© Odir Almeida

Joaquim Paiva coleciona apenas fotografias. Com isso, tornou-se referência no Brasil e no mundo e pode ser visto levando seu olhar apurado aos comitês de revisão de eventos célebres, como o Foto España. Suas paredes são divididas entre jovens talentos e grandes nomes da fotografia mundial, como Miguel Rio Branco e Ansel Adams, além de alguns cliques de autoria do próprio Paiva. Neles, o tema predileto é Brasília, que também é recorrente no livro de imagens autorais que ele pretende lançar este ano, em comemoração aos 50 anos da Capital Federal. Em 2005, mais de mil fotografias de sua coleção brasileira passaram a integrar em comodato o acervo do MAM RJ, que já fez duas exposições com obras do colecionador.

As primeiras obras de arte que comprei foram…

duas fotografias de Diane Arbus, em 1978, em Caracas, Venezuela.

E comprei estas obras porque…

a primeira exposição de um fotógrafo que vi foi dela, alguns anos antes em Londres, e fui atraído por suas imagens.

E, entre os brasileiros, a primeira obra adquirida foi…

de Miguel Rio Branco. Minha coleção sempre foi mais voltada para a fotografia brasileira.

Meus artistas prediletos…

são muitos. Entre os brasileiros consagrados, Mario Cravo Neto, Cássio Vasconcellos. Entre os novos, Cia de Foto, (Leonardo) Ramadinha, Ateliê da Imagem.

A última obra que comprei foi…

de Alexey Titarenko. Dos brasileiros, a última que recebi foi de Alexandre Mury, uma série chamada The sound of Music, em que ele faz uma paródia da cena em que Julie Andrews canta no topo da montanha.

Alguma predileta entre as fotos de sua coleção?

Várias. Uma das estrelas é a da dupla búlgara Boris Missirkov e Georgi Bogdanov. Ela mostra um grupo em um piquenique mas, ao olhar de perto, você repara que as pessoas se repetem: o mesmo homem está sentado, fazendo ginástica e se escondendo. Tem um trabalho de manipulação também, como muitas das boas fotografias feitas hoje.

Como surgiu a paixão pela fotografia?

Fui exposto à fotografia muito cedo e de forma muito emotiva, porque meu pai (então já falecido) me foi apresentado através delas. Também sempre circulei pelo meio das artes visuais. Na verdade, há certas coisas que a gente explica, mas não se podem explicar.

Já houve a vontade de se estabelecer profissionalmente como fotógrafo?

Sim, mas minha vida se encaminhou para a diplomacia. É bom ter um hobby, mas, no meu caso, este hobby se tornou tão importante a ponto de ser sinônimo da minha identidade.

Houve um momento em que percebeu que se tornara um colecionador?

Em meados dos anos 1980, quando já participava das Semanas Nacionais de Fotografia, organizadas pela Funarte, e fazia projeções de fotografia da minha coleção. Quando comecei, fotografia e artes eram coisas separadas. Fui um pioneiro na coleção de fotografia no Brasil.

Hoje não existe mais distinção entre arte e fotografia?

Hoje temos artistas plásticos que descobrem a fotografia como suporte, certamente uma consequência de sermos uma geração criada com imagens, com televisão, cinema e vídeo. A foto se tornou um meio comum, não apenas por uma certa facilidade – enganosa, pois, tecnicamente, fotografar bem não é nada fácil – mas também porque comunica mais rapidamente do que uma pintura ou escultura e de forma absorvível também por um público menos especializado.

Você continua participando de festivais?

De muitos deles. Gosto de ir aos “Encuentros Abiertos”, em Buenos Aires, pois me interesso muito pela fotografia latino-americana. Também participo da revisão de portfólio do FotoFest, em Houston, que é a mais importante do circuito. Eles chamam pessoas envolvidas em fotografia – colecionadores, editores de revistas e jornais, diretores de museus – para ver o trabalho dos artistas inscritos; e assim muitos deles tem a chance de ter obras em coleções e museus ou ser tema de matérias na imprensa.

Este formato é comum?

Na verdade, está se disseminando. Em dezembro estive em São Paulo como leitor de portfólio para o FotoEspaña. Eles fizeram ações aqui e na Guatemala para facilitar a participação de fotógrafos latino-americanos. Este festival é um exemplo, com grande apoio do governo e das empresas privadas. Infelizmente, no Brasil, temos o problema da falta de continuidade das políticas públicas. A Semana e o Prêmio Nacional de Fotografia estavam ganhando força quando foram interrompidos pelo governo Collor.

Seu conhecimento técnico de fotografia influi muito na escolha das obras que adquire?

Sem qualidade técnica não é possível realizar a maior parte das fotografias que cativam, mas qualquer pessoa sensata sabe que ela não basta. Profissionais de grande apuro técnico podem não conseguir dizer nada, e outros com menos capacidade compensam com grande criatividade.

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