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DASARTES 15 /

Lance de Protesto

Guy Amado contra o episódio de um inusitado leilão em Londres

No último dia 15 de fevereiro, em Londres, cerca de dez ativistas do movimento Arts against cuts protagonizaram um breve e inusitado ato de protesto contra cortes de verbas governamentais na área de artes e serviços públicos, como educação e saúde. Mas o que chamou a atenção neste caso foi o momento escolhido para a ação contestatória: uma sessão dos badalados e exclusivos leilões de arte contemporânea da famigerada Sotheby’s, uma das duas maiores casas do mundo no setor.

O evento encaminhava-se para o seu auge, com os lances subindo em torno de uma das estrelas da noite, o lote 36 – uma pintura/painel serigráfico de Andy Warhol –, quando foi interrompido pela ação do grupo, que, vestido a caráter para o ambiente, na lateral da sala, começou a gritar e produzir ruídos sincronizadamente, acionando também alarmes sonoros. Uma faixa com os dizeres ‘Orgia dos ricos’ foi estendida, e, sobre o abonado público, lançados punhados de cédulas falsas de 50 libras. Os manifestantes causaram alvoroço naquele reduto elitista, tumultuando, por alguns minutos, o andamento do leilão. O protesto continuou ainda do lado de fora da Sotheby’s com a encenação paródica de um leilão de bens, como bibliotecas, hospitais e outros serviços públicos. Os organizadores da ação pertencem a uma coalizão de artistas, estudantes, servidores públicos e creative workers, formada em 2010 por causa da decisão do governo britânico de cortar gastos nas áreas de artes e educação, dentre outras.

Para além do teor da manifestação em si, e desta refletir um quadro de crise intensificado pelas recentes medidas drásticas adotadas pelo governo britânico, é de se notar um dado sintomático no que se refere a este ato de protesto em particular: a escolha de um evento de vendas de arte contemporânea como alvo. Nessas ocasiões, se gasta dezenas de milhões de dólares ou libras em… arte, e arte contemporânea ainda por cima, com toda a sua complexa especificidade, e por vezes intangibilidade, em questão de poucas horas. Num contexto de propalada austeridade como o da Inglaterra atual, e de quase toda a Europa, torna-se mesmo um alvo e tanto para manifestações dessa ordem, simbolizando o que pode ser considerado como ‘templos de desperdício’ pelos revoltosos. Afinal, leilões desse porte transformaram-se em símbolo de ostentação financeira, propiciando a uma elite gastar rios de dinheiro em transações por vezes de natureza ambígua, quando a arte parece ser antes um meio que um fim.

A ironia é que, de maneira inadvertida, a própria arte contemporânea fornece munição para se manter razoavelmente impermeável a ataques como este. Nos vídeos que registraram a ação ao vivo, é possível ver boa parte da plateia – os ricos visados pelo grupo – aplaudindo animadamente, enquanto os manifestantes eram removidos do ambiente, à maneira de quem bate palmas ao final de uma performance ou de uma apresentação teatral. Aplaudiam a retirada do grupo pela segurança? Ou a ação engajada com o sentido de performance? Ou era apenas um aplauso amarelo instintivo, do tipo catártico coletivo?

Seja como for, o fato é que os lances foram retomados em seguida, e o mencionado Warhol acabou sendo arrematado por cerca de 5 milhões de dólares, superando as estimativas. Houve também um Richter, vendido a 7,2 milhões de…libras. O valor total arrecadado com as vendas daquela noite foi de 44,4 milhões de libras, nada muito significativo, segundo analistas especializados. Aos membros do Arts against cuts, resta o consolo da missão cumprida, embora a efetividade de seu ato seja de difícil mensuração.

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