© divulgação

John Cage, certa vez, disse que tudo aquilo que fazemos parte de um convite, seja de alguma pessoa, seja de nós mesmos. Assim aconteceu com o centenário de seu nascimento. O convite me foi feito, ao final de 2011, por meio de um cartão postal com uma imagem de Cage em ambiente de aniversário infantil e os dizeres “you’re invited”.

Entrei imediatamente em contato com a organização que me enviou o postal e soube, através de Laura Kuhn, diretora do The John Cage Trust, que o convite se dirigia às pessoas ligadas a Cage e as convidava a promover uma homenagem ao compositor no ano do centenário de seu nascimento: 2012.

Foi a minha vez de fazer um convite. Procurei Luiz Camillo Osório, crítico de arte e curador do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio, e lhe propus organizar uma homenagem a John Cage no museu.

Por que homenagear Cage, um músico, em um museu de arte? Vários motivos foram aflorando. Um deles, a parceria que ele manteve, ao longo da carreira, com artistas plásticos, como Robert Rauschenberg e Jaspers Johns e o grupo Fluxus. Outro, a acolhida dos museus e galerias à proposta experimental de Cage no início de sua vida artística. Seu primeiro concerto em Nova York – uma série de peças para percussão – realizou-se no Museu de Arte Moderna, em fevereiro de 1943. Homenagear John Cage no MAM significaria reconduzir o artista a seus espaços de origem.

As questões se sucediam. O que expor? Pareceu-nos evidente que os elementos visuais e gráficos de sua produção se adequavam ao perfil de um museu. Diante da impossibilidade de exibir as aquarelas de Cage, devido ao alto custo dessa iniciativa, ocorreu-me trazer a público um conjunto de partituras gráficas, que fazem parte de minha coleção particular, através das quais se pode acompanhar o processo do compositor em direção ao uso da indeterminação na música. À medida que define sua poética em torno das noções de silêncio e do acaso, Cage vai pesquisando novas formas de notação musical, capazes de traduzir a extensa gama de materiais sonoros com os quais passa a lidar, incluindo os ruídos do meio ambiente. Na exposição, podem-se ver partituras compostas de linhas e pontos, de transparências, de números, de linhas em preto e branco ou coloridas; desenhos sobrepostos a gráficos ou simplesmente de um texto que define os materiais e o modo de produção dos sons. Elas foram selecionadas de maneira a oferecer uma amostra de diferentes formas de notação musical expandida criadas por Cage. Uma delas – Aria (1958) – foi adquirida pelo MAM por iniciativa de Luiz Camillo Osório, co-curador da exposição em homenagem a Cage, com a intenção de disponibilizá-la ao manuseio do público. Ela responde pelo lado interativo da exposição, tão caro ao compositor.

Camillo Osório propôs então um diálogo com as obras do acervo do MAM que, direta ou indiretamente, lidam com conceitos da poética cageana: as noções de acaso, silêncio, a repetição e a apropriação. Fez um levantamento minucioso desse acervo e de lá foram selecionadas as obras dos artistas que integram a exposição: Pollock, Albers, Rauschenberg, Vostell, Beuys, Mira Schendel e os brasileiros Guilherme Vaz e Paulo Vivacqua.

A essa altura, já estava clara a ideia de que o elemento mais importante para compreender a relação entre a obra musical de Cage e as artes visuais eram os processos de criação que desenvolveu a partir da música e se deslocaram de sua poética para uma série de produções contemporâneas, mediante os mais variados meios de expressão. Essa transversalidade das noções desenvolvidas por Cage em sua produção artística dá a dimensão de sua importância para a arte contemporânea. Ela está presente não só nas obras do acervo selecionadas para a exposição, mas na própria produção de Cage, que se estendeu do campo da música para a literatura, as artes visuais e a filosofia.

Para dar conta dessa transversalidade na obra de John Cage são exibidos na exposição uma peça radiofônica e um vídeo. A primeira nasce da relação de Cage com a literatura. Roaratorio: an Irish Circus on Finnegans Wake, composta em 1979, a partir da segunda leitura que o músico fez do livro de James Joyce, é um circus on, uma forma concebida por Cage para transformar um livro em música. Aos mesósticos que criou com o nome de James Joyce se mesclam gravações de sons citados na obra ou captados nos lugares nela mencionados e na música irlandesa. A peça foi contemplada com o prêmio Karl-Sczuka de composição, no ano de sua criação e difusão, por contribuir com a ampliação das possibilidades de uso do meio radiofônico, fugindo ao padrão unidimensional da mensagem radiofônica convencional.

O vídeo documenta um projeto de colaboração entre arte e tecnologia com a sigla irônica EAT (Experiments in Art and Technology), realizado por Cage em 1966 junto com um grupo de artistas. Pode-se identificar na obra de Cage certa antropofagia, como sugere o título do projeto, se considerar que ele propôs captar – “engolir” – sons propagados no ar em vários pontos da cidade no momento da performance e processá-los – “digeri-los” – eletronicamente ao vivo. Experiência pioneira em arte e tecnologia, Variations VII se distingue da chamada música eletroacústica pelo uso de processos aleatórios de captação e processamento de sons e ruídos ao vivo, em vez de produzir sons deliberadamente através de meios eletrônicos. Compositor e colaboradores atuam mais como mediadores, do que como atores numa rede vasta e complexa de circuitos eletrônicos.

Faltava marcar a transversalidade do próprio museu, afirmando seu caráter plural, tratando-o não só como um espaço puramente visual, mas também como um ambiente acolhedor de uma experiência sonora. Assim surgiu a ideia de realizar uma performance com obras de John Cage e criações dos músicos brasileiros que participam da exposição. Um novo convite foi feito. Desta vez a mim, ao soprano Gabriela Geluda, a Guilherme Vaz e Paulo Vivacqua. A performance Experiência-Cage traz para a exposição um momento de criação experimental em música, na linha de Cage.

Termino com um convite, fechando o círculo que abre o artigo. O convite foi feito por Cage durante sua segunda visita ao Brasil, ao ser entrevistado por mim e mencionar os projetos desenvolvidos pelo arquiteto Buckminster Fuller para nosso país. Os projetos haviam sido aprovados. segundo Cage. No entanto, uma mudança de governo fez com que fossem deixados de lado. Fica aqui o convite de Cage para que leiamos esses projetos e tentemos viabilizá-los. Não importa de onde partirmos, como expressa sua máxima begin anywhere.

 

 

Compartilhar: