© Sylvia Carolinne

O Museu de Arte Contemporânea de Niterói, mais conhecido pela arquitetura espacial de Niemeyer, abriga uma de nossas grandes coleções de arte. Seu dono, João Sattamini, descobriu a arte em seus anos na Europa como diretor internacional do Instituto Brasileiro do Café, mas focou no Brasil suas aquisições. Com olhar apurado, Sattamini soube como ninguém reconhecer talentos em ascensão, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, resultando em uma seleção de obras invejável. Parte delas está na exposição Biografia Incompleta, em cartaz no MAC até 23 de setembro.

Quais as primeiras obras de arte que comprou?
Uma série de gravuras inglesas e, mais tarde, um óleo de Milton Dacosta

E por que essas obras?
As gravuras, porque estavam lá e gostei. O Dacosta, porque fui a um leilão no Copacabana Palace e comprei. Depois, comprei o Biografia Incompleta, de Antonio Dias, e assim comecei a comprar e nunca mais parei.

E a última obra que comprou?
Essa é fácil, foi ontem. Uma Ana Maria Tavares.

Por que essa obra?
Quando eu era da Associação de Amigos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, fizemos uma exposição dela nas Cavalariças em que ela cavou um enorme buraco, isolado por um vidro, uma coisa assombrosa. Fiquei amigo dela e quis comprar um trabalho, mas, na época, o Fabio Cimino pediu um preço que achei absurdo. Então, ano passado, ela fez uma exposição com a Silvia Cintra e acabei comprando uma e, agora, uma outra da série de obras sobre o metrô, com tubos de aço.

O que o leva a comprar uma obra?
Impossível comprar tudo, não? Por isso, tem que se comprar os novos, apostar no futuro. O que está estabelecido é muito caro, só quem pode comprar é banco! Ou, então, esse sujeitos jovens que estão descobrindo arte, como esse Calainho ou aquele Accioly, que tem duas Milhazes em casa…

Por sua história, parece que o senhor sempre comprou os jovens, uma vez que, na década de 1960, Dacosta e Antonio Dias ainda eram promessas.
Sim, é como na medicina. Os médicos gostam de trabalhar na Santa Casa para ter prática, não? Da mesma maneira, você vai pegando a prática da arte, acumulando os conhecimentos, reconhecendo o valor das obras antes dos outros. Este Ubi Bava, por exemplo, procurei por toda a parte até que o Leonel Kaz, que queria um Iberê meu, conseguiu esse e fez um pacote com mais dois Nelson Leirner e trocamos. Eram artistas que, na época, estavam meio fora de moda, assim como os monstros do Ivan Serpa. O Leonel mesmo, certa vez, descobriu uma senhora que tinha quatro deles pra vender. Pouco depois, ele me ligou avisando que o (Ricard) Akagawa estava vindo de São Paulo para vê-los. Saí correndo para comprar antes que ele chegasse (risos). Na época, todo o mundo achava uma porcaria, mas eu sempre achei interessante, importante.

E um suporte predileto?
Pintura e escultura. Tenho muita escultura, mais que o Gilberto (Chateubriand). Esse meteoro do Bruno Giorgi foi o último que ainda não era totalmente redondo, depois ele conseguiu aperfeiçoar. Comprei diretamente em Carrara, onde ele mandava fazer as obras. Aliás, um dos problemas é que os artistas mortos continuam produzindo, diretamente do além. O que tem aparecido de concretos por aí é coisa de louco! Ainda mais artistas que não fecham inventário, esses continuam produzindo pra sempre…

Como é seu relacionamento com os artistas?
Nunca vi alguém produzindo. Não gosto de ir aos ateliês, porque, se você não gosta do que vê, tem que dizer na cara do sujeito, é muito cruel. Também prefiro comprar com as galerias porque não gosto de negociar: pechincha é para mercado de tapete turco. Mas fiquei amigo de muitos artistas. Do Gerchman, por exemplo, devo ter uns 25 quadros.

Tem um sonho de consumo não realizado?
Tenho muitos. Não tenho Adriana Varejão, por exemplo. Quando ela começou a aparecer, o Thomas Cohn me passou um preço absurdo e eu não comprei. Ao menos ela doou um trabalho para o MAC, foi uma artista muito correta.

A arte é paixão ou investimento?
É igual colecionar bolinha de gude ou figurinha de sabonete Eucalol, não acredito que alguém tenha essa paixão toda correndo nas veias. Você vai comprando porque vai e quando vê, tem uma coleção. Esse Jorgimho Guinle, por exemplo, tenho porque éramos amigos e soube que ele não tinha dinheiro para ir à Bienal. É mentira essa história de que a família apoiava sua veia artística. O relacionamento entre eles era muito ruim, até porque ele nunca foi frugal com sua atividade sexual (risos). Enfim, eu e Afonso Costa demos a ele uma mensalidade para produzir e ficamos com os quadros da Bienal. Foi sua melhor fase, porque depois ele adoeceu e a pintura foi ficando mais escorrida.

Muitos colecionadores querem tornar suas coleções públicas. Em um caso como o seu, em que ela está em um museu, como fica o relacionamento com as obras?
Difícil, porque a prefeitura de Niterói não responde à altura da qualidade do museu e da coleção. Na época da criação do museu, eu mesmo arrumei o projeto com a Ana Maria (Niemeyer, filha do arquiteto). Tem um lado bom, pois eu tinha problema de espaço para a minha coleção, já que os pintores da década de 1980 só pintavam coisas enormes, mas, apesar das excelentes museólogas, não há verba e há desentendimentos. Não há alternativas, a falta de verba para a cultura é um problema no mundo todo, e assim vou, dando palpite e tentando participar.

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