Suar a Camisa, 2014 (Vista da Instalação One to One, 2019). Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Nathan Keay, © MCA Chicago.

DASARTES 84 /

Jonathas de Andrade

Em sua primeira grande individual nos EUA, o artista brasileiro JONATHAN DE ANDRADE filtra questões sociais tipicamente brasileiras para passar uma mensagem universal por um mundo mais focado no coletivo

Apropriando-se de técnicas de disciplinas como etnografia, antropologia, sociologia e outras ciências sociais, Andrade aborda temas como interseção de raça, classe, trabalho e educação – assuntos que estão no centro dos atuais debates políticos no Brasil. Durante anos, vem utilizando a escala de espaços da vida real para explorar as dinâmicas de poder e intimidade que permeiam tanto os lugares físicos quanto as relações pessoais, seja na cidade do Recife ou no ambiente doméstico do intelectual Gilberto Freyre. Andrade reconhece esses locais como carregados de uma história ativa e memória onde forças sociais, políticas e econômicas estão em jogo. Por meio de seu trabalho, Andrade nos pede para escutar para que possamos aprender a conviver uns com os outros de maneira mais solidária e coletiva.

Ele também tende a adotar uma abordagem subversiva aos construtos normativos da sexualidade, com o objetivo de desestabilizar as convenções da masculinidade. Há um olhar sexual palpável na maior parte de seu corpo de trabalho, dos corpos esculpidos de pele escura de uma campanha de mídia fictícia para um museu aos corpos ausentes evocados por uma coleção de uniformes suados. Essa camada erótica – ou “temperatura”, como o artista descreve – está presente na maior parte de sua produção artística, mas ele nunca aborda a sexualidade tão diretamente quanto aborda outros temas, como raça e classe. Seu comentário sobre os tabus e convenções sexuais é ainda mais comovente como resultado dessa sensualidade muda.

Cartaz para o Museu do
Homem do Nordeste.

Enquanto as imagens que ele produz através de suas fotografias, vídeos, esculturas e instalações às vezes podem parecer controversas e provocantes à luz dos assuntos que eles descrevem, Andrade está ciente do que seu trabalho pode despertar no espectador. Pode fazer você se sentir desconfortável, mas também incrivelmente em casa. Pode-se dizer que seu trabalho procura esse momento de contradição.

“A voz não é mais sobre a articulação de palavras, mas sobre a expressão”

Em sua obra, testemunhamos como a voz não é mais sobre a articulação de palavras, mas sobre a expressão. O corpo não é apenas uma ferramenta dessexualizada para produzir trabalho, mas também para lazer e prazer. A casa não é simplesmente uma barreira para nos proteger do ambiente natural e construído, mas também um espaço íntimo onde os relacionamentos são desenvolvidos e fomentados. A terra não está lá apenas para ser trabalhada e explorada, mas também para ser cuidada e preservada.

O Levante, 2012-2014

Criticamente informado pelo lugar, Andrade frequentemente complica a suposição básica de que a terra urbana é um sinal de progresso moderno e o campo rural é um local de produção. Ele questiona ativamente quem se beneficia desse desenvolvimento e exploração, e a que custo. Vendo através dessa lente, ele permite que o espectador navegue por esses espaços tanto de longe quanto pela experiência pessoal dos temas retratados em sua obra – um jovem afluente que viveu intensamente no Recife durante os anos da ditadura, como em Ressaca Tropical; um carroceiro no centro da cidade, como em O Levante; ou um operário de fábrica que produz as clássicas balas Nego Bom, como em 40 nego bom é um real. Andrade revela um território que não é mais uma paisagem tropical idílica, mas um campo colonizado explorado por corpos negros e marrons.

Manual para 2 em 1, 2015

O ambiente doméstico onde identidades e relacionamentos são desenvolvidos é outro ponto crucial para Andrade. É nesses espaços íntimos e pessoais onde os costumes coloniais e patriarcais continuam se reproduzindo e replicando, mas é também onde eles podem ser desafiados. A casa é um espaço para proteção, carinho, descanso e prazer, mas também pode ser um ambiente privado para exploração clandestina; é um espaço de isolamento e contemplação, mas também de perpetuação e desempenho de um sistema colonial de raça e classe.

Still de O Peixe, 2016

A voz humana fornece um sistema de comunicação que posiciona nossos corpos, necessidades e desejos publicamente. No entanto, nem todos nós temos voz e nem todas as nossas vozes são audíveis. Alguns podem falar, mas a fala por si só não garante que alguém escute. Outros podem não falar, mas podem chegar a muitos. Andrade entende a voz como um espaço intangível que permite conexão e aprendizagem, e seu interesse contínuo em questões de analfabetismo e grupos marginalizados chama a atenção para as vozes daqueles que não podem ser ouvidos. Ele aproxima as pessoas umas das outras por meio de distintos processos de aprendizagem na produção de uma peça, e a voz audível (ou inaudível) é tanto o espaço quanto o veículo pelo qual esse processo é facilitado. Influenciado pelo trabalho do educador e filósofo paulistano Paulo Freire, a abordagem experimental de educação de Andrade pode ser entendida como um apelo à expansão do foco acadêmico dos centros urbanos para o campo, para expressar as deficiências de um sistema que raramente atinge quem mais precisa.

Still de Jogos dirigidos, 2019

As consequências cruas dessas hierarquias urbanas são visíveis em Jogos dirigidos, principal peça de Andrade feita especialmente para sua exposição no Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Este novo vídeo é ambientado no sertão de Várzea Queimada, no Estado do Piauí, também no Nordeste. Essa pequena cidade empobrecida, fora do mapa, com cerca de novecentos habitantes – muitos dos quais são relacionados pelo sangue – sustenta-se principalmente através da produção de bens artesanais e de uma economia interna. Andrade escolheu trabalhar com a ampla população surda da aldeia e centralizou o vídeo em torno de novas formas de troca e comunicação, efeitos que só foram possíveis ​devido à confiança que ele ganhou dessa comunidade após várias visitas. Sua câmera captura pessoas interagindo através de jogos direcionados e destaca as poderosas expressões que eles trocam. Aqui, Andrade se afasta da linguagem da voz humana para a linguagem das emoções. O artista substitui a ausência da voz pela presença do ser. Embora a voz do elenco em seu novo filme não possa ser ouvida pelo espectador, a alegria e a energia de seus personagens são contagiantes. Andrade, de alguma forma, desmonta formas de interação impostas, demonstrando com cuidado e delicadeza a essência da comunicação. Em Jogos dirigidos, a natureza específica da voz inaudível de um grupo naquela pequena cidade do Nordeste encontra uma maneira de compartilhar o que parece ser uma linguagem universal.

Jonathas de Andrade: One to One • Museu de Arte Contemporânea de Chicago
MCA • 13/4 a 25/8/2019

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