© Amazona com leões azuis, 1918

Reunidas na mostra Kandinsky – Tudo começa num ponto, obras do artista russo estão circulando pelo país desde novembro do ano passado. Resultado de um acordo inédito entre o Museu Estatal Russo, cuja coleção forma a base da mostra, e outros sete museus russos, além de colecionadores particulares da Alemanha, Áustria, Inglaterra e França, afirma-se como a maior exposição do artista fora da Europa. Teve como primeira parada o CCBB de Brasília, onde recebeu mais de 240 mil visitantes, já passou também pelo Rio de Janeiro, chega agora em abril ao CCBB de Belo Horizonte e depois encerra sua passagem pelo nosso território com a temporada que acontecerá entre julho e setembro na filial de São Paulo.
Das mais de cem peças que compõem a exposição, muitas são pinturas de artistas contemporâneos a Kandinsky e outras tantas são objetos diversos de caráter etnográfico. Um total de 39 são as que foram produzidas pelo artista no período de sua primeira passagem pela Alemanha e do posterior retorno à Rússia – entre essas, pinturas em vidro, porcelanas e gravuras, além das pinturas sobre tela, que de fato são o que desperta o interesse dos visitantes.

A Kandinsky é atribuída a autoria da primeira pintura abstrata na história da arte ocidental, e o enfoque da mostra é apresentar justamente os caminhos que o artista trilhou e as influências que o levaram a tal empreendimento. Não se trata de um feito de menor importância, já que introduz a abstração como uma possibilidade de manifestação irreversível na pintura, que não apenas será seguida, mas terá desdobramentos plurais e complexos pelas mãos de muitos artistas depois dele.

Kandinsky começou a se dedicar à pintura somente aos 30 anos. Sob o impacto das pinturas impressionistas, sobretudo a série de montes de feno de Monet, que vira em uma exposição, ele deixou Moscou, em 1896, para ir estudar arte em Munique, desistindo de uma promissora carreira como professor de Economia e Direito. Mudou-se, então, para a Alemanha precisamente naquele momento de efervescência artística na virada do século 19 para o século 20, quando, no grande palco das transformações da modernidade, se dava o veemente ato pós-impressionista, abrindo a cena para o espetáculo do cubismo e do fauvismo. Kandinsky não pôde e não quis permanecer imune a essa movimentação, e é possível ver a contaminação do impressionismo, do pontilhismo e, notavelmente, das paisagens provençais de Cézanne nas pinturas dos primeiros anos.

O artista levara na bagagem as íntimas e marcantes referências da cultura popular e do folclore russo. Uma expedição etnográfica à província de Vologda, no norte de seu país, quando tinha 23 anos, deixou traços indeléveis em seu espírito. Durante essa viagem, ele se debruçou com real interesse sobre as tradições, as crenças e sobre a situação econômica do povo daquela região. Foi de tal forma impactado pelas cores nas roupas, no interior das construções e nos móveis dos camponeses que relatou em seus escritos, que se sentiu como se estivesse dentro de uma pintura viva. Registrou, em um diário de viagem, provérbios, canções, orações, contos; e desenhou objetos e detalhes decorativos das casas. A partir de então, começou também a colecionar brinquedos de madeira, rocas de fiar e luboks – estampas tradicionais com desenhos de camponeses, cenas religiosas e animais como serpentes e corujas. A primeira seção da exposição traz objetos, gravuras e pinturas que introduzem a relevância dessa tradição da trajetória de Kandinsky.

Nessa viagem conheceu também os zyrianos, um povo fino-úgrico da nação komi por meio do qual era possível contatar os xamãs. São certa surpresa da exposição os vários objetos xamânicos, como instrumentos e vestimentas, incorporados para apresentar essa influência no imaginário do artista. Na verdade, o interesse de Kandinsky pelo místico e sobrenatural também promoveu seu envolvimento com a teosofia. Ele se aproximou do filósofo Rudolf Steiner, que estava à frente do braço da doutrina na Alemanha, chegando a frequentar suas palestras em Berlim. Diante do quadro geral da virada do século na Europa, com o materialismo da sociedade pós-industrialização em ênfase, vários foram os artistas que se envolveram com a teosofia investindo em uma busca espiritual como espécie de antídoto, entre eles Paul Klee e Piet Mondrian.

A música é outra influência fundamental na produção do artista. Ela foi presente em sua vida desde a infância, quando Kandinsky teve aulas de piano e violoncelo. Admirador de Richard Wagner, tratou de estreitar relações com Arnold Schönberg depois de assistir a um concerto do compositor em Munique. A imaterialidade da música o inspirava e o movia. As sensações advindas do contato com essa arte intangível o inquietavam e foi esse mesmo resultado que passou a perseguir em sua produção na pintura. Sobre as repercussões da cor na alma, uma célebre frase em seu livro Do espiritual na arte traduz a relação que ele estabelecia entre as duas paixões: “A cor é a tecla. O olho o martelo. A alma é o piano de inúmeras cordas. Quanto ao artista, é a mão que, com ajuda desta ou daquela tecla, obtém da alma a vibração certa”.

Kandinsky não estava interessado em uma reprodução do real, mas em uma pintura que falasse dos sentimentos do pintor. Sua produção foi trilhando paulatinamente os passos da desconstrução da figuração. Chegou à primeira pintura abstrata entre 1910 e 1911, quando estava engajado n’O cavaleiro azul, um grupo de artistas que costuma aparecer vinculado ao movimento conhecido como expressionismo alemão nos livros de história da arte, e que se voltara para a criação de imagens que manifestassem seu ceticismo em relação à vida moderna, industrializada; para a expressão visual da espiritualidade que acreditava residir sob a superfície do mundo sensível.

O recorte da exposição não compreende as obras feitas durante a segunda passagem de Kandinsky pela Alemanha, quando, a convite de Walter Gropius, tornou-se professor da memorável Bauhaus, nem de seu período em Paris. Torçamos para que não tarde a oportunidade de ver em nosso território as pinturas produzidas nesses anos, nas quais se dá um interessante desdobramento da abstração com a inclusão de formas geometrizadas e bioformas.

Compartilhar: