificados” em instalações, Laura Lima é a ganhadora do Prêmio Bonnefanten de Arte Contemporânea, a premiação de maior prestígio na Holanda. Concedido pelo Museu Bonnefanten, o tributo destaca um artista vivo que, além de ter qualidade e excepcionalidade na obra, tenha também influenciado outros artistas. Além de um prêmio em dinheiro, ao fim do ano, Laura terá espaço no museu para uma exposição individual, que depois irá para a Argentina.

Além do Brasil, Laura já expôs nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Alemanha, e conjuga a formação em filosofia (pela UERJ) e em artes visuais (pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage), completadas em 1994. É considerada a primeira artista brasileira a vender uma performance – mas, em relação a este último tópico, possui uma reserva: a artista não acredita que seus trabalhos sejam performances. Segundo ela, o tratamento dado a esses corpos faz com que as obras se apropriem de tal maneira deles que os torna tão objetos quanto os outros elementos das instalações. Como falou para a revista BRAVO!, “os participantes são apenas mais um dos elementos que compõem a peça. Fazem parte de uma estrutura poética que não leva em conta a experiência pessoal deles, a história de cada um. Nesse sentido, coisificam-se. Recebem instruções sobre a obra, a tarefa que devem cumprir e a realizam. Não há ensaio.”

A não participação da própria artista como corpo-obra também contribui para um deslocamento em relação à performance. Não só isso: se “não há ensaio”, é como se ficasse mais próxima da condição de leitora da própria obra. Esse detalhe traça um rico diálogo com o destronamento do autor proposto por Barthes para se coroar o leitor, deslocando mais ainda as peças de Laura para longe do senso comum da performance que, com frequência, valoriza o artista como autor e obra.

No entanto, faz-se necessário observar que o conceito de performance é amplo e dificilmente evitável ao se inserir pessoas como “objetos” artísticos. Roselee Goldberg, pioneira nos estudos da performance, diz que prefere os termos live art ou body art em detrimento de performance – o que só confirma a amplitude dessa forma artística e sua ligação com a vida, com o “aqui e agora” e com o corpo (todos presentes na obra de Laura). Talvez mais sensível seja afirmar que as peças da artista jogam com os limites entre performance e instalação, deslocando-se constantemente.
Fica evidenciada uma questão elementar: a interação entre seres viventes e os objetos que os circundam. Não é possível pensar no palhaço sem a buzina, a mulher sem o teto, a outra mulher sem sua conexão com a parede, os jovens sem a rede, o mágico sem os objetos fabricados e o “ateliê”. Nessa relação entre seres e coisas, constroem-se as situações – o objeto altera o corpo vivo e o corpo, o objeto. Para Giorgio Agamben, é a tensão entre os seres viventes e os dispositivos que rege a relação daqueles com o mundo. Os trabalhos de Laura parecem tocar recorrentemente nessa tensão.

O dispositivo da buzina e da roupa de palhaço constrói aquele sujeito que, por sua vez, reconstrói o dispositivo da buzina, utilizando-a de determinada forma, assim como o dispositivo do teto transforma (subjetiviza) o deitar daquela mulher que, à sua maneira, utiliza o espaço à volta. Essa tensão constante, segundo Agamben, é o que faz essas substâncias vivas se tornarem sujeitos. Laura Lima, assim, trata do lidar com o mundo.

Há outras obras da artista que mantêm tal discussão, tratando da questão de maneira mais representativa, como os quadros de pessoas pintadas em estilo clássico com intervenções sobrepostas a seus rostos e corpos; ou as galinhas com penas artificiais coladas no corpo. Há, ainda, obras que omitem um dos termos da relação binomial “seres-coisas”, como a peça em que dois homens seminus, ao chão, puxam-se e se empurram por meio dos quadris que estão unidos um ao outro; ou como no trabalho que exibe charutos em formatos diversos – mas, por se tratar de um binômio tão intrínseco à obra, o termo omitido estará paradoxal e fatalmente citado de forma metonímica.

Em todas essas situações apresentadas, é importante notar: observar e afirmar a coisificação do humano é também afirmar sua humanidade e abrir possibilidades para que ela aconteça em resposta ao mundo e a si mesma.

 

1 SANTOS, José Mário Peixoto. Breve histórico da “performance art” no Brasil e no mundo. Revista Ohun, ano 4, n. 4, , dez. 2008.

2 Agamben se aprofunda no termo em “O que é um dispositivo?”, no livro O que é o contemporâneo e outros ensaios, publicado em 2013, pela Argos.

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