Willys de Castro, Objeto ativo, 1962.

DASARTES 78 /

Laércio Redondo: Relance

DUPLA MOSTRA DO ARTISTA, NA PINACOTECA, PROPÕE INVESTIGAR INTERPRETAÇÕES DAS NARRATIVAS DA HISTÓRIA DO BRASIL, CONTADAS POR MEIO DA COLEÇÃO DO MUSEU, A PARTIR DA EXPERIÊNCIA OLFATIVA

A pesquisa do artista brasileiro Laércio Redondo, que vive entre a Suécia e o Brasil, envolve a memória coletiva e seus apagamentos na sociedade brasileira. Seu trabalho é frequentemente motivado pela interpretação de eventos específicos relacionados a cidades emblemáticas do país, a arquitetura e representações históricas.

Agostinho da Motta, Natureza-morta com frutas, 1873

Para o projeto proposto para Pinacoteca, o artista toma como ponto de partida o trabalho do pintor Estêvão Silva (Rio de Janeiro, 1844-1891), primeiro artista afrodescendente formado pela Academia Imperial de Belas Artes no Rio de Janeiro a obter destaque no seu tempo.

Estêvão Silva foi um exímio pintor de naturezas mortas, muitas vezes exibidas contra paredes de tecidos, atrás dos quais arranjos de frutas exalavam cheiro. O artista combinava, na percepção do observador, visão e olfato, criando uma experiência do objeto artístico em que o corpo, os sentidos e a memória do observador se articulavam à obra.

A exposição proposta por Laércio Redondo consiste em criar outras possíveis narrativas na coleção da Pinacoteca através do cheiro, tomando como referência a estratégia usada por Estevão Silva.

O projeto é uma instalação que inicia no Octógono, com um trabalho que faz menção à uma das naturezas mortas do pintor, e segue pelo museu através de um percurso ao longo da exposição de longa duração do acervo da Pinacoteca. Nesse itinerário, o público encontrará intervenções que propõem outras leituras sobre as obras do acervo e também explicitam algumas de suas lacunas, indicando novas leituras da história da arte brasileira apresentada pela coleção.

Relance, a partir de Estevão Silva / Natureza Morta, 1888, 2018.

No itinerário criado na Pinacoteca, o artista propõe um desvio crítico, formalmente resolvido na estratégia de inversão dos sentidos na percepção do trabalho.

O privilégio dado ao sentido do olfato é uma estratégia de ativação, de libertação, de outras memórias, permitindo outras interpretações. Redondo, que sempre tem trabalhado com procedimentos de erosão, de revolvimento e reconfiguração das imagens, desta vez estende ao limite a sua iconoclastia, em uma atitude que lhe pareceu necessária para, de certa maneira, escapar ao poder normalizador das imagens.

“O privilégio dado ao sentido do olfato é uma estratégia de ativação, de libertação, de outras memórias”

Por que o odor? Os cheiros são sentidos a cada respiração. Eles nos cobrem, nos cercam, entram em nosso corpo, emanam de nós. Dos odores é praticamente impossível escapar, nós os pegamos no ar. Eles afetam os espaços da cognição sobre os quais não temos muito controle, talvez por isso sua capacidade de despertar memórias escondidas, capazes de recuperar emoções de experiências reprimidas e de abrir outras compreensões do passado, contribuindo para repensarmos o presente.

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