L’art en guerre France 1938-1947

L’art en guerre France 1938-1947, exposição realizada de outubro de 2012 a fevereiro de 2013, no Musée d’art moderne de la Ville de Paris, apresenta pela primeira vez a produção artística na França durante a Segunda Guerra Mundial, com alentado catálogo trazendo um abecedário que trata de artistas e movimentos. Inicia-se com a mostra surrealista de 1938, passando pela arte no campo de internamento, pelos exílios, refúgios e clandestinidades, pela fundação do então chamado Musée national d’art moderne (onde acontece a atual mostra, embora não mais museu nacional), mas também pelos jovens pintores da tradição francesa, e pela Liberação.

Se a guerra e a ocupação alemã acarretaram total penúria de bens, materiais e, sobretudo, liberdade, apesar de certo liberalismo em relação à cultura (salvo a produção judaica), permitindo a apresentação de peças de Camus, Sarte e outros, a situação é de fuga, clandestinidade, exílio e resistência dos que conseguiram sobreviver. Ou, ainda, como a de Picasso que, tendo feito Guernica, em 1937, impedido de expor e considerado “decante”, permanece em seu ateliê da rue Grands Augustins. No sul da França, zona livre durante certo tempo, vários artistas procuram refúgios, entre outros, Alberto Magnelli, Hans Arp, Sophie Taebeur, Sonia Delaunay, que inventaram meios para os trabalhos, muitos dos quais feitos coletivamente, “testemunhando solidariedade até na invenção das formas”. No meio artístico parisiense, sinistrado pela Ocupação e pelo regime Vichy, em que imperam censura e autocensura, alguns raros marchands, em especial a galerista Jeanne Bucher, expõem e publicam diversos artistas considerados também “decadentes”, como Kandinsky, Klee, Dora Maar, Laurens, de Staël, e outros.

Jean Dubuffet, artista e escritor, desempenhando diferentes atividades durante a Ocupação, por exemplo, como negociante de vinhos, é o grande inventor da art brut, que reúne práticas artísticas realizadas por pessoas sem referências culturais e à margem do sistema oficial. Em 1946, sua mostra Mirobolus, Macadam et cie., com suas obras figurativas criam o grande escândalo ao ser contra a “tradição francesa”.

Em 1941, os “jovens artistas da tradição francesa”, sob a liderança de Jean Bazaine e tendo como figuras de referência Bonnard, Braque, Matisse e Picasso, organizam uma primeira exposição na Galeria Braun. Em 1943, realizam uma segunda mostra na recém-criada Galerie de France. São de certa maneira os pintores e escultores que formarão a chamada Nova Escola de Paris, após a Liberação, expostos no Salon des Réalités Nouvelles, marcadamente abstracionista. Não sem polaridades e paixões, diversos críticos formulam teoricamente sobre a abstração, como Léon Degand, Antoni Tapiés Charles Estienne ou Michel Seuphor.

Após a Liberação, como afirmam os curadores, Laurence Bertrand Dorléac e Jacqueline Munck, “a hora era enfim chegada de descomprimir. Tudo era bom para desviar a língua usada pela propaganda”, como as primeiras manifestações dos Letristes. O clima do pós-guerra, contudo, é de um nacionalismo a toda prova, em melancólico desejo de restaurar o lugar perdido de uma grande tradição. Como no Brasil, “tudo chegou junto não na ordem que aconteceu lá”, como aponta Ferreira Gullar, a influência da Nova Escola de Paris se fará com muitas obras desses artistas na exposição inaugural do MAM-SP, em 1949, Do figurativismo ao abstracionismo, organizada por Degand, por iniciativa de Ciccillo Matarazzo. L’art en guerre, ao traçar a história ainda não contada, nas palavras de Roland Barthes, desse “pesadelo sinistro e gelado”, contribui para o conhecimento do período e não nos deixa indiferentes.

1 DORLEAC, Laurence Bertrand; MUNCK, Jacqueline. L’exposition comme lieu de recherche. In: L’art en guerre (catálogo). Paris: Musée d’art moderne la ville de Paris, 2012.

2 DORLEAC ; MUNCK. Op. cit.

3 GULLAR, Ferreira. Entrevista. In: COCCHIARALE, Fernando; GEIGER, Anna Bella, Abstracionismo geométrico e informal. Rio de Janeiro: Funarte, 1987.

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