© José Damasceno

Se é possível reconhecer uma “identidade” para a produção artística no Brasil dos anos 1990, especialmente no Rio de Janeiro, talvez essa seja a retomada do veio experimental depois da ênfase na pintura e no crescimento do mercado na década anterior. “Muitos artistas passaram a lidar de modo mais franco com o espaço, a buscar uma articulação maior entre a experiência poética e um modo singular de estar no mundo. Ao mesmo tempo em que há uma preocupação com a forma, com a surpresa do fato estético, há também, a partir disso, uma maneira, sempre peculiar e poética, de falar da realidade – seja ela a cidade, o país, o mundo ou a própria arte”, aponta Luiz Camillo Osorio, curador do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que nos últimos dois meses recebeu a exposição individual de um dos mais importantes nomes dessa geração, ao lado de Fernanda Gomes, Raul Mourão, Ernesto Neto, Marcos Chaves e Brígida Baltar: José Damasceno.

Depois de dez anos da sua última individual no MAM e três anos depois de montar sua grandiosa exposição Coordenadas y Apariciones, em 2008 – em que foi o primeiro artista a ocupar integralmente os espaços públicos do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri, como fachada, corredores, escadas, loja, jardim e biblioteca –, Damasceno esteve de volta ao museu carioca reunindo cerca de cinquenta obras pertencentes à coleção de Gilberto Chateaubriand em comodato com a instituição. O conjunto de desenhos, maquetes e esculturas permitiu ao público acompanhar parte da trajetória do pensamento e desenvolvimento do artista ao longo dos anos 1990, período em que se concentra a maior parte desses trabalhos.

“Os desenhos e as esculturas têm muito em comum: ora os desenhos lidam com a mancha, assumindo um gesto mais tenso, mais explosivo, ora com a linha e suas insinuações quase oníricas, lidando mais com o vazio do papel e a imaginação do espectador”, afirma Luiz Camillo Osorio. “Acima de tudo, ele é um escultor, alguém que cria lugares com a presença incisiva da forma plástica. Sua poética tem dois focos principais: tensão e deslocamento. A tensão é da ordem da materialidade; o deslocamento é da ordem simbólica. Um lida com os limites, o outro com o deslimite”, completa, apontando que é nessa dualidade, em peças que exploram os limites da forma escultórica, que se concentra a pesquisa do artista atualmente. Em Snooker (2001), por exemplo, uma mesa de sinuca é recoberta de lã laranja. Os fios, linhas definidas, juntos se tornam um grande emaranhado, uma massa laranja que parece sair das luminárias presas ao teto e acaba invadindo todo o espaço, quase encobrindo a mesa. Esse trabalho integrou a exposição Squatters, do Museu Serralves, Porto, Portugal, em 2001.

Uma operação muito próxima acontece em grande parte da sua produção recente, que se vale de um vocabulário escultórico, incorporando circunstâncias espaciais e trabalhando com elementos da ordem do projeto e escala, além de materiais como peças de xadrez, capachos, giz e massa de modelar. Complementar (2009), por exemplo – trabalho que deu nome à exposição realizada no Galpão Fortes Vilaça (SP), em 2009 –, é composta de 56 pastilhas brancas maciças confeccionadas pelo processo de usinagem e utilizando o material industrial polipropileno. “As pastilhas se distribuem pelo espaço, ocupando tanto a parede quanto o chão. A obra discute simultaneamente conceitos de desenho, escultura e instalação, pois se relaciona com todas estas categorias e as problematiza sendo todas e não se encaixando fixamente em nenhuma”, resume o texto que acompanhava a exposição, na qual o espectador podia tanto circundar a obra quanto entrar nela.

A peça mais antiga da mostra era uma litografia sem título, de 1987. Considerado quase um marco zero da produção de Damasceno, esse é seu primeiro trabalho, feito aos 18 anos, recém-chegado à oficina de gravura da EAV do Parque Laje. Já o trabalho mais recente que pôde ser visto foi O Elevador, de 2006, coincidentemente também uma gravura, feita a partir de uma fotografia. Ambos lidam com certo estranhamento. “A primeira é quase primitiva, um desenho bruto e ao mesmo tempo muito livre e espontâneo. A outra é estranha pelo que ela insinua, pelo silêncio, pela ausência, pelo mistério daquela bola perdida e da porta entreaberta. Entre os dois, há a conquista do simbólico, do que se mostra sem ser dito”, avalia o curador.

Assim, o Museu de Arte Moderna acabou se tornando nos últimos dois meses ponto de encontro da história da escultura moderna e contemporânea. Além da mostra de José Damasceno, o museu também abriga até 14 de agosto a mostra José Resende, com cinco esculturas em grande escala produzidas este ano pelo artista paulistano, especialmente para o Espaço Monumental do museu. As obras foram feitas em aço, com elementos de cobre, madeira, pedra, e chegam a cinco metros de altura. O MAM realizou ainda a exposição É Assim Mesmo!, com 59 importantes obras de artistas brasileiros e estrangeiros pertencentes à coleção do museu, provocando um diálogo entre a produção de artistas como Giacometti, Brancusi, Jean Arp, Max Bill, Victor Brecheret, Franz Weissmann, Sérgio Camargo e Waltercio Caldas.

“Resende e Damasceno são artistas de gerações distintas, sendo que um sabidamente foi relevante na formação do outro. Uma das coisas que o Damasceno mencionou na montagem foi uma exposição que viu ainda garoto do Resende na Galeria Subdistrito de São Paulo e que o marcou decisivamente. Entre eles, há um diálogo travado em nome do acontecimento escultórico, extraindo dos materiais potencialidades desconhecidas, dando-lhes uma gravidade e uma contundência emocionantes”, resume o curador.

Três perguntas para José Damasceno

Era para ser só uma conversa sobre a exposição, por e-mail. O resultado você só lê aqui, na íntegra. No dia 13 de agosto, o artista participa do programa Meridianos, realizado pela Casa Daros, no MAM-Rio. Damasceno e o artista chileno Gonzalo Díaz participam de uma conversa aberta ao público. Os interessados devem confirmar presença pelo email meridianos@casadaros.net.

A exposição apresentou cinquenta trabalhos, a maioria dos anos 1990. Como foi rever esses trabalhos, colocá-los lado a lado em uma exposição?

Surpreso, constato a chance de poder observar e perceber o que a reunião desses trabalhos talvez ofereça. Trata-se de uma experiência singular, bastante interessante para mim, por diversos motivos. De início, apresenta-se uma curiosa distância a propósito do tempo, por mais breve que seja. Esse conjunto, realizado em sua maioria no período entre 1992 e 2001, pertence a um momento primeiro decisivo de elaboração, em que, agora, posso reconhecer claramente toda uma série de inquietações, dúvidas, escolhas, decisões e apostas decididamente colocadas num sentido de reflexão e afirmação. Sobretudo, posso me dar conta da descoberta de um campo de possibilidades em jogo. Se, por uma hipótese, levasse em consideração esses trabalhos como dados iniciais no desenvolvimento de minhas investigações, encontraria sim um interesse vigente hoje daquelas propostas, pois vejo ressonâncias das questões que se colocaram no princípio que, de alguma forma, me acompanham e ainda me intrigam. Caminhos abertos, desdobramentos simultâneos e, digamos, uma constelação de interesses que convergem, uma sinergia orientada sobre a ideia de espaço como pergunta, ou melhor, sobre a natureza do espaço como problema.

A exposição reuniu desenhos, esculturas e maquetes. Trabalhar com esses três “caminhos” sempre fez parte da sua produção, do seu processo de trabalho? Como esses três “meios” se articulam?

Penso que o desenho seja um elemento primordial. Em amplos sentidos imbricado, entrelaçado, relacionado às artes visuais e talvez ainda a outras esferas do pensamento. O desenho – sua presença, enunciado, registro e recurso investigativo – é indispensável, para não dizer vital. Como escultor, entre inúmeros desafios, um problema se mostra permanente: a questão da imaginação e escala. Soma-se a isso uma série de circunstâncias e contingências que vão desde a minha breve passagem pela faculdade de arquitetura até o fato de dispor inicialmente de um espaço de trabalho consideravelmente reduzido no pequeno apartamento onde vivia em Copacabana. Minhas leituras e pesquisas no âmbito da literatura e da filosofia também contribuíram para que pudesse desenvolver então uma dinâmica, sempre buscando pensar, articular e relacionar o desenho, o projeto, a maquete e a escultura, que se organizavam e logo se alternavam definindo um jogo de permutas e relações constantes entre si, cambiantes, vibrantes, assimétricas e muitas vezes inesperadas. Esses fatores todos sempre orientados em um sentido de procurar manifestar o mais plenamente possível algo que por algum motivo me chamava a atenção. Procurando afirmar, revelar, descobrir a imaginação como campo de atuação, dispondo a todo custo de todos os meios que pudessem me aproximar do problema em questão. Buscando sempre de alguma forma simular, modelizar, inventar, enfim. Curiosamente percebo hoje como todo esse movimento se instalou e logo se desenvolveu, permanecendo uma espécie de matriz fundamental, recursos e ferramentas imprescindíveis.

Integrou a exposição a maquete de Método para Arranque e Deslocamento (1992), trabalho apresentado em sua primeira exposição individual, na galeria do Espaço Cultural Sérgio Porto, em 1993. Como foi aquele momento? Suas preocupações como artista ainda são as mesmas?

Este trabalho possui um sentido extremamente importante ao longo de minha trajetória. Uma síntese ao mesmo tempo rica e desafiadora de elementos em jogo para mim. Problemas relevantes foram colocados, considero, a propósito de inúmeros fatores, do objeto e sua presença, do projeto, processo e execução, de certa experiência do tempo como um amálgama em que percebemos coisas que simultaneamente já se passaram, ainda acontecem e inadvertidamente se mostram como potência. Fatos, situações que ocorrem sem sabermos exatamente o que são ou por que se movem. Sobretudo em se tratando das relações imaginárias presentes no espaço. Esse trabalho me possibilitou uma grande abertura quanto aos meus próprios interesses, que me parece se ampliaram em várias direções. Esse trabalho repercute de uma forma para mim ainda surpreendente como um importante avanço a respeito de tudo aquilo que naquele momento constituía meu repertório.

Naquele mesmo ano de 1992, realizei uma exposição com o artista Raul Mourão no subsolo de uma escola pública no então Atelier Vila Isabel. Construí uma peça com o mesmo material que em seguida seria usado no projeto da galeria Sérgio Porto, o carpete. Dispus ao longo do espaço um rolo de carpete de uns 20 metros aproximadamente e sobre ele realizei cortes obtendo três formas, três triângulos que, em seguida, novamente enrolados, criavam volumes elípticos dispostos no espaço, e ao lado deles no chão o desenho do triângulo original pontilhado com bastões de giz. Essa experiência inicial me permitiu intuir e projetar o Método para Arranque e Deslocamento, proposição para a galeria Sérgio Porto que aconteceria um ano depois.

A maquete do projeto foi realizada com todo o cuidado e atenção em relação às dimensões da galeria (essa maquete possui a mesma planta da época posteriormente alterada e desfavorecida). A proposta consistia na utilização de apenas um material, o carpete, que seria instalado em toda a extensão do piso da galeria, como é comumente utilizado. Sobre ele, como aconteceu em Vila Isabel, determinados cortes seriam realizados sem, contudo, separar definitivamente as formas obtidas que permaneceriam ainda contínuas à superfície do carpete pelas suas extremidades. O problema mais difícil que permaneceu um bom tempo me perturbando seria a correspondência entre o projeto e o espaço real. A maquete repercutia no espaço da galeria com uma proporção que não sabia de forma alguma como conseguir, uma vez que, na escala reduzida do projeto, havia utilizado o carpete mesmo, diretamente, e precisaria assim, talvez, aplicar várias camadas no espaço real para se equiparar à maquete… Felizmente, após muito hesitar e refletir sem saber o que fazer, decidi finalmente utilizar apenas uma camada de carpete, como em qualquer lugar. O resultado foi que, somado àquele repertório geométrico e abstrato que dispunha até então, lancei mão de algo que de alguma maneira não pertencia tão somente a esse universo e trazia muito mais elementos consigo do que supunha, com uma considerável carga simbólica. Aquela superfície de carpete trazia consigo muito mais. O corte e o deslocamento de que fala o título, somados às misteriosas qualidades do espaço, descrevem uma operação sobre algo que para mim permanece ainda denso e desconhecido até hoje.

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