Aos vinte e poucos anos de idade, o então designer Julius Wiedemann entrava no voo só de ida para o Japão. Depois de trabalhar no país por três anos, ele enviou dezenas de currículos para o mundo todo e conseguiu uma vaga em uma das editoras mais prestigiadas do planeta, a alemã Taschen. O nome dispensa apresentações para quem aprecia as artes visuais. Com quase dez anos dedicados à empresa, Julius – que é editor chefe de design e diretor de publicações digitais da editora –, é o responsável pela publicação de mais de trinta livros pela Taschen, incluindo títulos e séries mundialmente conhecidos, como Logo Design, Digital Beauties, Illustration Now, Japanese Graphics Now e Latin American Graphic Design. Com o passaporte carimbado e a antena ligada no que há de mais vanguardista na área, Julius conta para a Dasartes o que tem visto por aí.

O que mais o atrai em trabalhar como editor de livros de artes e design?

O mais fascinante é constatar a diversidade criatividade que vive o mundo hoje. São muitas pessoas fazendo muitas coisas interessantes, e nossa missão é tentar ver o máximo possível, e tirar sentido disso tudo. Garanto que não é um trabalho fácil. Temos na Taschen uma linha muita vasta de áreas de atuação, e um foco abrangente de interesses. No final das contas, atuamos como curadores, o que eu adoro. Acaba sendo um trabalho de extrema responsabilidade.

Você já trabalhou com design no Brasil, no Japão e na Alemanha, além de visitar inúmeros países do mundo. Depois dessa experiência, você acredita que o design seja uma produção artística universalizada ou é possível observar claramente as diferenças culturais?

As diferenças culturais são fortíssimas, não há a menor dúvida. Mas isso não significa que não exista uma universalidade no valor do design, que pra mim é o mais importante. Fazer diferente e ver a diversidade que existe é muito positivo. Países diferentes têm valores estéticos muito diferentes, que vão desde a forma com que se ensina, o amadurecimento da indústria de design no país e a cultura local, até o fato de esses países já terem tido uma escola de design emblemática.

Quais as principais diferenças que você percebeu nos países com que teve mais contato?

De modo genérico, o design europeu tende a ser mais conceitual, com forte foco em tipografia. A Alemanha tem ainda uma estética muito presa à Bauhaus, eles ainda não conseguiram virar a página, por assim dizer. Os americanos pararam no tempo da Pop Art e da Art Déco. Já os japoneses fazem algo completamente diferente, são geniais, mas vemos as suas estéticas como estrangeiros, porque até as palavras para nós são apenas imagens. Os ingleses, para mim, são os designers que conseguem trazer no momento o melhor de cada lado, e como têm uma indústria madura, conseguem tirar proveito disso. Têm massa crítica e volume de trabalho que obrigam todos a se esforçarem para melhorar o nível. O Brasil tem uma escola mista, e aí está a nossa grande força. Precisamos amadurecer como indústria para dar mais suporte aos profissionais e aprofundar a discussão a favor da qualidade.

Sua experiência no Japão mudou de alguma forma a sua concepção de design?

Mudou bastante. Eles valorizam muito o design e o designer. E eles também exercem um tipo de liberdade de criação que permite muitas inovações no design gráfico. Quando um mercado também pode funcionar como um laboratório para os profissionais, isso acarreta uma melhora de qualidade enorme, e os japoneses souberam fazer isso.

Quais são, atualmente, os maiores nomes do design contemporâneo? E do design brasileiro?

Não me arriscaria a dizer. Design gráfico é muito vasto, muito mesmo, e hoje vai desde design de interface até de pôster. É difícil fazer uma lista. Posso mencionar talvez alguns escritórios e profissionais que fazem um trabalho que eu admiro muito: Pentagram (sempre incrível), Research Studios (do Neville Brody, muito ativo), Concrete (do Canadá), Kentlyons (Londres), Sasha Vidakovic (Londres), Taku Sato e Hara Kenya (no Japão). Mas há muitos outros. Acabo de fazer um livro sobre design asiático, e é fantástico ver o que está sendo feito também em Cingapura, na Coreia do Sul, em Hong Kong etc.

Onde está o melhor design do mundo hoje?

No Reino Unido, porque eles ficaram entre uma visão europeia e uma visão americana. São excelentes profissionais, e Londres, como um grande centro de criatividade em várias áreas (fashion, web, publicidade, grafite, design de produto, arte contemporânea etc.), tem servido para formar e abastecer o mercado com o que existe de melhor. Eles têm também uma escola excelente de tipografia e conseguem enxergar conceitos relevantes com um toque comercial que não põe tudo a perder. Eu tenho acompanhado alguns escritórios crescerem no Reino Unido, e é visível como a qualidade do trabalho não cai. É uma linguagem limpa, mas que não deixa de ser alegre. No final das contas, acho que tudo o que está acima de tudo misturado com o humor deles criou uma indústria criativa de grande valor.

Como o design brasileiro é recebido lá fora?

É muito bem visto hoje, tido como um design com uma escola ainda indefinida, e por isso com mais capacidade de surpreender. O Brasil tem uma cultura de design muito nova. Eu diria que o nosso caminho ainda é longo, mas, como disse, nossa escola de design, misturada à nossa cultura, criou uma diversidade muito grande na área. Temos escritórios jovens de nível internacional, como Hardy Design, Tecnopop, 6D e OESTUDIO. Tem muita gente boa. Os coletivos de designers no Brasil estão criando agências de serviço completo. Lá fora, o nosso maior expoente é o designer Giovani Bianco, que trabalha com a Madonna. Ele é genial e seu trabalho é universal.

Como você acompanha as tendências do design mundial e a partir disso decide lançar ou não um livro sobre um determinado tema pela Taschen?

Leio muito, pesquiso muito, dou muitas palestras (e por isso viajo e encontro pessoas), mas, principalmente, tento encontrar com designers em todos os lugares por onde passo. Há uma semana, tive em Nova Iorque e fui conversar com o Stefan Sagmeister. No Rio, estou sempre conversando com alguém também. A meu ver, em conversas despretensiosas se recolhem muitas informações. Além disso, assino muitas (mesmo) newsletters por e-mail!

E como é o seu filtro? Como você decide o que é bom ou não para ser publicado pela Taschen?

É sempre uma combinação de fatores, e depende do que estamos falando. Design gráfico é diferente de ilustração, que são diferentes de design de produto. Mas a qualidade e a consistência do artista/designer vêm em primeiro. Ideias são sempre importantes para se justificar um trabalho, mas isso tudo também tem que incorporar beleza, realização primorosa e diferenciação.

De todos os livros de design que você editou pela Taschen, você tem carinho especial por algum?

Difícil ter que escolher entre filhos, mas eu diria que o Japanese Graphics Now me marcou muito, além de ter sido um grande sucesso.

Qual você acredita que seja o diferencial da Taschen como editora de livros de artes e design em relação às outras?

Olhamos sem preconceito para todos os tipos de expressão visual, e publicamos em muitas áreas diferentes. Isso faz do nosso programa algo inovador, além de diverso. Sempre dizemos que queremos que as pessoas se divirtam com nossos livros o tanto quanto nos divertimos fazendo-os.

Quais as principais evoluções do design com as novas tecnologias?

A multiplicidade de plataformas e a possibilidade de interação são para mim as duas coisas mais importantes hoje para um designer. Não se pode mais pensar o mundo sem esses dois fatores, e isso representa um desafio enorme para quem ensina design.

O design perdeu algo com o avanço tecnológico?

A tecnologia não fez o design perder nada, apenas incorporou coisas. Às vezes, por certo período, pensa-se que algo morreu e que vai desaparecer. Mas depois ressurge com força total. Os casos das áreas de ilustração e tipografia são latentes. Nos anos 1990, pensamos que todos iriam poder se tornar designers e ilustrar algo se tivessem um computador. Hoje, sabemos que não é verdade. As mídias mudam de função e adquirem novos valores, raramente morrem.

Para você, o que é ser inovador hoje?

Escutei uma frase outro dia, não me lembro de quem, que dizia: inovação é a boa ideia que se paga. Eu concordei e concordo!

E o que fazer para ser um excelente designer? Você poderia dar umas dicas para quem quer investir na profissão?

Poxa, excelente pergunta. Eu acho que, como não fui um bom designer (e por isso resolvi escrever sobre o assunto em vez de fazer), fica difícil dar conselhos. Adoro a frase que diz que ser profissional é fazer aquilo que você ama todos os dias, mesmo nos dias em que você não está com vontade. Tem que trabalhar muito, e trabalhar com muito amor.

Seu último lançamento pela Taschen foi O Design de Produto na Era da Sustentabilidade. O livro pretende transmitir algum tipo de recado aos designers, como, por exemplo, de que é possível inovar pensando no meio ambiente? Este é um dos desafios do design atual?

Sustentabilidade não é uma opção mais, já é algo básico. O livro é sobre design de produto, em que a alteração de processos de produção é mais complexa. Nem fomos os primeiros a lançar algo sobre o assunto, mas acho que o nosso livro é o melhor. É uma nova forma de ver tudo o que fazemos que precisa ser incorporada ao dia a dia do designer.

Quais foram os maiores desafios para a confecção do livro e o que o leitor pode esperar dele?

O maior desafio é colocar algo dentro de todas as páginas, organizado de tal forma que isso tenha um valor enorme para o leitor, e que seja durável. O livro é uma mídia estática – isso nos impõe uma série de restrições, mas também nos obriga a olhar com muito mais critério para tudo o que fazemos.

Quais os seus próximos projetos como editor de design da Taschen?

Estamos trabalhando em livros de ilustração para o ano que vem que serão incríveis, e na versão de 20 anos do FUSE, do Neville Brody.

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