© Julio Le Parc

“Eu fiz quadros figurativos e de denúncia, mas vejo isso como algo pontual. Era para denunciar o golpe de estado no Chile com Pinochet ou para ajudar os nicaraguenses a se livrarem de seu ditador, etc. Tenho a capacidade de fazer graficamente uma reflexão e oferecer nesse momento uma ajuda de caráter político, humanitário, por meio das imagens. Mas o aspecto que mais me interessa é como desmontar os mecanismos, porque isto tem uma relevância maior. Ou seja, há um público que está acostumado a ir aos museus e a se submeter — como se submetem em todos os outros aspectos de suas vidas cotidianas — a um funcionamento geral: às regras do trânsito, à polícia, às leis. Então vão a um museu e também têm de se submeter, pois não é permitido falar alto, deve-se caminhar devagar, não se pode alterar a temperatura. Eles se submetem a obras que não podem apreciar nem avaliar, a não ser individualmente, mas suas opiniões não têm absolutamente nenhuma ressonância dentro do sistema.

Se uma pessoa entra em uma exposição como a minha em 2005 na Daros, por exemplo, para mim é suficiente se ela sair com uma sensação de ter sido parte de uma experiência, seja pelo movimento, as luzes, seja porque tem de participar de algumas obras, como os jogos, as pesquisas, ou porque a presença diante de uma obra vai provocando mudanças. Nenhuma maneira de ver as coisas é imposta e as interpretações de cada um podem ser diferentes.”

PARA LUMIÈRE VERTICALE VISUALISÉE – INSTALLATION OU OUTRA OBRA COM LUZ E MOVIMENTO

“O desenvolvimento do meu trabalho não ocorreu de modo que um dia eu dissesse: “Vou fazer coisas com o movimento”, e no dia seguinte: “Vou fazer coisas com a luz”. O movimento era a solução ideal para certos problemas que eu estava levantando, e via que a luz podia me oferecer uma solução e ao mesmo tempo me permitir continuar com a minha busca. Não era uma decisão. Eu nunca decidi jogar com a luz, mas ia experimentando e experimentando. As coisas iam me ocorrendo e eu as aperfeiçoava. O movimento me dava a possibilidade de explorar mais coisas, porém naquele momento também não pretendíamos fazer arte cinética. Eram buscas. Em um momento me interessava o movimento, em outro, a parte ótica, e em outra etapa a participação do espectador. Depois fomos para a rua procurar um novo espectador, sempre tentando transformar, dentro de nossos limites, a relação das pessoas com a criação contemporânea. Muitas coisas em nossos questionamentos estavam relacionadas com a vida contemporânea. Nunca usamos tecnologia. E quando apareceram os novos meios, como o raio laser ou grandes aparelhos eletrônicos, eu nunca os usei.”

PARA CONTINUEL-LUMIERE ECRAN EN PLASTIQUE

“Na Escuela de Bellas Artes, na Argentina, quando eu era um estudante muito jovem, existia o movimento da arte concreta. Ao mesmo tempo tivemos o Fontana, nosso professor na Escuela Preparatoria de Bellas Artes, com suas ideias sobre espacialismo. Houve também uma exposição de Vasarely no Museo de Bellas Artes, foi um impacto no sentido de que a arte geométrica que se fazia na Argentina era uma extensão do construtivismo. Já a exposição de Vasarely, com seus quadros pretos e brancos, era totalmente diferente, era algo que tinha possibilidades. Depois havíamos lido Mondrian e outros artistas, como Kandinsky, que encontraram continuidade em Vasarely, com uma presença muito simples e muito direta, que era diferente dos artistas que conhecíamos.

Quando eu vim com a bolsa a Paris, era muito mais fácil conseguir uma galeria com quadros informais, quadros tachistas, porque essa era a moda. Mas o que nos interessava era desenvolver esses elementos simples, pensados a partir dos textos de Mondrian. Junto com outras coisas que havíamos estudado da Bauhaus, fomos levados a desenvolver isso como uma busca em si mesma, mais do que como uma busca pessoal por uma imagem.”

*Trechos de entrevista a Julio le Parc por Hans-Michael Herzog, 2005

Compartilhar: