Catunda e Outros- Obras de Leda Catunda

© Angela Detanico e Rafael Laim

José Marton não é o colecionador típico. Seu amor pela arte iniciou cedo, mas só pensou em começar a colecionar quando lhe propuseram permutar uma obra de arte por seu trabalho de montagem e execução de exposições. A partir daí, o intenso contato profissional com a arte apurou seus olhos de tal forma que sua coleção parece ter uma curadoria, um diálogo muito condizente entre as peças.

A primeira obra de arte que tive…foi uma gravura da Renina Katz, Os Retirantes(1955).

E comprei esta obra porque…o tema dos retirantes me assusta e intriga.A última obra que comprei foi… uma caixa de espelhos do Mauricio Ianes. E estou negociando dois trabalhos do Marcelo Cidade.

Meus artistas prediletos são… muitos. Um predileto que não tenho na coleção é Cildo Meireles. Sonho ter sua obra Fontes (1992-2008).

É preciso ter muito dinheiro para colecionar?
– Certamente não, e eu sou a prova disto (risos). Me privo de muita coisa para poder ter as obras que quero, já deixei até de comprar um apartamento por isso e até hoje moro de aluguel (sic). Na verdade, acho até que não ter dinheiro apura o olhar. Quem tem pouco para investir precisa buscar outros caminhos, fora do que está na moda, e assim você começa a conhecer melhor os artistas jovens e tem a chance de se envolver. Aliás, eu acho muito interessante acompanhar os artistas comprando suas obras de três em três anos.
Por que?
Porque assim você segue seu crescimento. Com a experiência, o artista muda a maneira de olhar o próprio trabalho. A Marita Dardeaux, por exemplo, é uma artista que sigo. Fui a primeira pessoa a comprar uma obra sua e, de vez em quando, vou lá e compro outra; as obras que ela acha que nunca vai vender, eu compro (risos). Assim eu observo sua evolução, vejo que esta obra aqui faz uma leitura desta outra, mas a outra está mais bem resolvida… Você vai entendendo o conjunto da obra, cria-se até um relacionamento de afeto com ela. E digo de três em três anos, ou de quatro em quatro, porque acompanho muitos artistas em meu trabalho e acho que hoje este é o intervalo que faz sentido.
O que o leva a escolher uma peça?
– É o impacto visual. Eu busco peças que consigam me paralisar, que quando olho, não consigo dar um passo. São as sensações que se despertam, e nem sempre são só boas. No caso desta obra do Marcius Galan ( —–), meu primeiro impulso foi susto, tenho horror a lápides. Depois comecei a passar a mão e a obra foi me seduzindo. Aqui, é interessante esta contradição entre a repulsa e a atração. É um impacto, seja por questões políticas, eróticas, emocionais. É ele que conta.
Prefere pintura, escultura, instalações, vídeos…?
– Para mim, tudo é imagem, eu seleciono imagens, independentemente do formato. Por isso ultimamente os vídeos têm me pego, muitas imagens em vídeo têm surgido que me captam, e elas amarram minha coleção.
O que é arte para você?
– Como eu estou envolvido profissionalmente com o design, a moda e a arquitetura, as pessoas me perguntam o tempo todo se moda é arte, se arquitetura é arte… A moda não pode ser arte, porque a própria palavra diz: moda é passageira, a arte é eterna. Design não é arte porque cumpre uma função e arte não tem função. O mesmo para a arquitetura, que até é a que mais se aproxima da arte, mais aliada a ela, mas que também cumpre uma função. A arte é a única que é puramente expressão, sem objetivo.
Existe alguma obra preferida dentro da sua coleção?
– Não, são todas tão ligadas, eu seria leviano se apontasse uma. Mas existe uma que se destaca, não por ser preferida, mas pela estória: em 1987, eu vi pela primeira vez uma obra do (Anselm) Kiefer em uma Bienal e fiquei chocado. Era como se eu estivesse dentro daquela pintura, brigando com ela, brigando com a vida ou a favor da vida, naquela angústia que só o Kieffer sabe retratar. Aquela obra me atormentou até que disse para mim mesmo: “Um dia eu vou ter uma obra dele”. O amigo que estava comigo riu: “Você não tem nem dinheiro para andar de ônibus, vai ter artista da Bienal?”. Então, em 1997, Kieffer veio expor em São Paulo e esta coisa ressurgiu, e eu acabei comprando uma foto. Custou uma fortuna, e daí veio uma culpa tão grande que a obra ficou três anos embalada debaixo da cama. E só saiu de lá porque, um dia, um amigo me obrigou a olhar para ela e encarar esta culpa. Hoje vejo que foi só um desafio, uma obsessão. Na verdade, hoje eu nem compraria esta obra, mas não me arrependo e não vendo. Esta estória faz parte da coleção também.

Compartilhar: