Jonathas de Andrade – À revelia do asfalto

© Josivan Rodrigues

O Recife é uma cidade onde os resquícios de um passado rural ainda perduram. Nas relações sociais, nos valores, nas crenças, nos costumes e, mesmo nas paisagens, a história de outros tempos mantém-se quase como um acinte ao desejo de modernidade presente aqui — e em tantos outros centros. No cenário urbano, as carroças surgem como um desses elementos “anacrônicos”, digamos assim. Circulam todos os dias pela cidade, mas se tornaram quase invisíveis aos olhos acostumados. No trânsito, geralmente são percebidas quando incomodam — e existe até uma lei em curso para tirá-las das ruas. Em tese, já são proibidas. Atento à presença dos carroceiros, que andam com seus animais à revelia da vida no asfalto, o artista Jonathas de Andrade resolveu pôr em prática uma ideia que vinha maturando: realizar a 1.ª Corrida de Carroças do Centro do Recife.

Depois de três meses de negociações com a prefeitura e de panfletos para mobilizar os participantes, o planejado aconteceu. No dia 5 de agosto deste ano, quando ele temia que ninguém aparecesse, cerca de 40 carroças atracaram no Recife Antigo, local da concentração do evento. Por razões de organização, pouco mais de dez delas puderam participar da corrida. E então saíram desembestadas em cinco tiros de dois e um tiro de três pelas ruas do Centro, fechadas previamente pela CTTU (Companhia de Trânsito e Transportes). Enquanto isso, Jonathas filmava o “acontecimento”, parte do trabalho mais recente do jovem artista, que participou da Bienal de São Paulo em 2010, com a série em cartazes Educação para Adultos.

A ação se desdobra agora na realização do filme O Levante, feito a partir das imagens do evento, e na construção de uma “instalação-documentação”, com cartazes, panfletos e fotos da corrida. Atualmente em fase de edição, o trabalho de audiovisual foi o ponto de partida do projeto, comissionado pela coleção austríaca Thyssen-Bornemisza Art Contemporary. Já a proposta da “instalação-documentação” veio depois, e a ideia é inseri-la num contexto expositivo, de preferência inicialmente no Recife.

Para o artista, o acontecimento possui diferentes perspectivas. Se para ele foi encarado, desde o princípio, como um trabalho de arte, para os carroceiros foi vivido como um momento festivo. Ambos, contudo, se encontraram pelo entusiasmo da situação. “O filme pouco importava para os carroceiros, e o projeto virou pretexto de gasto de vida e tomada da cidade num golpe e galope. Riscou-se o chão — a pata, a ferradura, a bosta. Incorporaram-se personagens.

Apagou-se qualquer protagonismo da equipe e dissolveram-se em massa. Tomou a frente o cavaleiro, o aboiador, a carroça em disparada. Forças vieram à tona em retomada de rédeas, ritmo, embalo — êxtase e desobediência. O barulho das patas dos cavalos sobre o asfalto multiplicava-se, ecoando nos paredões dos prédios e espalhando pela cidade. O som silenciava e demarcava o terreiro”, descreveu Jonathas, em texto sobre seu trabalho, publicado por ele na internet (http://cargocollective.com/jonathasdeandrade/o-levante). Após a corrida, as carroças saíram em cortejo pelas ruas do Recife, como se pedissem passagem; como se quisessem mostrar que, sim, ainda existem. A recompensa dos ganhadores foram bodes, recebidos de prêmio. Não será surpresa se o trabalho gerar ainda algumas polêmicas, como é de praxe nas obras de arte nas quais animais estão envolvidos. O próprio Programa para Redução Gradativa do Número de Veículos de Tração Animal (VTAs), em que o projeto de lei proibitivo das carroças se insere, trata da questão, embora saibamos que os motivos vão além.

Na perspectiva artística, contudo, o trabalho pode gerar muitas outras reflexões, sobretudo em relação ao projeto de urbanidade que o Recife almeja (e caminha para) ter. A ocupação dos espaços, para quem é a cidade e a camuflagem de ruralidade, em nome de um desenvolvimentismo, são talvez alguns pontos que o “acontecimento” suscita. Nesse sentido, ele é bastante político, mesmo que para Jonathas de Andrade não haja uma intenção declarada, no sentido do protesto e da defesa de uma classe social, como diz. Mas esse “espírito” está presente até no simples motivo de que a arte, instituída como tal, serve aqui para romper determinadas ilegalidades, legitimando situações a priori “desobedientes”, como é o caso da corrida das carroças. “Adoro que a arte seja a interseção possível que faz o improvável poderoso acontecer”, justifica Jonathas, que, diferente de artistas como Lourival Cuquinha, nunca tinha testado antes as fronteiras do constitucional. Aguardamos, pois, O Levante.

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