Sou ligada a palavras, a entender significados existentes e descobrir novos sentidos internos/íntimos. A palavra joia nos dicionários me intriga por ser compreendida de imediato na direta relação a metais nobres e pedras preciosas. Pode ser também, mas acato como eixo, no entanto, a descrição de raro, belo e de grande valor. Tornei-me joalheira ainda criança e há anos atuo nessa profissão para construir dentro de mim novos sentidos a essa palavra, que não sejam focados ao material, mas ao ofício transformador do joalheiro sobre o material.

O símbolo ancestral que a joia exerce é enorme, tenho uma pulseira russa que herdei da minha bisavó, que por sua vez herdou de sua mãe e, de geração em geração, simboliza uma passagem; ganhei quando menstruei.

Será pela longa duração desses metais, pedras e pérolas que eles são os primeiros itens na descrição da palavra pelos dicionários?

As joias da corte, assim como as indígenas e todas essas trocas carregadas de furor, mobilizam uma energia em mim, como se eu pudesse entender isso como obras de arte corporais, como espaços de expressão no corpo. Projetar para orelhas, braços, pescoços, dorsos, dedos, mãos é um tanto delirante e obviamente sensorial.

No voo filosófico da palavra joia, levanto a percepção de que menor tamanho para maior valor é uma importante discussão para o século que estamos atravessando, onde temos cada vez menos recursos naturais e mais resíduos de consumo.

Certa vez, na busca de sentidos para a palavra joia, mergulhei a pesquisar o valor simbólico delas, nas alianças, colares religiosos como terços católicos, guias de candomblé, japamalas, rosários, mas o ponto chave onde berrei de ter achado um sentido mais eficaz, um fio na meada que me fez assumir com todas as forças que precisava ser joalheira, que tinha essa missão, foi quando li uma narrativa da nação indígena Ticuna, que dizia: os índios se enfeitam porque eles acreditam que as pessoas são o enfeite do mundo.

Nessa frase encaixou dentro de mim que as pessoas são joias, saí dessa leitura indo para uma maternidade em busca de fotografar um cordão umbilical. Decidida a fazer um colar de gente, fotografei um bando de pessoas na rua, todas de corpo inteiro, todas mostrando o lugar de onde um dia saiu o primeiro cordão, o umbigo. Fiz uma videoinstalação e, a partir disso, não parei de fazer instalações e esculturas. Percebi ali que o poder de transformação é a joia de ser humano. Fiz essa frase e até hoje a imprimo em todas as embalagens das joias que produzo. Joias então podem ser maquetes de esculturas ou expressão de alguns poemas ou pensamentos que não cabem no papel, que precisam de novos suportes ou corpos.

Enquanto falo de tirar meus poemas do papel e expressá-los em joias com outros materiais tem alguém que há muito faz joias de papel. É legítimo que papel, poesia e joia se misturem mesmo! São suportes e expressões que se salvam na mistura.

A joalheira Nel Linssen é especialista em fazer joias de papel, geométricas e, ao mesmo tempo, totalmente entregues e escorridas como formas da natureza. Ela constrói e cria tramas que possibilitam o papel virar joia e, pelo suporte da jóia, ela desenvolve estruturas que são universais e cheias de soluções arquitetônicas e esculturais. Há bracelete que mistura papel e plástico e fica molinho, leve, flexível e com encaixe do próprio usuário (que se torna um pouco autor) fica rígido. Sinto vontade de fazer um voo real de avião, encontrar-me com ela na Holanda e voltar, porque seu fazer amplia e dilata o sentido da joalheria atual, esse sentido que traz novas noções de valores por esses objetos/obras corporais carregados de nobreza da transformação do material!

Entrei no campo, nas flores, nas estruturas das árvores e trouxe o Roberto Burle Marx que tem seu paisagismo no Aterro do Flamengo, pintou, cantou ópera, teve diversas profissões e fez mais de duas mil joias fortes como trechos de seus paisagismos, dessa vez expostos nos suportes corporais das musas de seu tempo, eterno infinito que nos ficam, e que hoje é representado por uma vasta coleção atual na H.Stern, suas joias carregadas da simbologia de seu trabalho como artista múltiplo e inventor são esculturas corporais de ouro com cores fortes vindas das gemas que seu irmão Haroldo, gemólogo, lhe orientava.

Joia é para emocionar. Numa catarse da joalheria mundial, páginas do Facebook, assim como todos os tipos de mídia social, trouxeram a notícia das joias feitas de fios de cabelo da jovem Kerry Howley, que diz trabalhar sobre o fio tênue, entre atração e aversão. Quando vi suas joias, fiquei tocada por tamanha delicadeza composta em arquétipos conhecidos como golas rendadas de princesas, aos poucos se entende o material. Essa artista faz também instalações e está mesmo interessada em provocar, para que a gente caia de amores por aquilo que poderíamos ter nojo: cabelos do ralo. Howley é a síntese da provocação de sentidos que essa palavra e seus ecos atuais podem reverberar: JOIA JOIA JOIAAAAAAAAAAAAAAAA, ainda tão infinito em significar.

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