© Paulo de Matos Raimundo

Como surgiu seu interesse pela arte?

Nos, como seres humanos, temos a responsabilidade de contribuir para a preservação da nossa cultura. Aqui no Brasil há grandes coleções, como a de um colecionador que conheci em São Paulo que tem 20mil peças de todo o tipo de arte: da Grécia, romana, africana. Foram compradas uma a uma. Eu compro diferente, tento comprar coleções inteiras. Valorizo o trabalho de se somar peças que, juntas, contém uma historia. Quando peças de um período são vendidas uma para cada lado e vão parar em cima do armário, em uma caixinha na sala, as vezes perdem seu significado, perdem a capacidade de contar uma historia de uma época. Por isto me esforço para manter juntas as coleções que tenho. Tenho africana, egípcia, inca. Tenho a única coleção no mundo de publicidade. Hoje em dia, é tudo eletrônico, mas nos anos 1930, era tudo feito a mão, uma arte. Tenho quase mil destes desenhos únicos. Tenho uma paixão particular pelos azulejos – não só portugueses, mas também italianos, franceses, árabes… – e pela art deco. Precisamos preservar a historia porque é com ela que vamos avançar:não há nada de novo a se descobrir, apenas adaptações do que já existe.

Não há nada a se descobrir?

Penso que não. Imagine que há 3 mil anos os maias já sabiam que no dia 25 de dezembro de 2012 os planetas estariam alinhados. Cada um, individualmente, pode ter coisas a descobrir, claro. Eu mesmo gosto muito de falar com pessoas que sabem mais que eu. Estava com um rabino de 90 anos na África do Sul. Me aproximei dele porque acreditava que, depois de 60 anos lendo o Torah, ele deveria saber algo que não sabia, poderia me dar uma luz. Ele me disse: “olha, meu fiho, é verdade que eu estudei o Torah 60 anos, mas acredito que, quando comecei, sabia mais do que sei agora.” Aprendemos sempre coisas novas, mas as vezes, acumulando conhecimento, nos esquecemos da realidade; aprendemos e nos confundimos.

 

Qual é seu relacionamento com o Brasil?

Primeiro, nós portugueses temos uma relação muito intima com o Brasil, já que Portugal fez fortuna aqui e a Brasil ajudou a monarquia portuguesa. Nenhum dos dois países estaria como esta hoje se não houvesse esta relação. Nos anos 1950, dois de meus irmãos se instalaram aqui e nos últimos anos comecei a desejar estar mais presente no Brasil, não por via financeira ou de negócios, mas por via cultural. E aí Romaric (Buel, curador e ex-adido cultural da França no Brasil) falou da coleção de arte popular brasileira do Professor Paulo Pardal, que ele levou mais de 40 anos montando e que seria vendida aos pedaços, e eu e Roberto (Vilela, sócio de Berardo em empreendimentos comerciais no Brasil) começamos a pensar em um projeto para expor esta coleção. Se havia alguma hesitação, terminou quando visitei a Barra de São João (RJ). Fiquei empolgado com a cidade, não sei se pelos resquícios da arquitetura portuguesa ou se pelo clima, pelas historias dos intelectuais que lá se reuniam, como Casimiro de Abreu, Francisco da Tabibuia e outros que parecem ter deixado lá uma energia positiva.

Mas a compra da coleção Pardal não foi sua primeira iniciativa cultural por aqui.

Não, antes disto trouxe para cá parte da minha coleção de surrealismo para uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2001. Tivemos cerca de 750 mil visitantes em 3 meses.

E como surgem estas iniciativas?

Acredito muito no destino. Minha amizade com Roberto é um exemplo: o conheci por via de negócios e descobri nele um interesse que também tenho, de levar cultura a pessoas como nós, de famílias humildes, a quem queremos dar a oportunidade de ver arte. Como o Roberto tem uma logística de distribuição nas zonas mais carentes e distantes do Brasil, vamos planejar barcos-museu, com a ajuda dos governos destes estados – pois claro, fazemos isto não para ganhar dinheiro, mas também não quero ter que pagar por tudo. Aliás, mesmo em Portugal, eu poderia ter construído meu museu e tê-lo chamado meu museu, mas acho isto errado. Não quero que seja meu museu, e sim o nosso museu. Se o Brasil quiser passar de um pais top 100 para um pais top 7, a única maneira é dar prioridade à cultura. Para sermos um país mais saudável, os políticos tem que agir pela cultura.

Como funcionará este projeto?

Além dos barcos para as regiões fluviais, usaremos carretas adaptadas para serem museus itinerantes, com monitores que orientarão os visitantes, como nos grandes museus. Também vamos distribuir panfletos e material didático e de repente será possível identificar pessoas mais interessadas ou revelar talentos artísticos, a quem podemos dar bolsas de estudos. Mas vamos com calma, primeiro começamos e depois vemos o que mais podemos tirar dali. A idéia também é que, vendo os museus itinerantes em funcionamento, outros pensem em fazer o mesmo.

Serão utilizadas réplicas?

Sim, estas pessoas nunca viram nada em arte, então julgamos mais interessante começar com peças básicas da historia da arte, e isto só é viável com cópias.

A arte que será mostrada está muito distante da realidade destas populações do Norte. Você acha que elas conseguirão captar algo?

Compreendo o que quer dizer, mas esta é a idéia. Se é para mostrar mandioca, não conte comigo.

A intenção é ajudar famílias carentes?

Não exatamente. Está na moda entre os políticos dar subsídio de alimentação, de isto, de aquilo, mas é preciso ter cuidado. Já dizia o velho ditado que a solução não é dar o peixe, e sim dar a vara e ensinar a pescar. É isto que tento transmitir. Para serem reeleitos, os políticos preferem dar o peixe e dizem que isto é democracia. Nada contra a democracia, é o melhor sistema que existe ate hoje, mas esta democracia deve ser revista, pois os políticos dão subsídios e fazem promessas vazias para comprar os votos. Acredito que este sistema vai se deteriorar até que se torne insustentável.

Voce começou a colecionar ainda na africa?

Sim, quando eu era criança, comecei a colecionar selos postais, caixas de fósforos e cartões postais de navios que iam à Madeira. Nesta altura já havia muito turistas em Madeira e também a Madeira Wine, onde meu pai trabalhava e eu tambem queria trabalhar, e entrei em contato com esta correspondência estrangeira. Achava muito interessante pensar que “isto vem da Austrália, isto vem da Noruega,… Ainda sou assim, não sei se é colecionar, mas agregar.

Com a arte tambem foi assim?

Fui a uma loja comprar mobília para nossa nova casa e comprei também um quadro para colocar em cima da lareira e fiquei muito decepcionado quando descobri que não se tratava do original, mas de uma reprodução. Me senti enganado. Quando comentei isto com minha mulher, ela respondeu: “Se quiser o original, tens que comprar do Louvre”. Pensei comigo: quem é este tal de Louvre? (risos). O quadro era a Monalisa. Para se ver que ninguém nasce sabendo, ainda hoje estou aprendendo coisas. Eu nunca fui à Universidade, saí da escola com 13 anos, mas faço questão de ajudar outros a estudarem, a dar oportunidade àqueles que tem jeito para o estudo, mas este é outro programa.

Quando realmente começou sua coleção de arte?

Quando tinha mais dinheiro, ainda na África do Sul, foi que comecei a freqüentar museus e exposições e então escolhi uma pessoa para ajudar a montar uma coleção. E assim funcionam minhas coleções: tenho uma pessoa responsável pela art-deco, uma responsável pela arte africana, uma pela arte modernista – não tenho tempo de cuidar de tudo. Quando fiz minha primeira fundação cultural na Madeira, entendi que precisava escolher uma pessoa para montar uma coleção de arte européia ou mundial. Assim, cada obra foi analisada pensando também na abrangência: tinha que ter minimalismo, acadêmico, expressionismo, e assim por diante. Foi dito muitas vezes que a única coleção no mundo em que se pode ver todos os movimentos artísticos é a nossa coleção. E já foi publicado na Inglaterra que nossa coleção é maior que a do Guggenheim.

Talvez seja mais importante porque foi construida com um objetivo claro de se tornar um panorama de toda a arte, sem influencia de gosto?

Claro, não há nada do meu gosto lá. Ao contrario, olho para algumas obras e me digo: “Você acha que eu vou comprar esta porcaria?” (risos). Claro que fui aprendendo muito sobre arte e todos os movimentos.

Qual a primeira obra que comprou, depois da monalisa?

Foi um (Maria Helena) Vieira da Silva que estava na capa do catalogo do leilão. Comprei muitas coisas em leilões. Tive sorte, pois nesta época em que comecei, no inicio dos anos 1990, seis grandes colecionadores do mundo morreram e venderam suas coleção, então consegui não penas preços razoáveis, mas também peças raras. Por exemplo, eu tenho um Lucio Fontana que foi sua primeira tela cortada. Ele estava entrando em casa e lembrou que havia esquecido de comprar o presente para sua mulher. Então fui ao um ateliê ao lado e encomendou uma tela emoldurada, fez um rasgo no meio, e uma dedicatória, tamanho 69×69 (risos). Mais uma vez o poder da imaginação: se tivesse dado à mulher uma jóia, talvez nunca tivesse ficado tão famoso quanto hoje. Depois o sacana morre e a mulher dele mandou vender tudo e uma das obras era esta. Já tive muita ofertas para vendê-lo, mas este quadro não tem preço. Alias, nunca vendi um quadro, só comprei. Não quer dizer que nunca venderei, mas até hoje nunca precisei.

E voce troca obras entre sua casa e os museus?

Adivinhe quantos quadros eu tenho em minha casa atualmente? Nenhum.

Porque?

Não sei, simplesmente é assim. Em uma de minhas casas, nas outras tenho obras. Mas me refiro a elas como minhas e as que estão no museu como “A Coleção”.

O Sr. nasceu pobre e hoje é um dos homens mais ricos de Portugal. Considera-se um homem de sorte?

Quando eu tinha 24 anos em Johanesburgo, um amigo tinha comprado um carro e me levou para dar uma volta com emoção: com as luzes apagadas, cruzávamos a cidade em alta velocidade, sem parar em nenhuma esquina. Naquele momento pensei: se eu morrer, ao menos morrerei a alma mais feliz do mundo. Foi irresponsável, não comprendo o que fiz, mas fiz e ponto. Felizmente, ninguém se machucou ou se magoou. Muita gente me diz que eu tenho um bom anjo da guarda. Acho que eu tenho dois anjos da guarda.

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